Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > TARSO DE CASTRO (1941-1991)

O grande jornalista (que não foi tanto)

Por Lúcio Flávio Pinto em 23/01/2006 na edição 365

A liberdade é o oxigênio da criação. O Brasil que a Constituição de 1946 propôs como nação livre foi criativo como nunca – nem antes e nem depois seria tão positivo. O jornalismo foi um laboratório e um campo de batalha para parte dessas inovações, assim como a música, o cinema, o teatro e a literatura. Marcas poderosas foram criadas tanto para o grande público como para leitores mais exigentes. Desde jornais como Última Hora a revistas de elite como Diner’s.


Nessa fase de talentos vulcânicos, o gaúcho Tarso de Castro conseguiu se destacar. Apareceu a tempo, no início da década de 1960, de ser caudatário da geração de 1946. Mas participou de uma corrente, impelida pelos ‘anos JK’ (ou JJJ – Juscelino, Jânio e Jango), que se chocaria com a muralha do AI-5, em 1968. Mesmo sofrendo o terrível golpe, ainda reinventaria formas de dizer o que a censura queria vetar e agitar a sociedade contra os novos inquisidores.


Tarso é o principal personagem de O Pasquim, a primeira lufada de vento livre numa paisagem de calmarias opressivas. O semanário surgiu logo depois do AI-5 e conseguiu, pelas vias e travessas da linguagem, da opção temática e da improvisação talentosa, se manter vivo por período que nem os mais otimistas imaginavam que fosse se tornar tão extenso. Defenestrado da publicação, Tarso criou novos jornais e revistas, que teriam existência efêmera, e inovou na grande imprensa, conseguindo o que parecia impossível: sucesso de público. Certamente marcou época.


Fora das redações


Mas quem ler sua biografia, escrita por Tom Cardoso (Tarso de Castro – a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 269 páginas), terá desse período e do próprio personagem uma visão de vaudeville, tudo muito rápido, sem a devida profundidade – e tendenciosamente em favor do biografado. O texto é bem escrito e o livro foi editado com capricho. Mas o biógrafo apenas juntou informações coletadas em pesquisa e entrevistas, colocou-as no liquidificador de texto e serviu ao cliente um produto pasteurizado, pastoso, inodoro e incolor. Pré-digerido.


Apressado em produzir a reportagem (no fundo, é do que se trata), Cardoso não se apercebe do absurdo de dizer, por exemplo, que o Panfleto, jornal de 1964, antes do golpe militar, chegou a tirar 500 mil exemplares. Naquela impressora que usou, seria totalmente impossível, no tempo disponível.


A desatenção é a mesma que o leva a afirmar que o decreto de João Goulart propunha a desapropriação de 100 quilômetros de cada lado das rodovias e ferrovias federais. De 100 quilômetros foi a faixa marginal de desapropriação de cada lado das estradas federais na Amazônia feita em 1971, pelo governo militar. O ato de Jango atingia apenas 10 quilômetros. E deu no que deu.


Depois de O Pasquim, Tarso teve lampejos de gênio, mas não pôde seguir a recomendação de Picasso: com pouca transpiração, o que criou brilhou como um raio e desapareceu. O jornalista preferiu viver com mais intensidade fora das redações, um terreno mais adequado para seu tipo de caráter. A bebida antecipou-lhe a morte, aos 49 anos, em 1991. Esse período de três décadas para trás merece ser reconstituído. É uma das fases mais importantes da imprensa brasileira. Mas o livro de Tom Cardoso fica a dever.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal, de Belém (PA)

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