Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

O coronel conta sua história

13/04/2004 na edição 272

[do release da editora]

Lício Augusto Ribeiro Maciel era major-adjunto do Centro de Informações do Exército, quando atuou na linha de frente do combate à guerrilha do Araguaia. Depois de 30 anos de silêncio, ele decidiu contar sua história ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Seu depoimento está no livro O coronel rompe o silêncio, um relato impressionante, dramático e revelador, que nos ajuda a reconstruir um dos episódios mais sombrios de nossa história recente.

Planejada e organizada pelo Partido Comunista do Brasil, o PC do B, a guerrilha do Araguaia resistiu de 1972 a 1975, desafiando o Exército, numa tática que pretendia, a partir da criação de ‘comitês populares’ no interior do país, formar um amplo movimento camponês, capaz de derrotar a ditadura. Durante esse período, o Exército mobilizou cerca de cinco mil militares, numa das maiores movimentações de tropas do país. Depois de duas operações fracassadas em 1972, partiu-se para uma terceira ofensiva, em outubro de 1973, com o apoio das Polícias Militares dos estados da região e das outras Forças Armadas.

Foi quando o major Lício Augusto Ribeiro, hoje um pacato senhor de 74 anos, começou a atuar. ‘Dr. Asdrúbal’, nome de guerra de Lício, participou ativamente do combate aos revolucionários. Os tiros do major e seu grupo mataram quatro guerrilheiros. No enfretamento, ele também foi ferido – um tiro no rosto, dado por uma guerrilheira que logo após foi fuzilada, é uma marca que carrega até hoje. Nesse terceiro cerco, o movimento revolucionário foi enfim derrotado.

Este livro revela, em detalhes, a violência e a crueldade que marcaram essa guerra que muitos preferem esconder. O impactante depoimento do coronel Lício – que Luiz Maklouf confrontou com o de participantes da guerrilha, seja do lado dos militares, seja do lado dos guerrilheiros – pode ajudar os familiares dos guerrilheiros mortos a encontrarem seus corpos. Foi justamente para fazer um acerto de contas com essa página inglória de nossa história que o coronel Lício decidiu falar.

As revelações

** Lício Augusto Ribeiro foi o militar que mais matou na guerrilha do Araguaia. O coronel participou da morte de cinco guerrilheiros: três em confronto direto, um depois de ser ferido e a última fuzilada depois de atirar em Lício.

** O coronel revela a participação do general Nilton Cerqueira – famoso comandante da operação que matou Carlos Lamarca – na guerrilha do Araguaia. Cerqueira confirma as declarações de Lício e relata sua atuação na repressão aos guerrilheiros do PC do B em entrevista inédita a Luiz Maklouf.

** Lício foi o comandante do grupo que prendeu o atual presidente nacional do PT José Genuíno e revela que ele não sofreu tortura na mata, informações confirmadas por Genuíno em entrevista ao autor em janeiro de 2004.

** O livro traz o depoimento de militares que nunca haviam falado sobre sua participação no Araguaia, como o coronel Aluízio Madruga e os generais Álvaro Pinheiro e Arnaldo Braga. O coronel rompe o silêncio aponta também os nomes de vários oficiais que atuaram na guerrilha – entre eles Wilson Romão, que foi diretor da Polícia Federal do governo Itamar Franco, e Taumaturgo Sotero Vaz, ex-comandante militar da Amazônia.

O autor

Luiz Maklouf Carvalho, 51 anos, nasceu em Belém. É jornalista e bacharel em direito. Começou sua carreira na imprensa paraense, onde foi editor do jornal Resistência e correspondente do jornal Movimento. Nas décadas de 70 e 80, escreveu várias reportagens sobre a guerrilha do Araguaia. Recebeu um prêmio Esso Regional do Norte (O Estado do Pará, 1977) e, como repórter e editor de Resistência, quatro prêmios Wladimir Herzog.

Radicado em São Paulo desde 1983, Maklouf foi repórter especial de O Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo. Atualmente é repórter colaborador de O Estado de S.Paulo. É autor de vários livros, entre eles, Mulheres que foram à luta armada (Prêmio Jabuti de Livro Reportagem / 1999) e Cobras Criadas – David Nasser e O Cruzeiro (2001), e editor do site Profissão: repórter.

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