O deserto e o oásis de Caros Amigos | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

O deserto e o oásis de Caros Amigos

Por Juliana Sayuri Ogassawara em 02/12/2008 na edição 514

Eis a imagem apocalíptica e árida: o jornalismo contemporâneo seria uma ‘tarefa mecânica, robotizada, insípida e inodora, cheia de fórmulas e modelos prontos e acabados – uma imutável camisa-de-força’. As severas palavras são do jornalista Francisco Bicudo.


Nesse cenário desértico do jornalismo camela sob sol violento um profissional ‘passivo e mecânico’ que lida com ‘informação manipulada, texto fragmentado e relâmpago, compreensão comprometida ou anulada – eis aqui o samba de uma nota só que dá o tom e dita o ritmo, de maneira hegemônica, da orquestra industrial jornalística, nesse começo de novo século’ – as aspas continuam sendo de Francisco Bicudo. Nesse horizonte, o oásis se enreda com miragem e cintila a expectativa de uma fonte de água e vida nova para o jornalismo na revista Caros Amigos, publicada pela Editora Casa Amarela desde abril de 1997.


Em 2002, Francisco Bicudo acastelou sua dissertação de mestrado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em 2004, a dissertação se torna livro, com o título ‘Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil’, publicado pela Annablume. O pequeno livro vermelho vibrante é leve, medindo modestos 11,5 x 20 cm, mas seu conteúdo é pesado, crítico e se envereda por uma seara inóspita e espinhosa: a indústria do jornalismo, intimamente atrelada ao discurso hegemônico dos todo-poderosos e por vezes cúmplice nas ciladas dos jogos de poder.


Palavras inebriadas


Nessa areia movediça, Bicudo pondera que outro jornalismo é possível – um jornalismo que infle a realidade com novos ares, sem os quais uma sociedade se asfixia e, agonizante, padece dos males modernos. Assim, ele pontua a revista Caros Amigos como um ‘oxigênio revitalizador’, um contraponto às mega-potências midiáticas, atadas às prioridades de mercado e ardis publicitários, às imposições rítmicas alucinadas no compasso de produção jornalística serial e às cláusulas normativas e padronizantes de seus manuais de redação e estilo.


No início do livro, o autor frisa que o livro não pretende exalar arrogância ou prepotência. Apesar de disparar ferozes críticas à grande imprensa, ele não espera pelo aniquilamento desse jornalismo, suprido pelo jornalismo ideal de Caros Amigos. Não, sua proposta é pôr em evidência que, apesar das mazelas da grande imprensa, é possível desvendar outros caminhos para o jornalismo na contemporaneidade. Caminhos alternativos, desviantes, possíveis. Nessa rota, Caros Amigos despontaria como uma revista ‘independente, alternativa e interpretativa’, características, de acordo com o autor, que são abalizadas por sua história, sua filosofia empresarial, seu espírito, seus jornalistas, suas pautas.


Bicudo articula suas palavras com maestria, com pinceladas ensaísticas e literárias às páginas e páginas de sua dissertação. Sua escrita oscila entre a crítica árida e o oásis idealista, dependendo de qual jornalismo estiver na berlinda. O autor destaca que não fez um ‘estudo panfletário, não-crítico e apologético’. No entanto, por vezes suas palavras são tão apaixonantes que dão a impressão de estarem quase que inebriadas e eivadas pela Caros, como se com ela estivéssemos a um passo do Éden – ou do Eldorado – do jornalismo. Porém, é importante dizer que esse tom não é presente em todo o texto, tendo presença marcante em pouquíssimos pontos.


Sem rumos ou diretrizes


De acordo com a análise de Francisco Bicudo, Caros Amigos é uma publicação polêmica, plural, multifacetária, dinâmica e que se relaciona com a complexidade da contemporaneidade. Ela é ainda o ponto de encontro/desencontro de três experiências: a revista Realidade, a imprensa alternativa da década de 1970 e a grande imprensa. É dessas três fontes que bebe a Caros.


‘Para Caros Amigos, a revista Realidade é uma referência, uma inspiração, um sonho de Ícaro’, considera o autor. A inspiração da Realidade estaria na busca por belas narrativas, histórias bem contadas, reportagens – o que continuaria sendo uma quimera porque a presença de grandes reportagens é rara na Caros. Na temporada 1997-2001 analisada pelo autor, o ano 1998 teve o ápice nesse quesito: apenas três grandes reportagens publicadas.


