Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > FIM DE SEMANA, 3 E 4/11

O Estado de S. Paulo

06/11/2007 na edição 458

TROPA DE ELITE
Miguel Reale Júnior

Virtude e terror

‘A violência policial tem sido uma constante na vida brasileira. O filme Tropa de Elite, inspirado no Bope, batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro especializado em missões policiais nas favelas, reproduz uma triste realidade de nossa História.

Para não muito retrogradar, lembro o Serviço de Diligências Especiais, criado no Rio de Janeiro em fins da década de 1950 pelo chefe de Polícia, general Amaury Kruel, para combater bandidos, como o Cara de Cavalo, com licença para exterminar malfeitores. Logo depois, nos anos 60, criou-se um grupo de 12 membros, os Homens de Ouro, integrado, entre outros, pelos delegados Sivuca, Milton Le Cocq e Mariel Mariscotte de Mattos, que tinha por missão invadir barracos nos morros, eliminar assaltantes, enfrentados como inimigos numa guerra em que a sociedade era defendida segundo o lema ‘bandido bom é bandido morto’. Nascia o Esquadrão da Morte, designação por si mesma enfaticamente reveladora dos objetivos do grupo dos Homens de Ouro.

Com o assassinato do delegado Milton, instituiu-se a Scuderie Le Cocq, com vista a vingar a morte de um dos líderes do grupo especial de combate à criminalidade. O resultado foi uma quantidade espantosa de cadáveres, pois se passava a perseguir os suspeitos de serem suspeitos, cujos corpos metralhados eram chamados de ‘presuntos’, para nem mortos serem reconhecidos como pessoas.

Em São Paulo, o combate à criminalidade comum era empreendido também por um Esquadrão da Morte, liderado pelo delegado Sérgio Fleury, cuja ação repressiva veio a ser investigada e perseguida judicialmente pela ação firme do promotor Hélio Bicudo.

Os grupos de extermínio do Rio de Janeiro e de São Paulo deram sua contribuição à ditadura no combate aos ‘subversivos’, com a prática de tortura entre quatro paredes e com o abate a tiros na rua. Estes policiais derivaram depois para a promoção e a proteção do jogo do bicho ou do tráfico de drogas, operando-se a transformação dos grupos policiais em organizações criminosas, como sucedeu com a Scuderie Le Cocq.

No enfrentamento da criminalidade na periferia de São Paulo, durante a ditadura, atuava a Rota, pessimamente equipada ao término do governo Maluf, mas dada à indiscriminada prática de abusos contra inúmeros inocentes, pessoas sem passagem policial, mortos nas ruas sem prova de ter havido confronto. Todos esses atos de violência policial recebiam, no Rio e em São Paulo, apoio da população, especialmente da classe média, vítima desde a década de 70 do clima de medo.

A mídia deu força a essas milícias formadoras de um Estado paralelo, que substituía as instituições do sistema de administração da Justiça, a ponto de o famoso jornalista David Nasser se sentir honrado em ser presidente de honra da Scuderie Le Cocq, vindo o seu caixão a ser coberto com a bandeira da scuderie, a caveira e duas tíbias.

Com o processo de redemocratização, apesar dos esforços, pouco se avançou no controle da violência policial, pois as pessoas mortas pela polícia em São Paulo e no Rio chegam a corresponder a 20% do total de vítimas de homicídio, enquanto em cidades americanas e européias o porcentual gira em torno de 1%.

O monopólio do uso da violência pelo Estado e o comedimento desse uso por parte dos agentes de polícia geram tranqüilidade e sensação de segurança. Tal ainda não sucedeu em nosso país.

Na verdade, a violência espraia-se na sociedade, como produto da desorganização social e da omissão do Estado nas grandes cidades. Nos lares, a agressão a mulheres e crianças. Nos bairros de periferia, forças privadas atuam como justiceiras. Nestes recantos, banaliza-se a vida pela resolução dos conflitos por via da chacina, eliminando-se indiscriminadamente todos os que estão próximos ao inimigo a ser destruído.

Nas esquinas dos bairros de classe média se é assaltado com revólver na cara, nos apartamentos se é vítima do arrastão.

As forças policiais ainda afundam no despreparo, na corrupção, no medo, na violência sem regras. Não se efetivam uma ampla diretriz de segurança pública e uma política criminal de cunho social. Resta apenas à sociedade a expectativa da ação salvadora de ‘heróis’ truculentos capazes de acalmar o temor crescente.

