Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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ARMAZéM LITERáRIO >

O cronista e a crítica da imprensa em Canudos

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 06/09/2005 na edição 345

Na juventude, Machado de Assis foi um dos responsáveis pela formação e consolidação da imprensa no Brasil, considerando-a, na crônica ‘O jornal e o livro’, de 10 e 12/1/1859, como ‘a verdadeira forma da república do pensamento’ (1997: 945). Experiente na prática jornalística, porém, percebeu que a imprensa tinha uma dívida democrática com a sociedade, visto que a atividade privilegiou em seu certame noticioso os donos do poder. Por meio da crônica, esse gênero híbrido que se posiciona entre o jornalismo e a literatura, Machado de Assis manifestou o seu posicionamento em questões delicadas da vida política brasileira, como foi a guerra de Canudos. Enquanto ombudsman e crítico da imprensa, o cronista lutou destemidamente por um equilíbrio editorial por parte dos jornais no trato com a gente de Antônio Conselheiro. Machado percebeu que o sensacionalismo adotado por grande parte da imprensa prejudicou a compreensão da opinião pública a respeito daquele fato histórico que culminou por exemplo em toda uma reflexão ainda contemporânea sobre a urgência de uma reforma agrária no Brasil.

Machado de Assis tratou o chefe sertanejo e líder de Canudos como uma verdadeira ‘celebridade’ e ficou desapontado quando o leitor ignorava o conteúdo político daquela personalidade pública. O episódio de Canudos, que estremeceu o início do regime republicano, nos últimos anos do século 19, sabemos, demandou quatro expedições militares para destruir Conselheiro e seus seguidores. A razão do conflito, segundo o historiador Edmundo Muniz (1978), deve-se à tentativa de Canudos em estabelecer uma sociedade socialista no sertão da Bahia, onde os camponeses lutavam contra a burguesia em ascensão que se unira aos grandes proprietários rurais para a preservação dos latifúndios. A crônica de 22/7/1894, também conhecida como ‘Canção de piratas’, publicada na coluna A Semana do jornal Gazeta de Notícias, mostra a desconfiança de Machado com relação aos relatos oficiais que tratavam de Canudos e de Conselheiro:

Crede-me, esse Conselheiro que está em Canudos com os seus dois mil homens, não é o que dizem telegramas e papéis públicos. Imaginai uma legião de aventureiros galantes, audazes, sem ofício nem benefício, que detestam o calendário, os relógios, os impostos, as reverências, tudo o que obriga, alinha e apruma. São homens fartos desta vida social e pacata, os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos, os mesmos delitos, as mesmas virtudes. Não podem crer que o mundo seja uma secretaria do Estado, com o seu livro do ponto, hora de entrada e saída, e desconto por faltas (…) Os partidários do Conselheiro lembraram-se dos piratas românticos, sacudiram as sandálias à porta da civilização e saíram a vida livre.

A vida livre, para evitar a morte igualmente livre, precisa comer, e daí alguns possíveis assaltos (1955: 145-146)

Voz do sertão

Além de admitir que a imprensa adotava uma linha editorial de qualidade duvidosa, Machado de Assis salientou naquela oportunidade que nem sempre saquear significa um pecado capital ou um atentado à honestidade. No caso de Canudos, os possíveis assaltos serviam para livrar da morte um grupo que estava alijado da assistência social por parte do governo. Talvez por estar exausto de ouvir por parte da imprensa que o Conselheiro era um ‘fanático’, conforme noticia em ‘Canção de piratas’ (1955:143) e ‘salteador’, segundo a crônica A Semana, de 13/9/1896, o autor de Esaú e Jacó em tom irônico desdenha a acusação oficial, que rotula Conselheiro como herege, ladrão e desordeiro. Esses termos, que produz a estigmatização e a segregação de alguns sujeitos e categorias sociais (no caso, os ‘jagunços’ conselheiristas), cumprem a tarefa de fazer distinções entre os que são considerados desejáveis (pelo governo republicano, a igreja católica e a grande imprensa) daqueles que se pretende controlar ou excluir. Em A Semana, de 13/9/1896, Machado compara a situação do profeta Benta Hora, perseguido pela Igreja Católica e pelo governo baiano, com a retaliação sofrida por Antônio Conselheiro pelas classes dominantes, já que ambos conseguiam pregar mensagens religiosas e políticas, capazes de atingir um grande público:

Ocupado em aprender a minha vida, não tenho tempo de estudar a dos outros; mas, ainda que esse Antônio Conselheiro fosse um salteador, por que se há de atribuir igual vocação a Benta Hora? E, dado que seja a mesma, quem nos diz que, praticado com um fim moral e metafísico, saltear e roubar não é uma simples doutrina? Se a propriedade é um roubo, como queria um publicista célebre, por que é que o roubo não há de ser uma propriedade? (Machado de Assis, 1955: 277-278).

