Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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ARMAZéM LITERáRIO >

O fazer jornalismo requer pensar

01/09/2009 na edição 553

A bibliografia brasileira sobre jornalismo pode orgulhar-se de ter um dos acervos relativamente plausível em número e qualidade de livros que tratam de assuntos diversos. Infelizmente, pobre, no que diz respeito à relação com a filosofia e demais ciências. Não seria muito conhecermos os estudos em tal universo do conhecimento, para melhor compreendermos os personagens que se preocuparam com certos temas, ainda hoje motivo de discussões.

José Marques de Melo nos deu obras que incursionaram pela ciência de um modo geral e satisfazem a curiosidade. A última que conheço, História do pensamento comunicacional / Cenários e personagens, Ed. Paulus, 373 pp., é relevante por tratar do desenvolvimento das ideias comunicacionais na antiguidade, transportando-as aos dias atuais, com foco voltado para o Brasil e a América Latina. Marques de Melo é o mais conhecido estudioso da comunicação no Brasil e no exterior. A iniciativa tem como base a produção, que chega a algumas dezenas de livros. Pouco se disse e sabe ter sido ele o coordenador no país das festividades que marcaram o segundo centenário da chegada do jornal ao país. E o fez pela Rede Alfredo de Carvalho, cujo resultado foi a publicação de três volumes da História da imprensa / Personagens que fizeram história. Acham-se espalhados, em particular, nos meios acadêmicos. Contribui com dois ensaios para dois volumes.

Quem nos dá um livro excelente é um outro professor doutor, Caio Túlio Costa, que transporta à obra não apenas intimidade com a informação, como jornalista experiente. Mostrou conhecer os meandros da polêmica. Dela participou com Paulo Francis, que reagia com agressividade e batia forte nos adversários, tanto que prometeu dar-lhe umas palmadas ‘naquele lugar’, pela ousadia. Coisas do Paulo Francis, um intelectual emblemático, a quem não se pode negar o brilho do talento, sempre disposto a brigas sobre questões nas diversas esferas da cultura e política.

Arrogância cultural

Caio Túlio, o primeiro ombudsman da imprensa brasileira, corrigindo lapsos, ensinando e interpretando com experiência o seu papel, através dos comentários, como intermediário do público junto ao jornal Folha de S.Paulo, nos brinda com um livro excelente. O que mostra o quanto se precisa conhecer o jornalismo nas raízes e entranhas. Título: Ética, jornalismo e nova mídia / Uma moral provisória, no qual associa a teoria do jornal de papel com a filosofia. Não esqueceu os nomes daqueles que, de algum modo, preocuparam-se com certos temas. Hoje servem de discussões como: ética, liberdade de imprensa, jornalismo público e privado, relação governo-jornal, revitalização do periódico que se acha ameaçado de fechar as portas pela força arrasadora da internet, o que provoca a insistente pergunta para resposta dos visionários: o jornal vai acabar? Quando? Uns respondem, afirmativamente dando como certo a data, 2020.

Sem medo de perder-se no caminho, discute as ideias dos filósofos que se preocuparam com a livre manifestação de pensamento e deram novos subsídios para estudos, entre eles Descartes, Spinoza, Sócrates, Epicuro, Montaigne, Kant, Wittgenstein, Bakhtin e Jean-Paul Sartre. Nessa elite de pensadores não faltaram personalidades da área de saber distinto, como sociólogos, antropólogos e ensaístas. Não esqueceu a figura incomum, exaltada, exótica, sem condescendência com os adversários, os erros da política e os descuidos da linguagem: Karl Kraus (1824-1936).

Efetivamente, uma figura carismática e difícil de ser entendida sob todos os ângulos que se possa imaginar. Recebeu adjetivos que se identificam com a personalidade controvertida, como impiedoso, sarcástico, irônico, teatral, mas, sem dúvida, genial no que dizia. Como jornalista, escreveu todo um jornal quinzenal, O Archote, que contaminou o leitor com uma tiragem impressionante à época. Destacou-se como conferencista, dramatizando os temas como se fosse um ator. Enchia auditórios. Ouviam-no com absoluto silêncio e respeito sendo aplaudido com entusiasmo. Descendente de família judaica, fez da Alemanha o posto privilegiado de observação. De lá saíram os aforismos que produziu para ganhar o mundo pela ousadia e inteligência. Apenas dois exemplos da arrogância cultural ao explicar o que tanto gostava de fazer, transformado em livro com o título, Ditos e Desditos: ‘O aforismo (grifo nosso) jamais coincide com a verdade; ou é meia verdade ou verdade e meia.’ Sobre linguagem, baseado em Timms: ‘Língua é a única quimera cujo poder enganador é infinito, o recurso é inesgotável em que a vida é empobrecida.’ Grande Karl Kraus. Quem teria sido mais ousado? Kraus ou o americano H. L. Mencken (1880-1956), O Livro dos insultos, ambos com vocação para o desmanche dos adversários?

Culinária e jornalismo

Em Sartre (1905-1980), Caio Túlio observou uma semelhança na declaração do filósofo do existencialismo francês com o jornalismo. Na revelação do tipo de comportamento que se via obrigado a tomar, quando se promiscuía com mais de uma mulher, com exceção de Simone de Beauvoir (traições amorosas mútuas e permanentes), eis o recurso assumido: uma moral provisória, ou seja, inventar mentirinhas.

No livro, Caio convida o leitor a dar um passeio pelo tempo, pelas ideias, para acompanhar as reflexões sobre uma moral que aqui se definirá de ‘provisória’ no jornalismo – seja o jornalismo de ontem, de hoje ou aquele que a nova mídia fez emergir. Esse passeio, um tanto irregular na linha do tempo, volta ao século 17. Vai á Grécia Antiga, retorna à Europa renascentista, visita filósofos de pensamentos enraizados na modernidade e avança pelas franjas dessa própria modernidade no século 20 antes de adentrar o século 21. A revolução tecnológica mudará a face dessa paisagem. Explica o motivo:

‘Porque ética e moral, verdades e mentiras, velha mídia e nova mídia são coisas sérias demais e merecem que todos nós nos ocupemos dela.’

No seu entendimento, não mudou a forma de se fazer jornalismo, mas a forma que o jornalismo tinha, e que não tem mais, nos elos da comunicação. E isso, sim, tem importância. Por isso ele precisa de se acostumar com um concorrente na contramão do despejar informações (internet). A via agora é de mão dupla, tripla, infinita.

Caso os ministros da Suprema Corte tivessem lido o livro de Caio Túlio ou outros similares antes do julgamento que pôs fim ao diploma de jornalista, não se teriam exposto ao ridículo. Ainda mais com o magistrado Gilmar Mendes, ao acabar com o diploma da categoria, comparando a prática da culinária com o fazer jornalismo. Em ambas as atividades, uma grande distância as separa. Para usar as panelas basta uma receita, para escrever, que se leve em consideração o ato permanente de pensar e refletir sobre a filosofia e as coisas do mundo. Este exercício, comum na profissão de jornalista, só se faz por uma prática pessoal ou numa boa escola de Jornalismo, e não no acanhado espaço de uma cozinha.

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Professor universitário e jornalista

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