De outra parte, a vida política cinge-se ao mensalão, ao despudor presidencial de justificar a cada passo os desvios do próprio governo. A compra de votos de deputados continua com o preço entregue depois das votações. O Senado desmoraliza-se com a presidência de um senador que paga pensão alimentícia à filha havida fora do casamento com dádivas de lobista de empreiteira. A crise de autoridade aumenta o desalento.

Está pronto o caldo de cultura propício para o descrente cidadão comum receber com aplausos o capitão Nascimento do filme Tropa de Elite, um dos incorruptíveis membros do Batalhão de Operações Especiais, o Bope do Rio, cuja retidão o legitima ao uso da violência mais brutal na luta contra o crime. Imbuído de santidade, o torturador afirma ser possível matar com eficiência e dignidade.

Com todas as instituições, públicas ou privadas, corroídas, o capitão, no caixão do companheiro de armas morto na guerra carioca, sobrepõe à Bandeira do Brasil a bandeira do batalhão com caveira e duas facas.

Aí estão os ingredientes de uma ditadura ao estilo de Robespierre: virtude e terror. ‘A virtude sem a qual o terror é funesto; o terror sem o qual a virtude é impotente’, como disse o ‘Incorruptível’, na França de 1793.

Apresenta-se o pior dos mundos: o Estado pretoriano, liderado pelos ‘puros’, a resultar numa ditadura fundada no orgulho da virtude, que em breve irá corroer a si mesma.

No regime do medo, o aplauso à caça aos suspeitos, por forças que legitimam a si próprias para a prática do extermínio, aumenta perigosamente a esgarçadura das instituições democráticas.

Miguel Reale Júnior, advogado, professor-titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça’

INTERNET
Jamil Chade

Brasil já é o sexto maior usuário da internet

‘O Brasil é o sexto maior usuário de internet no mundo em termos de total de população que acessa a rede. Os dados foram divulgados ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU) às vésperas da conferência que ocorrerá no Rio de Janeiro na semana que vem e que discutirá o futuro da internet.

O Brasil espera que o encontro sirva para redefinir a administração da rede e que as decisões sobre o controle da internet não se limitem apenas a uma entidade americana, a ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, organização que gerencia os padrões técnicos e a distribuição de endereços para os sites da internet).

Segundo os dados da ONU, 39 milhões de pessoas são usuárias da rede mundial de computadores no Brasil. O País supera o Reino Unido, França e Itália no total de internautas.

A liderança é dos Estados Unidos, com 210 milhões de usuários. A China vem em segundo lugar, com 162 milhões. No Japão são 86 milhões, contra 50 milhões na Alemanha e 42 milhões na Índia.

Segundo a ONU, hoje são 1,2 bilhão de pessoas com acesso à rede em todo o mundo. Isso significa que mais de um sexto da população do planeta já conta com a tecnologia, ainda que a distribuição seja desigual. Há dez anos, eram 70 milhões.

Apesar da posição brasileira, em termos percentuais o País ainda está distante dos líderes, com apenas 21% da população conectada, contra 69% nos Estados Unidos.

Mas, ainda assim, a posição de destaque do Brasil repercute no número de usuários que usam o português em suas comunicações na rede. Segundo a ONU, a língua é a 7ª mais usada na Internet, superando inclusive o árabe, uma das línguas oficiais das Nações Unidas. O inglês é a língua mais usada na rede, com 365 milhões de usuários, ante 184 milhões em chinês e 101 milhões em espanhol.

SOBERANIA

Apesar de China, Índia e Brasil já contarem com um número significativo de internautas, a realidade é que politicamente esses países ainda dependem de decisões que são tomadas sem que sejam consultados.

No 2º Fórum de Governança da Internet, evento que ocorre no Rio de Janeiro de 12 a 15 de novembro, a esperança do governo é o de começar a reverter esse cenário, propondo algum mecanismo para que os governos sejam ouvidos nas decisões relativas à Internet.

Os EUA, porém, rejeitam qualquer tipo de mudança mais profunda na gestão da rede, temendo perder o controle e ainda permitir que países não-democráticos tentem censurar certos conteúdos.

Mas para Markus Kummer, coordenador do evento, dificilmente a reunião do Rio de Janeiro conseguirá modificar o atual cenário.

