Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

O educador educacionista

Por Gabriel Perissé em 28/10/2008 na edição 509

Os ‘ismos’ têm a sua utilidade. Identificam tendências, modos de pensar, doutrinas políticas e religiosas, teorias que desembocam em ações. O educacionismo é um deles.


O senador Cristovam Buarque apresenta o educacionismo com seu habitual estilo – utópico, mas sensato; contundente, mas não apocalíptico (ainda que o colapso esteja batendo às portas). E o contrapõe a outros ‘ismos’: o economicismo, o neoliberalismo, o materialismo…


Didaticamente, como convém à tradicional coleção ‘Primeiros Passos’, da Editora Brasiliense, o autor vai mostrando que o educacionismo, segundo sua concepção, é uma doutrina que vê a educação como possibilidade de conexão com o mundo, para além dos laços meramente econômicos; como forma de entender o mundo, para além da lógica do domínio e da exploração; como forma de promover o ser humano, para além da mentalidade baseada na competição e no sucesso egoísta.


Um convite à adesão


Claro, sempre haverá quem ponha em xeque essas grandes intenções, por não acreditar nos poderes da educação. Ou por acreditar que vale a pena investir em outras urgências, como salvar bancos ou fazer propaganda política. Cristovam Buarque escapa e contra-ataca, elogiando a revolução educacionista e enfatizando que o trabalho do professor, do educador, precisa ser garantido e valorizado. Este mesmo educador educacionista, no entanto, não poderá exigir-se menos. Se merece ser apoiado e (vamos ao concreto) receber um salário melhor, trabalhar em condições melhores, também dele esperamos novas atitudes, novo comportamento.


Deverá superar práticas artesanais, ingressar na Idade Mídia. Lembrando que educadores são também os familiares. Os alunos necessitam da escola, mas se a família não cumprir a sua parte, inclusive para acompanhar o modo como as crianças e jovens lidam com a mídia e como são tratados na escola, todos os investimentos que se fizerem serão insuficientes.


A educação liberta. Há uma semelhança entre o movimento abolicionista do século 19 e este, educacionista, no século 21. Os escravos somos todos nós. Crianças sem escola, ou em escolas sem qualidade, estão algemadas ao subemprego. Adolescentes que não sabem ler e escrever como deveriam estão aprisionados à mediocridade. Adultos sem acesso ao conhecimento, à cultura, ao saber, são chicoteados diariamente pelo fracasso, estão a um passo de se tornarem inempregáveis.


O educacionismo não existe sem educacionistas. O livro de Cristovam Buarque é um convite à adesão.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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