Observem que, nesse caso, o narrador machadiano ocupa inicialmente o lugar de fala de muitos que se dizem ocupados com a própria vida e não têm disponibilidade para colher lições da vida alheia, admitindo, assim, a propaganda anti-Conselheiro como verdade, para depois surpreender o leitor com questões que provocam o regime do ‘politicamente correto’. Para tanto, Machado de Assis dialogou com os ideais anárquicos de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), autor da célebre frase ‘a propriedade é um roubo’ (1998:21). É necessário, antes de mais nada, destacar como o pai do anarquismo percebia esse princípio regulador do sistema capitalista: ‘Nós queremos a propriedade, mas colocada em seus justos limites, quer dizer, à livre disposição dos frutos do trabalho, a propriedade menos usura!’ (Proudhon, 1998:81). Para Proudhon, a usura poderia ser entendida como resultado da exploração dos que têm a terra sobre os que não a possuem. A usura parte do mesmo princípio do roubo, no sentido de que alguém quer ‘levar vantagem’ de forma ilícita sobre o outro. Por isso, Proudhon coloca ladrão e proprietário no mesmo plano.

Na esteira do pensador francês, Machado de Assis observa o episódio de Canudos como uma forma particular de luta pela reforma agrária, protestando contra a concentração da posse da terra nas mãos de poucos. O cronista compreende que Canudos é a voz do sertão contra aqueles que, ao tomar posse da terra, se enriquecem à base do trabalho escravo, fundamentado no direito de propriedade, e do homem livre, à base da política do favor. Tal fenômeno foi estudado por Raymundo Faoro (1974) como resultado do patrimonialismo, e pelo crítico Roberto Schwarz (2000) como produto das ‘idéias fora do lugar’, do descompasso entre o discurso liberal e a prática escravocrata. Canudos mexeu no calcanhar de Áquiles da estrutura oligárquica brasileira, pois a gente de Conselheiro sabia que dividir a terra, no Brasil oitocentista, era o mesmo que dividir o poder. Alimentando-se do pensamento anárquico, Machado de Assis, ao retratar Canudos sob esse viés, inverteu a moral capitalista, a exemplo do que fora feito mais tarde, em 1928, pelo dramaturgo Bertold Brecht (1898-1956) na peça Ópera de três vinténs: ‘O que é assalto a um banco, se comparado com a fundação de um banco?’.

A verdade local

Na crônica de 6/12/1896, Machado de Assis continua denunciando a manipulação da opinião pública promovida pela propaganda governista anti-Canudos, impulsionada pelos jornais. Além de ‘fanático’ e ‘salteador’, o cronista alerta que se noticia também que o beato é o inimigo número um da República: ‘Há um ponto novo nesta aventura baiana; está nos telegramas publicados anteontem. Dizem estes que Antônio Conselheiro bate-se para destruir as instituições republicanas’ (1955: 348-349). Além de anti-republicano, Conselheiro é taxado de facínora, e, tal insulto parece ter sido a gota d’água para Machado reiterar explicitamente a sua posição sobre o assunto como jornalista e cidadão brasileiro, na crônica publicada em A Semana, de 31/1/1897: ‘Protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro’ (1955: 401). O cronista denuncia que a imprensa não divulgava, diretamente do local do conflito, a doutrina do ‘advogado dos pobres’, oferecendo a ele e ao seu povo o direito de resposta, visto que é papel primordial do jornalismo ouvir os dois lados da questão. Para o nosso escritor, um dos lados estava sendo bastante ouvido: o governo, enquanto a voz de Canudos não era sequer escutada. Machado de Assis critica o estilo ‘rápido e rasteiro’ que marcou a cobertura jornalística a respeito dos acontecimentos ocorridos na mais estéril região do semi-árido baiano:

Entre as anedotas que se contam de Antônio Conselheiro, figura a de se dar ele por uma encarnação de Cristo, acudir ao nome de Bom Jesus e haver eleito doze confidentes principais, número igual ao dos apóstolos. O correspondente da Gazeta de Notícias mandou ontem notícias telegráficas, cheias de interesse, que toda gente leu, e por isso não as ponho aqui; mas, em primeiro lugar, escreve da capital da Bahia, e, depois, não se funda em testemunhas de vista, mas de outiva; deu-se honesta pressa em mandar as novas para cá, tão minuciosas e graves, que chamaram naturalmente a atenção pública. Outras folhas também as deram; mas serão todas verdadeiras? Eis a questão. O número dos sequazes do Conselheiro sobe já a dez mil, não contando os lavradores e comerciantes que o ajudam com gêneros e dinheiros.

