Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ARMAZÉM LITERÁRIO: SURPRESAS! (I)

Nunca houve inquisição, nem censura – só galhardia

Por Alberto Dines em 26/05/2015 na edição 852

Os eventuais leitores destas observações devem ser previamente notificados a respeito de uma avultada querela entre o autor do compêndio História dos Jornais no Brasil, o jornalista Matías M. Molina e este resenhista.

Ao longo de 2011-2012 foi publicada no prestigioso caderno de fim de semana do Valor Econômico uma série de trailers (ou teasers) para testar o projeto, estimular os necessários debates e gerar complementações. A contribuição deste resenhista foi, digamos, robusta e como recompensa recebeu uma ostensiva ameaça: considerando o teor dos seus reparos seria excluído de possíveis depoimentos/testemunhos (ver remissões abaixo).

Ameaça consumada junto com a publicação do primeiro volume e, antes mesmo de iniciado o texto, por meio da utilização errônea e abusiva de uma ferramenta crucial para definir livros e autores: a bibliografia. E esta é, simplesmente, uma calamidade (pág. 499). Sob todos os pontos de vista – ideológico, metodológico, ético – Matías Molina oferece ao leitor, com incrível transparência, um retrato de suas intenções.

Tome-se o minúsculo verbete dedicado ao gaúcho Hipólito José da Costa, considerado o patriarca da imprensa brasileira e da imprensa livre portuguesa. Em torno da figura e obra deste intelectual (magnífico representante do Iluminismo luso-brasileiro), militante político, polígrafo e jornalista, concentram-se, aqui e além-mar, há mais de um século, todas as querelas entre o grupo clerical-conservador-monarquista e a historiografia moderna, secular, liberal, democrática.

Para dimensionar a retrógrada dissensão basta lembrar que em 2008, nos festejos dos 200 anos da chegada da corte lisboeta ao Brasil, nossa imprensa, por intermédio da Associação Nacional de Jornais (ANJ), por sua vez inspirada e orquestrada pelo Opus Dei, decidiu passar ao largo de um dos mais importantes aportes desta transferência do poder político: a permissão para afinal ser instalada uma tipografia na colônia (com 308 anos de atraso) e, em seguida, a licença para a circulação do primeiro periódico em seu território.

Informações sequestradas

Nossa entrada na era Gutenberg deveria dar-se por meio da Gazeta do Rio de Janeiro, símile da Gazeta de Lisboa, ambos órgãos oficiais, chapas-brancas. Foi furada pela primeira edição de um mensário sólido, denso – quase um livro –, escrito e impresso em Londres, em 1º de junho de 1808, sob a responsabilidade do gaúcho Hipólito José da Costa Furtado Pereira de Mendonça.

Franco-maçom ou pedreiro-livre, Hipólito foi encarcerado pela Inquisição em Lisboa e conseguiu escapar para Londres, onde, com a ajuda da maçonaria inglesa, lançou, escreveu e editou ininterruptamente, ao longo de 14 anos, o Correio Braziliense ou Armazém Literário. Uma façanha que marcou decisivamente os demais periódicos livres impressos no Brasil até pouco antes da independência e justifica sua indicação como o primeiro Herói Nacional do nosso futuro Panteão.

Apesar desses méritos (ou talvez por eles), Hipólito entrou para a lista negra da facção clerical que domina nossa grande imprensa e parte da regional. Os festejos dos 200 anos da nossa imprensa foram comemorados com uma monumental e vergonhosa “barriga”: não mereceu qualquer menção (salvo um pequeno registro na Folha de S.Paulo), o que levou o programa televisivo do Observatório da Imprensa a produzir três edições sobre o vexaminoso comportamento (posteriormente reproduzidas em DVD).

A coleção completa do Correio Braziliense foi reproduzida em 29 volumes, fac-similados e reconstituídos com esmero pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Matías Molina resolveu encarar a figura de Hipólito e sua obra num mirrado verbete no qual menciona apenas o Volume I, ignora os restantes 28 e mais outros dois volumes extras – um de ensaios originais & iconografia, outro com um valioso índice remissivo preparado pela Biblioteca Nacional em 1976 e esgotado. Não cita a segunda edição dos 31 volumes, mas para fingir isenção indica a edição digitalizada na Brasiliana da USP de difícil navegação e manuseio em pesquisas demoradas.

