Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Novos modos de ler, criticar e praticar

Por Sergio Vilas Boas em 07/10/2008 na edição 506

Este livro é a minha tese de doutorado (defendida na ECA-USP, em 2006), porém suavemente retocada. As reflexões sobre narrativas biográficas giram em torno de seis tópicos e cada tópico é um capítulo. Assim:

1. Descendência, em que relativizo a idéia de uma herança familiar explicativa do ser (biografado);

2. Fatalismo, em que considero fictício qualquer personagem real visto como predestinado vencedor;

3. Extraordinariedade, em que critico os preconceitos decorrentes da crença numa genialidade inata;

4. Verdade, em que desmistifico a biografia como a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade sobre uma pessoa;

5. Transparência, em que proponho que os biógrafos também se revelem ao longo de seus textos;

6. Tempo, em que mostro por que a narração biográfica linear-cronológica é uma limitação tanto filosófica quanto narrativa.

Em cada capítulo há trechos elucidativos extraídos das biografias JK, o artista do impossível, de Cláudio Bojunga; O anjo pornográfico, a vida de Nelson Rodrigues e Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro; Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais; Mauá, empresário do Império de Jorge Caldeira; Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines; e Fidel Castro, uma biografia consentida (dois tomos), de Cláudia Furiati.

Busquei suporte teórico e inspirações em diversos campos: História, Filosofia, Antropologia, Sociologia, Psicologia, Mitologia, Literatura de Ficção, História da Arte, Física Quântica, Cinema Documental e Jornalismo Literário. Para não ficar só no ‘problema’, em cada capítulo aponto algumas alternativas para tornar o conteúdo e a forma da biografia mais vívidos e reflexivos.

Notem que, ao longo do ensaio, entremeei narrações minhas sobre a faceta biógrafo do jornalista Alberto Dines, autor de vários livros, entre eles a biografia Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig. (O escritor austríaco Stefan Zweig, aliás, também foi biógrafo.) Demarcadas com outro tipo de letra, essas narrações se baseiam majoritariamente nas conversações que mantive com Dines entre novembro de 2005 e maio de 2006.

Outros esclarecimentos: (a) exceto quando especificado, todos os trechos entre aspas dentro da narração sobre ‘o biógrafo Alberto Dines’ foram extraídos de Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (1ª edição, 1981, e/ou 3ª edição, 2004); (b) traduzi eu mesmo as citações em destaque extraídas de obras originalmente em inglês e espanhol; (c) são propositais as sobreposições dos discursos meu e de Dines nos trechos narrativos. É como se um falasse em nome do outro, de maneira coexistencial, sem a clássica separação entre ‘quem fala’ e ‘quem escreve’.

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Como contar a história de pessoas

Edvaldo Pereira Lima # texto da ‘orelha’ de Biografismo

A biografia vive bom momento no país, desde que jornalistas decidiram navegar nessas águas – até então sulcadas por biógrafos acadêmicos –, transformando-a num gênero literário crescentemente popular. Trouxeram na bagagem novos procedimentos de pesquisa, linguagem e estruturação de histórias de pessoas reais, famosas ou anônimas. Mas a biografia é pouco compreendida, conceitual e tecnicamente. Não se teoriza o suficiente, não se propõem avanços que a mantenham em renovação.

Cobrindo este vazio, surge este oportuno livro de Sergio Vilas Boas, em criativo diálogo com Alberto Dines. Em interação, um jornalista e pesquisador de alto calibre e um jornalista e biógrafo de mão cheia, antecessor da geração de jornalistas-escritores que hoje ocupam as prateleiras do sucesso biográfico. Juntos, navegam pelo mundo de outro escritor-biógrafo – Stefan Zweig, que em sua época também inovou a prática – e trafegam em suas próprias histórias, a de Sergio e a de Alberto, autores e personagens. Sergio visita estudiosos de campos distintos: do Jornalismo Literário à psicologia, da física quântica à biologia, da teoria literária à genética.

Uma empolgante condução de texto, combinando o discurso narrativo e o dissertativo. Abre-se um caleidoscópio de conteúdos, histórias dentro de histórias, reflexões associadas a insights súbitos. O autor examina produções biográficas recentes, buscando elucidar os paradigmas – os alicerces do modo como os biógrafos encaram as vidas que retratam – cujo efeito sobre a leitura da realidade é involuntariamente falacioso.

Isso é feito não para diminuir as obras desses autores, mas para iluminar avanços em direção à atualização contínua do gênero. Afinal, os valores imperantes de percepção do mundo – portanto, das vidas humanas – na nossa sociedade ainda estão demasiadamente atrelados a uma perspectiva simplista. Os biógrafos não são imunes a isso. Contudo, a realidade é complexa, como nos mostra a ciência de ponta. Para se manter em evolução, a arte biográfica precisa introjetar novas propostas de compreensão das vidas.

Este é o objetivo da obra. Contribuir para um salto qualitativo do biografismo, esta nascente disciplina onde o Jornalismo, a História e a Literatura fundem uma nova maneira de se contar histórias de pessoas.

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Jornalista, escritor, professor e pesquisador especializado em narrativas biográficas, autor de Biografias & biógrafos (2002) e Perfis (2003); co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e editor da revista de não-ficção Texto Vivo

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