Dado que tudo seja exato, não basta para conhecer uma doutrina. Diz-se que é um místico, mas é tão fácil supô-lo que não adianta nada dizê-lo. Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes, podia ir ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza americana (1955: 403-404)

Cobertura sensacionalista

Dado que tudo seja exato, não basta para conhecer uma doutrina. Diz-se que é um místico, mas é tão fácil supô-lo que não adianta nada dizê-lo. Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes, podia ir ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza americana (1955: 403-404).

Como sócio do jornal abolicionista, a Gazeta de Notícias, o autor de Dom Casmurro deixou explícita sua insatisfação quanto à cobertura do próprio repórter do seu jornal, não se deixando contaminar pelo ‘espírito de corpo’. E alertou para o fato de ele ter acompanhado o lugar-comum da abordagem da imprensa em geral. Como ombudsman e crítico da imprensa, Machado atuou firme no papel de fiscal ético, apontando no conjunto de suas crônicas relativas ao grupo de Conselheiro os seguintes deslizes da imprensa:

1) A cobertura jornalística se mostrava tendenciosa e sensacionalista, porque privilegiava os interesses do governo que se sentia ameaçado pelo povo de Canudos e, sem provas evidentes, criou uma imagem negativa do líder sertanejo, sem destacar a sua capacidade de liderança que se mostrava evidente, haja vista o número crescente de seguidores; 2) A grande imprensa dava crédito a boatos que buscavam ridicularizar a força do movimento sertanejo, mostrando-se distante (geograficamente e emocionalmente) do drama vivido pelos sertanejos 3) De forma deliberada e/ou agindo por ignorância, as notícias não eram capazes de informar à opinião pública quais os princípios ideológicos que regiam o povo de Canudos, ou seja, o vínculo que prendia tão fortemente os sertanejos ao Conselheiro; 4) Os jornais não foram ao local da notícia, deixando de lado a rica experiência de conhecer testemunhalmente os hábitos e os costumes daquele grupo, sem intermédios de terceiros.

A fragilidade da República

Atendendo ao apelo de Machado, foi então enviada à localidade uma série de correspondentes, o que vai proporcionar uma cobertura jornalística pioneira, e permitir que se revele, no calor do momento e direto do local do episódio, outros fatos independentes das versões governistas, que até o momento monopolizavam a opinião sobre o assunto. A ensaísta Walnice Nogueira Galvão (1977:109) é de opinião que ‘a Guerra de Canudos, se não inaugurou, deve ter intensificado extraordinariamente no Brasil a praxe jornalística de dispor enviados especiais no local dos acontecimentos’. Um desses enviados especiais foi o escritor e jornalista Euclides da Cunha, representando o periódico O Estado de São Paulo. De suas mãos nasceram a obra fundadora em relação ao gênero livro-reportagem no Brasil – Os sertões, publicado em 1902. Ouso dizer que a obra-prima de Euclides é fruto do ‘grito de alerta’ dado por Machado a respeito da ausência de jornalistas no local da guerra e de uma cobertura mais equilibrada a respeito da gente de Conselheiro.

A postura de Machado no caso de Canudos põe em xeque a crítica de Alceu Amoroso Lima que acusa o cronista de ‘voz da elite’ (1941:41), por não comportar em seus escritos o drama social brasileiro, ao contrário de Euclides da Cunha, que descreve um Brasil além do litoral. Acontece que Euclides retratou Antônio Conselheiro como personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o teriam levado à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a ‘linha reta’, que se ligava ao conceito linear e evolutivo de história, adotado por positivistas e evolucionistas, que acreditavam no aperfeiçoamento progressivo do homem e da sociedade.

Levando-se em que conta que Machado não foi ao interior da Bahia e, mesmo assim, resistiu à cobertura tendenciosa da imprensa sobre esse importante movimento social, o cronista de A Semana investiu sua pena em outra margem interpretativa, destacando Antônio Conselheiro e Canudos como elementos fundamentais para denunciar a fragilidade do poder republicano e da grande imprensa em responder aos anseios de um povo tão sofrido e compreender uma forma particular de coletivismo dotada de uma grande capacidade de autogestão econômica, política e social.

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Jornalista, mestrando em Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e professor de Redação e Expressão Oral pela Faculdade Promove de Sete Lagoas

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