Nenhuma indicação com o nome dos organizadores. Este resenhista é um deles, tudo bem: o instituto da lista negra é uma realidade concreta, impossível desmontá-la, porém a tremenda injustiça com a coeditora Isabel Lustosa deveria ser denunciada se Matías Molina não fosse tão desorganizado como autor e pesquisador.

Assim, as citadas precariedades bibliográficas ficam parcialmente disfarçadas em um anexo designado como “Notas” (pág. 473). Erro crasso: segundo a tradição e as convenções atuais, “Notas” deve ser o conjunto de rodapés numerados e consolidados em seção à parte (quando não publicados no pé da página). Molina confunde as duas ferramentas. Por desconhecer a estrutura de um compêndio historiográfico ou para não destacar nomes ou informações que não lhe convêm, joga-os desordenadamente num reboque negando-lhes o direito de figurar na Bibliografia, primeira ferramenta extratexto a ser consultada num trabalho semelhante.

E como encontrar estes dados sequestrados? Só consultando o Índice Remissivo (pág. 509). Eis aí um estapafúrdio conceito de busca: ao invés de conduzir o leitor ao que ele não sabe, propõe justamente o contrário – o leitor precisa saber com precisão o que quer para depois encontrar a referência num dos anexos.

Compilação ignorada

Ou não. Por razões fáceis de intuir, Molina não nomeia tanto na Bibliografia como nas Notas o trabalho deste resenhista, “Aventuras e Desventuras de Antonio Isidoro da Fonseca”, publicado no livro Em nome da fé (págs. 75-89, Editora Perspectiva, São Paulo, 1999).

Neste trabalho comprova-se documentalmente que a tipografia que o importante impressor lisboeta instalou no Rio de Janeiro foi desmantelada por ordem expressa do Conselho Geral do Santo Ofício, em 1747. Com isso desmonta-se a tese de que o controle sobre a impressão e a censura que tanto prejudicaram o desenvolvimento brasileiro não foi obra de uma monarquia relapsa e estúpida – como propunha e parece propor Molina –, mas obra de uma Medusa esperta, sanguinária. designada abreviadamente como Inquisição.

O modesto trabalho acompanhado pela irrespondível reprodução documental, reconhecido como importante na Revista de História da Biblioteca Nacional (julho de 2014), foi discutido extensamente no programa de TV do Observatório da Imprensa e no documentário de Silvio Tendler Preto no Branco, censura antes de imprensa, porém não mereceu figurar na Bibliografia. No entanto, é desqualificado pelo professor Molina sem qualquer indicação de fonte ou origem.

A controvérsia em torno da entidade patrocinadora da censura trissecular no Brasil – Coroa ou Igreja? – foi pivô dos embates entre este resenhista e o autor.

E certamente continuará como peça central do debate a propósito destes apontamentos. Basta verificar que na desencontrada Bibliografia deste primeiro volume da História dos Jornais no Brasil, não por acaso ficou de fora uma obra fundamental para avaliar a extensão da grande desgraça brasileira – o horror à liberdade de expressão.

Trata-se de um levantamento impecável, hoje clássico, cujos dados não podem ser manipulados nem seu significado embaralhado: O Controle da Informação no Brasil, de Antonio F. Costella (Editora Vozes, Petrópolis, 1970). [Segue]

Leia também

A Inquisição não existiu, é invenção de leigos – Alberto Dines (31/10/2011, edição nº 666)

Resposta a Alberto Dines – Matías M. Molina (15/11/2011; contestação ao artigo “História truncada: A Inquisição não existiu, é invenção de leigos”)

Embargo suspenso: a imprensa já pode discutir seu passado – A.D. (15/11/2011, edição nº 668)

A Inquisição existiu. E provocou tremendo atraso – A.D. (edição nº 676, em 10/01/2012)

Resposta a Alberto Dines (II) – M.M.M. (17/01/2012; resposta ao artigo “A Inquisição existiu. E provocou tremendo atraso”)

Reabilitação de Hipólito é façanha histórica – A.D. (17/01/2012, edição nº 677)

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