‘As posições de cada governo e ator são conhecidas e não vejo como isso possa ser mudado por enquanto’, disse Kummer. Segundo a ONU, a reunião trará ao Rio aproximadamente 2 mil pessoas.’

 

Acesso à web em casa cresceu 47%, diz pesquisa

‘Além da ONU, o Ibope também divulgou novos números sobre o uso da internet no Brasil. Segundo sua última pesquisa, feita em setembro, 20,1 milhões de pessoas já têm acesso à web em suas casas – número 47% maior do que no mesmo mês de 2006. De acordo com o Ibope, os internautas brasileiros são os mais assíduos do mundo, pois passam em média 22 horas mensais conectados à rede – superando com folga os norte-americanos e os japoneses, que gastam em média 18 horas mensais navegando na rede.

O crescimento dos acessos se deve principalmente a dois grupos: crianças e adolescentes (entre os quais o uso da internet aumentou 53% durante o ano) e homens com mais de 45 anos (crescimento de 50%).

Segundo a pesquisa, os endereços mais acessados pelos brasileiros são os buscadores – como o Google -, os portais e as comunidades virtuais: categoria que engloba os sites de relacionamento, como o Orkut, e os blogs. Além dessas páginas, a pesquisa aponta crescimento de acesso nos sites sobre moda, decoração, viagens e gastronomia.’

LITERATURA
Ubiratan Brasil

Um grande vazio na herança cultural

‘Como seria a cultura mundial hoje caso a famosa Biblioteca de Alexandria, considerada o centro cultural do mundo às vésperas da Era Cristã, não tivesse sido destruída há cerca de 1.400 anos? E o que dizer dos clássicos gregos e romanos que não sobreviveram ao tempo? Finalmente, o que mudaria na literatura se fossem terminados os trabalhos eternamente embrionários que seus autores planejaram e desenvolveram, mas nunca chegaram ao ponto de escrever? Tais questões martelaram durante muito tempo a cabeça do escocês Stuart Kelly que saiu à caça das obras que deixaram uma verdadeira lacuna em nossa herança cultural para escrever O Livro dos Livros Perdidos (434 páginas, R$ 54), que a editora Record lança nesta semana.

Como o trabalho teria uma dimensão extraordinária, Kelly se limitou aos clássicos, dos mais antigos aos contemporâneos. Assim, de Shakespeare a Sylvia Plath, de Homero a Hemingway, de Dante a Ezra Pound, ele listou grandes escritores que produziram obras perdidas, incapazes de serem lidas. ‘Houve muitas perdas lamentáveis, mas, em minha opinião, as mais sentidas foram as tragédias gregas, das quais apenas uma pequena fração chegou aos nossos dias, e a Biblioteca de Alexandria, destruída pelos conquistadores muçulmanos que acreditavam que o Alcorão era o único livro que deveria existir’, comenta o pesquisador.

A lista, na verdade, começou a ser montada quando, aos 15 anos, Kelly descobriu que não havia sobrado nada das obras de Agathon, celebrado dramaturgo e amigo pessoal de Eurípides. Movido pela curiosidade, ele saiu em busca do rastro de outros escritos e logo descobriu uma lista vasta e heterogênea.

Afinal, o primeiro trabalho de Homero (autor de Ilíada e Odisséia) foi supostamente um poema épico com matizes cômicos. Já as memórias do poeta Byron foram destruídas pelo próprio autor. E Flaubert, que sofria de convulsões, além de provavelmente ser epilético, ensaiou escrever uma novela sobre insanidade, mas a idéia ficou aprisionada em sua mente. ‘A história inteira da literatura era também a história das perdas da literatura’, observa.

Diversas razões podem explicar as perdas. Inicialmente, o material facilmente perecível utilizado pelo homem para armazenar sua cultura: cera, pedra, argila, papiro, papel e até mesmo corda, como é o caso da linguagem peruana dos nós, quipo. ‘Visto que tem uma dimensão material, a própria literatura compartilha a vulnerabilidade de sua substância’, comenta Kelly. ‘Todos os elementos conspiram contra ela: o fogo e a água, o ar ressecado que corrompe, a terra argilosa que se decompõe.’

