Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / PAULA PARISOT

O amor pela literatura e a crença na vida

Por Deonisio da Silva em 18/09/2007 na edição 451

Se dependermos da mídia, não vamos descobrir escritor algum. Mas Paula Parisot, com a força de seu texto, mais cedo ou mais tarde vai levar a mídia a ocupar-se de sua literatura.

Um outro dado insólito é que Rubem Fonseca, ausente da mídia desde década de 1970, é o escritor que mais influencia os novos ficcionistas. O lado bonito disso tudo é: ele influencia pelas livrarias. É lá que estão os seus livros.

Isso desmistifica também um outro dado: o de que os jovens não lêem. Poucos lêem muito, como sempre, pois livro literário de qualidade não é fenômeno de massa. Nunca foi em lugar algum. E quando o foi, a exceção deu-se por razões extra-literárias.

Paula Parisot é leitora de Rubem Fonseca. Fez-se escritora por causa de livros deste autor. Ela estreou com A Dama da Solidão (Companhia das Letras), coletânea de contos marcantes pela ousadia. Seu atrevimento ao tratar do erotismo lembra a prosa de Álvares de Azevedo em Macário e A Noite na Taberna, face bandalha de um poeta romântico cujos versos são de um lirismo insuperável. Pois esta autora sabe alternar também, e com um vigor todo próprio, ousadia na abordagem do sexo e ternura e compaixão com os personagens enredados em histórias líricas, comoventes.

A força deste livro dá indícios de que a estréia é promissora. Vem para ficar e perfila-se junto a autoras que inovaram a voz feminina em nossas letras. Com o tempo e mais alguns livros, que certamente virão, será referência para a literatura brasileira.

Tudo começou quando era adolescente e recebeu da avó o livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. ‘Na época, eu não gostava de ler. Passava dias inteiros desenhando e sonhando em me tornar uma pintora e fugir para bem longe. Não li o livro naquela noite, nem no dia seguinte, mas uma semana depois, quando acordei assustada no meio da noite. E foi naquela noite que o Rubem Fonseca entrou na minha vida, foi naquela noite que o meu mundo se transformou. Eu descobri a leitura, os livros.’

Sua presença vem somar-se à de escritoras como Betty Milan e Adriana Lunardi, já entrevistadas neste espaço, que estão renovando o modo de tratar de temas delicados da condição feminina.

Aos 27 anos, vivendo no Rio, ela deu a seguinte entrevista ao Observatório da Imprensa.

***

Você estréia por uma prestigiosa editora, a Companhia das Letras, com o livro A Dama da Solidão, contos ousados, tanto nos temas quanto no modo de tratá-los. Você, sendo igualmente muito jovem, como foi, por exemplo, Álvares de Azevedo quando escreveu alguns dos mais belos versos de nossas letras, apresenta uma maturidade rara nos jovens escritores. A que atribui isso?

Paula Parisot – Muito cedo alguma coisa em mim se quebrou e quando isso acontece você tem a sensação de que já é tarde demais. A minha inocência, a minha crença nas pessoas e no mundo foi substituída por um sentimento constante de desconfiança, medo, raiva e conseqüentemente, revolta. Tive que amadurecer, senão a vida se tornaria insuportável. De certa forma, amadurecer é saber conviver e aprender (não digo aceitar e perdoar) com esses acontecimentos que nos quebram. Acontecimentos que muitas vezes, principalmente na infância, são independentes da nossa conduta. Amadurecer é ser capaz de enfrentar as vicissitudes de maneira mais sábia.

Seus contos abordam conflitos muito concretos e fascinam pelo modo simples como você organiza as tramas, descomplicando as coisas para o leitor. Você se preocupou com os leitores ao escrevê-los? Teve um determinado tipo de leitor em mente?

P.P. – Em momento algum me preocupei com o leitor e muito menos tive um determinado tipo de leitor em mente. Eu queria contar essas histórias, precisava falar sobre questões que me faziam pensar e que de certa forma me inquietavam. Todavia, antes de começar a escrever cada um desses contos, imaginei exatamente como cada personagem seria, sabia quem eram essas pessoas. Mesmo que não as descrevesse, eu sabia como eram fisicamente, a cor dos olhos, a voz, a maneira de andar e, principalmente, como pensavam, o que desejavam, o que temiam, os motivos de suas angústias e alegrias. Outra coisa que me interessava, e me interessa, é a contradição que existe em cada um. Só começo a escrever quando já tenho a história em linhas gerais praticamente pronta na minha imaginação. Depois, então, decido se vou narrá-la na primeira pessoa, na terceira, os aspectos formais da história. É claro, que em seguida faço uma revisão cuidadosa e modifico muitas coisas e em certas ocasiões, quando concluo que o conto não está bom, eu o suprimo. Talvez, por isso eu torne as coisas descomplicadas para o leitor. O conto força o escritor a buscar o máximo de concisão. O Drummond dizia que escrever é cortar palavras e eu acredito que fiz isso exaustivamente em cada uma das histórias narradas no A dama da solidão.

Os que têm lido seu livro destacam nele o erotismo, a forma desabrida com que trata do desejo, do sexo e de outros temas igualmente tidos por inconvenientes. Mas em nenhum momento noto a mais leve tendência em produzir escândalo. É por que esses temas aparecem num contexto de que fazem necessariamente parte?

