Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > O POVO

O espelho, dez anos depois

Por Carlos Ely Souto de Abreu em 10/02/2004 na edição 263

‘Isto é só uma jogada de marketing, um modismo passageiro.’ Foi assim que a redação do O Povo reagiu à criação do cargo, tão estranho quanto o próprio nome. Imagine que absurdo! Pagar uma pessoa para ‘bater’ nos próprios jornalistas. Cutucar as feridas. Expor as mazelas. E que autoridade esta pessoa teria para questionar as opções editoriais, matérias, colunas e publicidade? E até onde esta pessoa teria liberdade para ir fundo nas contradições do jornal? Com certeza, na primeira questão polêmica ela seria ‘convidada’ a esquecer o assunto. E fim de papo.

Estas eram algumas das crenças que a redação tinha quando a função de ombudsman foi criada. O começo foi difícil. Afinal, a crítica pressupõe um aprendizado. Tanto para quem a faz, como para quem é vidraça. Entre acertos e equívocos, exageros e omissões e muita tensão de parte a parte, a instituição foi se consolidando. Cada um dos profissionais que exerceu o cargo ao longo deste tempo foi construindo, com suas virtudes e seus defeitos, a história da relação entre ombudsman, redação do jornal e leitores. Dez anos depois, o ombudsman é reconhecido pelos jornalistas e demais funcionários do O Povo como um dos patrimônios mais valiosos do jornal.

Não há dúvida de que, hoje, quem mais se ressentiria com um impensável fim da instituição seriam os próprios jornalistas, mais ainda que os leitores. A redação aprendeu a conviver com o espelho. Mesmo que a imagem refletida não seja a mais agradável. Mesmo que o espelho, às vezes, distorça o que lhe vai pela frente. Os comentários diários, feitos em âmbito interno, passaram a ser aguardados com expectativa por todos os funcionários do jornal. E sempre que falta criticidade aos comentários, a redação é a primeira a cobrar dos ombudsmen uma análise aprofundada do seu trabalho.

Para o jornal, que vem cobrando ao longo de sua história a transparência de governos, parlamentos e da Justiça no tratamento dos bens públicos, a existência do ombudsman é uma prova incontestável de compromisso com um jornalismo de qualidade, ético e cidadão. Para os jornalistas, que têm por natureza uma enorme dificuldade em lidar publicamente com os seus erros, o ombudsman é um exercício diário de tolerância e humildade.

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(*) Jornalista, diretor executivo da Redação de O Povo

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