Além da Realidade, o autor conta que ‘Caros Amigos desembarca toda a sua tripulação nos mares frutíferos e portos criativos da imprensa alternativa, nadando contra a corrente hegemônica’. Ao propor, inclusive no título, que a Caros seria o resgate da imprensa alternativa, o autor aponta aí mais uma tendência inspiradora para a revista. Todavia, Caros não copia a aventura alternativa, mas a tem como bússola. Não seria, portanto, um resgate saudosista, mas ‘ousadia revigorada e arejada pelos ventos de contemporaneidade’. Por fim, para ilustrar o terceiro ponto, uma frase do autor é definitiva para ilustrar o desencontro de Caros com a grande imprensa – para não dizer um confronto: ‘Da grande imprensa, a revista quer distância.’


As imperfeições de Caros estão diluídas no texto, mas foram içadas. Para o autor, a primeira lacuna é a inexistência de discussão a respeito dos rumos ou diretrizes da revista, como uma reunião de pauta. Não há uma cultura, uma data, um calendário para reuniões e a revista peregrina contando com ‘dedicação, idealismo e voluntarismo’. Este seria um erro fatal para quem não tem nítidas as diferenças entre organização e burocracia, chatice, ordem, ou entre liberdade e caos, desorganização, desordem.


Tentações partidárias


Bernardo Kucinski, entrevistado por Francisco Bicudo, também critica a revista, dizendo que ‘do ponto de vista jornalístico, trata-se de um projeto deficiente, fragmentado, minimalista, com pouca coesão editorial’. Para Lúcio Flávio Pinto, muitos colaboradores da Caros são ruins ou medíocres, mas o ponto nevrálgico da revista é a ausência de uma linha mestra no projeto editorial: ‘Vivendo dificuldades econômicas, a publicação parece ter aberto mão de critérios de qualidade editorial, de rigor informativo.’


Ainda nas críticas, destaca-se Roberto Freire, um dos idealizadores e fundadores da Caros. Ele se afastou após as eleições presidenciais de 1998, devido à publicação de uma matéria com os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em um texto que favorecia nitidamente o petista. O autor conta que ‘para ele, aquilo [o alinhamento financeiro, político e ideológico do projeto Caros com o PT] significava sucumbir às tentações da política partidária, da qual sempre foi um ferrenho opositor’. Em entrevista a Bicudo, Freire diz que a revista se tornou ‘partidária, financiada pelo PT’. Ele declara que ‘ela traiu seus idéias iniciais e eu fui traído também porque essa decisão foi tomada à minha revelia’. Freire saiu da revista em 1999 e rompeu com o amigo Sérgio de Souza.


Um novo resgate


A morte de Sérgio de Souza, no dia 25/3/2008, foi um divisor de águas para a Caros Amigos. Sérgio foi o principal editor, idealizador e fundador do projeto. Após sua morte, a revista saiu dos trilhos. No dia 18/6/2008, mais de dez jornalistas pediram demissão da revista, publicando uma carta [http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/disputa-interna-provoca-racha-na-caros-amigos/] que dizia: ‘Embora esperássemos mudanças por parte da nova direção, não imaginávamos que estas seriam tão contrárias àquilo que ainda nos mantinha no projeto e ao que sempre norteou o dia-a-dia da redação: liberdade de opinião, transparência nas decisões e, sobretudo, o diálogo. Nunca houve nenhum tipo de articulação e também nenhuma oposição ou tentativa de interferência ao processo de sucessão do editor.’


A carta continua, citando que finalizada a edição especial de junho no dia 12, ‘concluímos que esse número já não condiz com a proposta da revista idealizada por Sérgio de Souza. Por último, somos solidários a Thiago Domenici, secretário de redação, que foi demitido arbitrariamente por telefone e sem direito a aviso prévio na última sexta-feira, 13 de junho’. Assinaram essa carta Cylene Dworzak Dalbon, Jackson Viapiana, Léo Arcoverde, Mariana Nóbrega, Mariana Santos, Natália Mendes, Rodrigo Aranha, Rodrigo Mendes e Vinícius Souto. Uma nota esclarece que o editor especial Renato Pompeu também pediu demissão e também assinou o manifesto, mas que ‘sua posição é diferenciada’, pois admite a autoridade da direção da revista. E em solidariedade a Thiago Domenici, também saíram Mariana Camarotti, Fernando Evangelista e Lilian do Amaral.


O autor-editor da Caros Amigos é Mylton Severiano. No expediente no site da revista [http://carosamigos.terra.com.br/], os editores especiais são José Arbex Jr. e Roberto Manera e consta o nome de Renato Pompeu. Os caros amigos se dispersaram – e novos amigos devem ter selado quaisquer laços para recompor a redação. As ambições iniciais de Caros Amigos se dilaceraram com o tempo e é evidente que é preciso um novo resgate.


O autor


Francisco Bicudo é jornalista, graduado pela Universidade de São Paulo (1994), especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1996) e mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2002). Atualmente é professor da Universidade Anhembi-Morumbi.

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Jornalista, mestranda em História Social pela USP

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