Terça-feira, 23 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº942

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

O anjo da guarda dos excluídos

06/02/2007 na edição 419

[do release da editora]

A primeira biografia do jornalista, rábula, militante contra a carestia e analfabetismo, parlamentar e poeta Cosme de Farias será lançada hoje, dia 30 de janeiro, às 16 horas, no Saguão do Plenário da Assembléia Legislativa da Bahia, em Salvador. De autoria da jornalista e mestre em história social Mônica Celestino, o livro Cosme de Farias resgata a trajetória do major e reúne textos jurídicos, políticos e jornalísticos, hinos e poemas redigidos por ele. Sexto volume da coleção ‘Perfil do Parlamentar da Bahia’, a obra apresenta ainda fotografias assinadas pelo repórter fotográfico Anízio de Carvalho, e vem acompanhada por uma versão fac-símile da ‘Carta do ABC’, cartilha criada pelo humanista para facilitar a alfabetização de crianças e adultos de baixa renda. Toda a tiragem de 1.000 exemplares será distribuída gratuitamente para instituições de ensino, bibliotecas, arquivos, repartições públicas e pesquisadores.

Em março, faz 35 anos da morte do filho do comerciante de madeira Paulino Manuel e de Júlia Cândida de Farias. Aos dois dias de abril de 1875, ele nasceu na localidade de São Tomé de Paripe, em Salvador, e foi batizado como Cosme de Farias. Mais tarde, ganharia fama em todos os cantos da Bahia como ‘Major Cosme’, graças à sua singular forma de vida. Até sua morte, em 1972, atuou como jornalista em vários periódicos; foi membro-fundador da Associação Bahiana de Imprensa e membro do seu conselho fiscal por décadas; trabalhou como funcionário público; destacou-se como rábula, poeta, militante de causas como o combate ao analfabetismo e à carestia; cumpriu quatro mandatos como vereador e cinco como deputado estadual.

Um militante do povo

‘A história dele precisa ser preservada e não apenas por ele ter sido parlamentar. Cosme de Farias foi uma pessoa relevante para a história da cidade e da gente da Bahia. Ele mudou o destino de centenas de pessoas’, ressalta a autora, que pesquisa sobre a vida e obra de Cosme há cinco anos e desenvolveu a dissertação ‘Major Cosme de Farias – o anjo da guarda dos excluídos de Salvador’, sob a orientação do professor Israel Pinheiro, no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Testemunha e muitas vezes protagonista dos principais fatos das primeiras décadas da República, buscou a mudança do destino de centenas de pessoas através de ações na Liga Baiana contra o Analfabetismo e em outros movimentos sociais, organizações da sociedade civil e manifestações públicas. Pregava e atuava pela escolarização, por melhores salários e condições de trabalho e contra a alta de preços dos gêneros de primeira necessidade. Por sua benemerência, ganhou de presente a patente de Major R-2 da Guarda Nacional, mesmo sem nunca ter empunhado armas.

Pobreza franciscana

Aos 19 anos, depois de atuar no comércio ao lado do pai, ele tornou-se repórter do Jornal de Notícias. A partir de então, exerceu o ofício como funcionário ou colaborador de jornais locais. Foi, então, repórter e até diretor de redação. Destacou-se também por sua atuação como advogado provisionado (rábula), embora tenha concluído apenas o curso primário. Em mais de 70 anos, interveio em aproximadamente 30 mil processos penais ou cíveis. Defendia réus acusados de crimes diversos – incluindo homicídio, roubo, estupro e atentado violento ao pudor – e atuava em causas de família, principalmente de tutoria em favor de órfãos e menores de idade com pais desconhecidos ou residentes em local ignorado. Atendia a quem o procurava, independente de seu crime. Só cobrava de quem podia desembolsar pelo serviço e, ainda assim, revertia o dinheiro para outras ações sociais.

O voraz defensor da liberdade chamava atenção pela aparência. Andava com chapéu de palhinha na cabeça, gola alta típica do século XIX, peitilho e punhos engomados para esconder a falta da camisa sob o paletó surrado e doava tudo que recebia. Parecia um franciscano: estendia as mãos ou encaminhava bilhetinhos a políticos, profissionais liberais, dirigentes de órgãos públicos e empresários solicitando donativos, emprego ou o simples internamento hospitalar ou asilo para seus protegidos. Assemelhava-se a personagens de romance amadiano, ao cultivar hábitos como beber cerveja quente antes e durante o almoço e a fama de mulherengo (apesar de ser casado por mais de 60 anos com uma única mulher e nunca ter tido filhos biológicos).

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