A forma mais simples de perda, no entanto, é a destruição. Kelly lembra que o poeta do século 19 Gerard Manley Hopkins queimou toda a poesia que escrevera quando passou a dedicar sua vida à beleza de Deus. James Joyce atirou ao fogo Stephen Hero, o primeiro esboço de Retrato do Artista Quando Jovem, mas não impediu sua mulher de salvar o que pôde. Mikhail Bakhtin, exilado no Casaquistão, usou seu trabalho sobre Dostoievski como papel para cigarro, depois de ter fumado um exemplar da Bíblia.

Mesmo sem confirmação, há indícios de trabalhos que foram destruídos. É o caso de Sócrates que, quando estava preso aguardando a execução, escreveu versificações das Fábulas de Esopo. Nenhuma delas sobreviveu, restando apenas ecos baseados nos diálogos memorizados e inventados por Platão.

O acaso também colaborou para dizimar a cultura. Stuart Kelly lembra, por exemplo, que uma pasta com os originais de Ultramarino, de Malcolm Lowry, foi roubada do carro do seu editor, e a versão existente teve de ser reconstruída a partir do que foi encontrado nas caixas de anotações de Lowry.

Em muitos casos, o próprio autor morreu antes de concluído o trabalho.Virgílio deixou instruções para que A Eneida fosse queimada, já que não a havia burilado à perfeição. A polícia nazista impediu que o teólogo radical Dietrich Bonhoeffer terminasse sua dissertação sobre ética. O Romance de Dolliver, de Nathaniel Hawthorne, A Barragem de Hermiston, de Robert Louis Stevenson, e Denis Duval, de William Makepeace Thackeray, são lembrados como clássicos incompletos. Kelly observa ainda que Robert Musil e Marcel Proust não conseguiram aperfeiçoar suas volumosas obras-primas.

Finalmente, a categoria dos livros que foram deliberadamente perdidos. Ou seja, idéias e rascunhos abandonados por seus autores, insatisfeitos com o caminho tomado ou simplesmente interessados em outras histórias. A fila remonta à Grécia Antiga. Kelly lembra que Sólon, o legislador ateniense, estava ocupado demais em criar impostos a pôr em versos a história de Atlântida. Já Victor Hugo prometeu mas não escreveu A Quinquengrogne. ‘Teria sido Gaia, de Thomas Mann, a obra-prima que ele acreditava que seria enquanto ainda não escrita? Teria o jamais escrito Fala, América, de Nabokov, seqüência de suas lembranças (Fala, Memória), revelado mais acerca da composição de Lolita ou de seus trunfos de colecionador de borboletas?’, questiona Kelly. ‘Esses trabalhos são tão ambiciosos que sua finalização parece intrinsecamente impossível.’

As suposições levam a outro questionamento, cuja resposta é temerário dimensionar: perder-se é a pior coisa que pode acontecer a um livro? Além de, em certos casos, salvaguardar a reputação do autor (se o valor do texto for questionável), a obra perdida torna-se infinitamente mais atraente pelo fato de ser perfeita na imaginação.

Stuart Kelly afirma que, atualmente, é quase impossível acreditar em perda. O avanço tecnológico, que tanto é utilizado para desvendar documentos antes considerados indevassáveis (como os papiros descobertos em Herculaneaum, cidade soterrada em 79 d.C. quando o Vesúvio entrou em erupção), como no serviço de preservação, possibilita ao homem registrar seus passos com segurança. E qual a importância disso? ‘Ao tentar preservar o que nos torna humanos, provamos nossa própria humanidade’, responde Kelly.’

FOTOGRAFIA
Antonio Gonçalves Filho

Salgado registra continente esquecido

‘As primeiras fotos que o mineiro Sebastião Salgado fez foram na África, continente que visitou há 36 anos como economista da Organização Internacional do Café, com sede em Londres. Na ocasião, Salgado foi recebido em Ruanda pelo representante da organização, Joseph Munyankindi, de quem se tornaria grande amigo. Viajou várias vezes pelo interior da África acompanhado de Munyankindi até que, ao voltar a Ruanda, em 1994, recebeu a triste notícia de que o amigo, da etnia hutu, e sua mulher, uma tutsi, haviam sido mortos durante o genocídio ruandense. Mais de 800 mil pessoas foram massacradas a golpes de facão, atrocidades que começaram em abril daquele ano sem qualquer intervenção das forças de segurança mundial. Salgado registrou a tragédia. Fotos chocantes misturam-se a outras do continente no livro África (Taschen, 340 págs., R$ 199), que o fotógrafo lança sexta, na Livraria Cultura. É um documento histórico e emocionante que traz ainda a assinatura do escritor moçambicano Mia Couto.