P.P. – Para a literatura, não existem temas ‘inconvenientes’. Em nenhum momento passou pela minha cabeça, como você percebeu, a intenção de produzir escândalo. Desejo e sexo fazem parte da vida das pessoas.

Diz-se que o narrador de Balzac era um cinqüentão vivido, sociável. Quem é o narrador ou a narradora destes seus contos?

P.P. – Varia de um conto para o outro. Mas é claro que todos esses narradores diferentes partem de mim. Logo, eles compartilham um pouco da minha experiência de vida e, evidentemente, da minha imaginação – afinal a literatura é quase sempre imaginação. Acredito que dentro de cada pessoa existem diferentes vozes. Como disse Mário de Andrade, grande figura da semana de arte moderna de 1922, em um poema, ‘Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinqüenta’, ecoando o que Whitman, autor de Folhas de Relva, disse anteriormente, ‘Eu sou grande, contenho multidões’.

Matar um personagem é difícil para você? E por que você escolheu aqueles modos de matar e não outros?

P.P. – No começo, eu não queria matar personagem algum. Achava que matar um personagem seria uma maneira fácil de terminar a história. Depois descobri que isso era um engano – as pessoas morrem. E, talvez, as duas coisas mais incompreensíveis na vida sejam a morte e o amor. Entretanto, a vida não faria sentido se a morte e o amor não estivessem constantemente presentes. Sófocles disse que ‘uma palavra nos liberta de todo o sofrimento da vida; essa palavra é o amor’. A morte também nos liberta, pois toda vez que pensamos nela tomamos consciência que a vida pode acabar a qualquer momento. A morte de cada personagem foi planejada com muito cuidado, mas foi sempre uma decisão difícil a morte deles.

Há uma visão muito pura da prostituição quando você refere o trabalho das antigas cortesãs. Elas encontram alguma equivalência com as garotas de programa de hoje?

P.P. – O conto é narrado por uma prostituta, o que temos é a visão dela. Mas, eu não classifico as prostitutas como vilãs.

Você está escrevendo um novo livro? Tem alguma preferência pelo gênero conto?

P.P. – Estou terminando de escrever um monólogo teatral para uma personagem mulher. Já tenho uma idéia geral sobre um romance, que começarei a escrever assim que finalizar a peça.

O que eu mais gosto de ler é poesia. Depois, contos, e finalmente romances. Poesia, eu não tive coragem de escrever. Então antes de escrever A dama da solidão tinha duas opções: conto ou romance. Decidi pelo conto, que na época me pareceu um desafio maior que escrever um romance, pois um livro de contos exige uma mudança de tom, ritmo e tema, conforme a história que está sendo narrada. Agora, o romance me parece o maior desafio, pois terei que buscar um estilo que ainda é desconhecido para mim.

Poucos escritores contemporâneos influenciam tanto os jovens escritores como Rubem Fonseca, a quem você dedica seu livro. Do mais censurado de nossos ficcionistas, ele se tornou uma referência literária para nosso país, no Brasil e no exterior, de que são exemplos os importantes prêmios que arrebatou, como o Juan Rulfo e o Camões. Como leitora dele, a que você atribui a força do texto dele e em que medida os livros dele a influenciaram?

P.P. – Quando eu tinha treze ou quatorze anos, minha avó paterna me presenteou com o livro Feliz ano novo, de Rubem Fonseca. Na época, eu não gostava de ler. Passava dias inteiros desenhando e sonhando em me tornar uma pintora e fugir para bem longe. Eu desenhava na biblioteca da casa dessa minha avó, onde também dormia. Aquele lugar era o meu quarto e refúgio. Porém, era também um lugar odiado por mim, detestava aqueles livros com seu cheiro de mofo. Até então, eu só lia os livros exigidos pelo colégio. Numa noite, após o jantar, minha avó bateu na porta do meu quarto e me entregou um livro cinza claro amarrado em uma fitinha vermelha com um laço. Eu pude ler Rubem Fonseca, Feliz ano novo. Não li o livro naquela noite, nem no dia seguinte, mas uma semana depois, quando acordei assustada no meio da noite.

E foi naquela noite que o Rubem Fonseca entrou na minha vida, foi naquela noite que o meu mundo se transformou. Eu descobri a leitura, os livros. E aquela biblioteca onde eu dormia que me parecia soturna passou a ser o lugar das descobertas. O lugar onde tudo era possível. Dentro daqueles livros vários mundos estavam ao meu alcance. Anos mais tarde conheci o Rubem Fonseca, um homem que tem as duas maiores virtudes do ser humano, segundo Bertrand Russell: inteligência e bondade. De uma generosidade que só os grandes são capazes. O Rubem me fez acreditar na humanidade, que o homem pode ser bom. Talvez, por isso, não tenha hoje mais a capacidade de separar o homem, o escritor e a sua obra. Então, como não dedicar o meu primeiro livro para ele dizendo, ‘Para Rubem Fonseca sempre’. O meu amor pela literatura e a minha crença na vida como algo positivo nasceram através desse artista que se chama Rubem Fonseca.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

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