Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

O imbróglio do Acordo Ortográfico

Por Deonisio da Silva em 30/09/2008 na edição 505

Comecemos pelo título deste artigo. Você sabe como vai ser escrito ‘imbróglio’ depois de entrar em vigor o novo Acordo Ortográfico que, nascido no Rio de Janeiro em maio de 1986, vai entrar em vigor em 2009, no Brasil e nas demais nações lusófonas? Aliás, a data de início da vigência vale apenas para documentos oficiais e para a mídia. Para as outras instâncias, incluindo o ensino público, o prazo vai até 2012, embora o Acordo comece a ser aplicado em 2010.


Convido os leitores a examinar certos detalhes e brechas, como fazem juristas e advogados com as leis. Afinal, semelhando a Constituição de 1988, a norma culta da Língua Portuguesa tem suas leis, que todos devemos respeitar. Todos?


Bem, o Instituto Antônio Houaiss e a Publifolha acabam de lançar Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, coordenação e assistência de José Carlos Azeredo (134 páginas).


É um opúsculo que certamente colabora para fazer da unificação ortográfica da língua portuguesa o livrinho que foi a Constituição para o presidente Eurico Gaspar Dutra, mas deixa inseguro quem o consulta.


Um livro ‘preocupado’


Vejamos. Na apresentação, aparecem ‘linguística’ e ‘europeia’, em vez de ‘lingüística’ e ‘européia’, pois o trema e o dito acento ainda estão em vigor. E vade-mécum, já aportuguesado, aparece em itálico. Mas, então, uma coisa ou outra: se aceitamos a forma portuguesa, é vade-mécum. Se não aceitarmos, será vade mecum, sem acento e sem hífen, pois é assim que se escreve em latim. Cuidemos do latim, ele está presente no português, principalmente no direito, e acho que ninguém de nós quer dispensar o habeas corpus, quer?


No penúltimo parágrafo da apresentação, é dito que ‘o texto do livro, inclusive o desta apresentação, foram (sic) grafados utilizando a ortografia atual, mas a íntegra do Acordo em sua forma oficial foi deixada tal como redigida’.


O leitor pode constatar, pelos exemplos colhidos a esmo, que tal não aconteceu, do contrário o trema, já abolido há alguns anos pela Folha de S.Paulo, jornal da mesma empresa que publica o livrinho em associação com o Instituto, teria sido acolhido, pois ainda não foi eliminado!


Na mesma apresentação, diz-se que ‘o resultado desse trabalho conjunto foi este livro conciso e amigavelmente redigido, vazado em linguagem simples e comunicativa, preocupado com que as perplexidades e vacilações de seus leitores sejam respondidas a contento’. Amigavelmente? O neologismo informático incrustou-se à sorrelfa ou sorrateiro, com seus sestros de invasor. E que dizer de um livro ‘preocupado’?


O neologismo italiano


Eu queria ser amistoso neste artigo. Primeiro, porque gente de bem, qualificada, com boas intenções, vem a público para explicar o Acordo. Mas, como escritor e professor de Letras, gosto de voltar ao antigo dilema que enfrentam todos os que escrevem: a botânica ou a jardinagem? A maioria dos leitores quer a jardinagem da língua, não a botânica, que esta é obra de lingüistas, lexicógrafos, gramáticos. Não se enfeita a janela com um vaso de sementes. Para a mulher amada, você dá um buquê de flores, e essas são palavras. Confiar a língua portuguesa exclusivamente a estudiosos da língua, por mais qualificados que sejam, equivale a permitir que sobre o sexo legislem apenas ginecologistas e urologistas.


Antônio Houaiss é um brasileiro a quem todos devemos muito, menos aqueles que o cassaram no período pós-64, mas ele, bom em pesquisa da língua portuguesa, tinha uma prosa muito desarrumada. Sua tradução do romance Ulisses, de James Joyce é mais indecifrável do que o complicado original do irlandês. Aliás, quantas vezes, ainda jovem escritor, inconformado com aqueles que proclamavam a beleza de Ulisses, fui piedosamente censurado por entrevistadores que não queriam manchar minha reputação. E eu jamais vi as qualidades do romance, por todos reconhecidas, talvez mais por aqueles que gostam de citá-lo sem o ler!


Os dicionários mais consultados de nossa língua ainda não se atreveram a grafar ‘imbrólhio, como se diz em bom português. Preferiram manter o neologismo italiano imbroglio, sem acento, ou acentuá-lo, seguindo os editores do português Camilo Castelo Branco e do brasileiro Raul Pompéia. Sim, abonaram imbróglio com um texto de Dispersos I, do primeiro, e de O Ateneu, do segundo. Mas por quê? Por que acentuaram, indicando a pronúncia, e mantiveram o encontro ‘gl’ como se tivesse em português a mesma pronúncia que tem no italiano?


O Jabuti na forquilha


Um último senão: a bibliografia. Que pobreza! Dela estão ausentes nomes como Celso Luft, José Pinheiro Machado, Othon Moacyr Garcia, Paulo Rónai e diversos escritores, jornalistas, roteiristas de cinema e de televisão, autores de teatro, usuários e estudiosos a quem o Acordo deve muito. Falta de espaço é que não foi. O mesmo vale para os periódicos. São citados apenas quatro: Estadão, Folha, JT e JB.


De todo modo, o Acordo veio para ficar. É bom começar a ler obras como este livrinho. Tudo indica que, por razões de mercado, logo estará em bancas e livrarias o de sempre: o roto ensinando o esfarrapado a se vestir. Com que roupa você vai? Este é o xis da questão também para a língua. Você não vai à praia de terno e gravata, e não vai ao Legislativo, ao Judiciário, ao Executivo, ao trabalho ou ao estudo de calção de banho.


PS. Não é a primeira vez que as comissões julgadoras do Prêmio Jabuti se atrapalham. Este ano premiaram como um dos melhores livros de contos, e realmente é, Fichas na Vitrola, do excelente autor mineiro Jaime Prado Gouvêa. Mas o livro foi lançado por Pedro Paulo de Sena Madureira, então na Editora Guanabara, em 1986, depois de ter sido vencido o Prêmio Nacional Guimarães Rosa, de MG, em 1982. Há alguns anos um dos finalistas foi o crítico Augusto Meyer, falecido em 1970. A revista CartaCapital foi a única a registra o equívoco, em texto do também mineiro Maurício Dias, como segue:


A exceção e a regra. O mundo literário aplaude o livro Fichas na Vitrola, de Jaime Prado Gouvêa, que ficou com o terceiro lugar, na categoria ‘Contos e Crônicas’, do Prêmio Jabuti 2008.


Mas reagiu surpreso à premiação. O livro foi lançado pela Editora Guanabara, de Pedro Paulo de Sena Madureira, na década de 1980, e não poderia ter sido inscrito. O regulamento do prêmio só admite livros publicados em 2007. Quem botou esse Jabuti na forquilha?’

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

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