Salgado não compra o discurso corrente de guerras tribais na África. Esses conflitos não são tribais, insiste, todas as vezes em que é entrevistado. São guerras econômicas, motivadas pelo controle de recursos minerais estratégicos. A humanidade, conclui, não tem mais o direito de ignorar o continente explorado ao limite da tragédia, como mostram as fotos que deixaram o escritor Mia Couto paralisado, pensando em desistir da idéia de escrever o texto do livro. ‘Estas fotos viajaram por correio para o meu país e, duas semanas depois, já com as imagens nas mãos, o entusiasmo se converteu em pânico.’ O autor de O Outro Pé da Sereia considerou que tudo o que escrevesse seria redundante. Decidiu, então, comunicar sua desistência a Salgado, mas as fotos continuaram aparecendo em seus sonhos. Eram imagens como a de meninos que, no meio do deserto, ‘se assemelham a toscos troncos ou arbustos secos’. Tomado de fervor missionário, Couto não teve alternativa.

Algumas fotos dizem respeito a seu país, Moçambique. Ao contrário de Ruanda, elas registram momentos de euforia popular, como o hasteamento de novas bandeiras no continente. A imagem das tropas da Frelimo acolhidas pela população de Lourenço Marques (hoje Maputo), em 1974, é uma delas. Outra é a da partida dos últimos soldados portugueses de Luanda, Angola, em 1975. Vinte anos depois, Salgado registraria a imagem de refugiados moçambicanos que regressavam do exílio na Tanzânia, cantando canções de amor pela terra natal, após anos de ausência. Uma das imagens mais tocantes é dessa época: mostra uma refugiada moçambicana com o filho às costas, trabalhando na terra abandonada há 15 anos, na província do Zambeze, em 1994.

O olhar de Salgado não é etnocêntrico como o da alemã Leni Riefenstahl, a cineasta do nazismo, que fotografou os mesmos nômades da Namíbia. Nessa série, realizada há dois anos, uma das mais belas do livro, a exuberância e nobreza de uma jovem himba contrasta com a realidade das vítimas da hanseníase em Ade, fronteira do Sudão, ou da malária, no campo de Korem, Etiópia. São de Korem as fotos mais difíceis de olhar: refugiados cegos por tempestades de areia e infecções nos olhos esperam pela distribuição de alimentos, crianças erram pelo deserto para atingir a fronteira sudanesa, caminhando à noite para evitar os aviões da Força Aérea da Etiópia (em 1985), e mortos são embalados nos próprios sacos que continham alimentos para matar sua fome. São imagens que contrastam com a inocência da criança que planta chá em Mata, Ruanda, em 1991, foto maior que ilustra esta página. É nela que Salgado vê a esperança da África.

África. De Sebastião Salgado. Editora Taschen do Brasil. 336 págs. R$ 199. Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, 3170-4033, Conj. Nacional. Dia 9, 19 h’

TELEVISÃO
Keila Jimenez

Teste de Fidelidade 2

‘O quadro que teria causado a demissão de João Kléber na Rede TV! voltou ao ar maquiado, no Superpop. Há pelo menos um mês a atração de Luciana Gimenez leva ao ar o ‘Você está sendo traída (o)?’, nova versão do famigerado Teste de Fidelidade do Eu Vi Na TV.

No quadro de Gimenez, um detetive segue o marido ou a mulher da pessoa que procura o programa, para descobrir se há traição em seu relacionamento. Seria o típico serviço realizado por detetives particulares, se não fossem as câmeras acompanhando todo o trabalho. Só para relembrar, no caso do Teste de Fidelidade, uma pessoa era contratada para seduzir a ‘ vítima’ em questão. A graça era saber, na frente de seu companheiro, se a pessoa iria resistir ou não. Além de dezenas de denúncias de ‘armação’, a baixaria rendeu vários processos à Rede TV!

No novo quadro, as pessoas que procuram a ajuda da tal detetive já estão suspeitando da traição.

No palco, a confusão é a mesma, com direito a ‘traídos’ indignados e brigas conjugais. Gimenez faz o papel de falsa apaziguadora. Como em ibope o barraco funcionou, parece ter ainda vida longa na emissora.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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