Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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ARMAZéM LITERáRIO >

O incansável guerreiro da Comunicação

Por Audálio Dantas em 17/02/2009 na edição 525

Eis uma admirável travessia: passo a passo, desde os primeiros passos do menino que deixou a sua aldeia numa barranca do rio Ipanema, no sertão de Alagoas, para buscar o saber nas cidades grandes da beira do mar. E daí, em busca incessante, atravessou o mar, transpôs as portas de universidades da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa, fez-se mestre – o professor José Marques de Melo, pesquisador incansável, trabalhador intelectual em tempo integral, autoridade reconhecida no Brasil e no exterior como um dos mais profundos conhecedores das ciências da Comunicação.

Autor de mais de uma dezena de livros, a maioria dos quais sobre estudo e pesquisa da Comunicação Social, José Marques de Melo nos oferece, agora, a rica memória de sua trajetória, desde as leituras que lhe despertaram a vocação para o jornalismo até o profundo mergulho nas atividades acadêmicas às quais se dedica até hoje, como professor titular da cátedra Unesco de Comunicação Social, na Universidade Metodista de São Paulo.

Primeiro, ele aprendeu com o povo, bebeu nas fontes da cultura popular, os ‘meios informais de comunicação’ sobre os quais um de seus mestres no curso de Jornalismo, o professor Luiz Beltrão, realizaria importante pesquisa em que aborda as diretrizes da folkcomunicação, definindo-as como ‘processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta e indiretamente ao folclore’.

‘Seu Né Ladrão’

Antes do contato com a palavra escrita, a palavra do povo: as cantorias dos repentistas, as histórias de heróis populares que tanto podiam ser os cavaleiros das cruzadas, de um mundo distante e desconhecido, como os valentes vaqueiros com suas armaduras de couro, heróis do sertão imediato; o lirismo dos folguedos natalinos – pastoris, reisados, cheganças – ou as lamentações da morte, nas incelenças entoadas piedosamente para os defuntos de pontas de rua.

Quando vieram os livros, primeiro no grupo escolar e depois no ginásio de Santana do Ipanema, o qual o menino José Marques de Melo definiria como um ‘templo cultural’, nasceu a vocação para o jornalismo. As marcas da travessia vão se mostrando em textos que o autor chama de ‘exercícios de aprendiz’. Um deles trata da descoberta de petróleo em Alagoas, uma narrativa cheia de ardor cívico, classificada em primeiro lugar em concurso literário promovido pelo ginásio Santana, em 1957; outro, também premiado, exalta a conquista de uma biblioteca pública pela cidade, que ‘abre suas portas às inteligências moças de nossa terra…’

Alguns contos são publicados em jornais escolares, já no tempo do colégio em Maceió, ao mesmo tempo em que algumas crônicas chegam às redações dos jornais da capital. E novas marcas são deixadas no chão da travessia. Uma delas é um conto de mais fôlego, ‘Seu Né Ladrão’, a história de um migrante retornado de São Paulo que se transforma numa espécie de Robin Hood de Santana do Ipanema, roubando dos ricos para distribuir aos pobres retirantes, dos quais se torna líder e protetor. Escrito quando já cursava Direito e Jornalismo no Recife, em 1961, o conto reflete o momento que o país vivia, movimentos como os das ligas camponesas, em Pernambuco, lutas por reforma agrária, reflexos da Revolução cubana…

A ‘cassação’ do trem

O tempo que José Marques de Melo chamou de aprendizado de repórter foi quase todo dedicado a acontecimentos de Santana do Ipanema. Ele era correspondente da Gazeta de Alagoas, que publicava seus textos, ‘um misto de jornalismo de denúncia e ufanismo municipal’, conforme se constata pelo tom de desagravo que faz em matéria escrita sobre um simples tópico publicado pela revista Visão, atribuindo o desenvolvimento de Santana de Ipanema, ‘uma cidadezinha alagoana’, ao cultivo de maconha. Maconha, é certo, se plantava ali, e não era pouco, mas a cidade, enfatizava o repórter, não cresceu por causa disso, sempre foi progressista, graças ao trabalho de um povo ‘amante do desenvolvimento’.

Mas o jovem repórter avança em seu aprendizado e logo passa a escrever sobre problemas como falta de energia elétrica, água, assistência à saúde, deficiência do ensino. Trabalhou no Jornal de Alagoas, dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, teve reportagens premiadas. Seguia bem, na prática, mas não se contentava com o fazer jornalístico, queria saber o porquê. Daí a mudança para o Recife, onde integrou a primeira turma do primeiro curso de Jornalismo do Nordeste, na Universidade Católica de Pernambuco. Faz o curso de Jornalismo simultaneamente com o de Direito, na tradicional Faculdade de Direito do Recife, e ainda reserva tempo para participar da implantação do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, no Recife.

Formado, vai para a redação do jornal tradicional da terra, o Jornal do Commercio, que publica, em setembro de 1964, sua reportagem sobre a ‘cassação’ de um ramal de estrada de ferro no sertão de Alagoas, na região do São Francisco. Era um texto cheio de ironia sobre a fúria dos militares que haviam ocupado o poder alguns meses antes. Inscrita no Prêmio Esso de Reportagem, a matéria recebeu o diploma de Menção Honrosa Regional.

Pé na estrada

O povo falou na reportagem sobre a ferrovia cassada. Gente simples, pobres viventes que dependiam do trem para transportar o que produziam na terra – frutas, feijão, farinha, algodão, abóbora, galinhas, algum couro de bode – entre o médio e o baixo São Francisco, bordeando o trecho encachoeirado de Paulo Afonso. A mulher da beira baixa do rio, vendedora de frutas nas feiras de cima, ouviu a explicação de que o sumiço de trem era uma decisão do governo da Revolução e considerou ser aquilo um sinal dos tempos: ‘Essa é a guerra do fim do mundo!’ Bem que o Padre Cícero tinha avisado que um dia o mundo ia acabar.

Um texto assim, naqueles dias de cassação geral, só podia colocar o repórter em suspeição. E havia a passagem pela Última Hora, jornal proscrito pela Nova Ordem. Não havia clima para a permanência no Recife; o repórter rumou para o ‘exílio’, em São Paulo, convencido de que fazer o jornalismo cujo porquê descobrira na universidade, seria tarefa quase impossível. E foi, então, que José Marques de Melo deu o passo decisivo para aprofundar os seus conhecimentos teóricos da comunicação jornalística. Para começar, foi fazer o curso de pós-graduação na Universidade Central do Equador, organizado pelo Centro Internacional de Estudos Superiores de Jornalismo para a América Latina (Ciespal), mantido em convênio com a Unesco.

Logo mais se faria doutor. E não só isso: José Marques de Melo seria o primeiro doutor em Jornalismo diplomado numa universidade brasileira, a USP, que instalara em 1967 a Escola de Comunicações Culturais, hoje Escola de Comunicações e Artes – a ECA. A tese que defendeu constituiu-se num desafio que o pesquisador, munido de paciência e resistência sertaneja, venceu depois de investigação profunda sobre as razões da chegada tardia da imprensa ao Brasil. Foi além das interpretações históricas então consagradas de Nelson Werneck Sodré e Juarez Bahia.

O doutor põe o pé na estrada, continua a sua travessia. Percorre países da América Latina, depois a Europa e os Estados Unidos; participa de cursos, seminários, simpósios, conhece e troca experiência acadêmica com grandes nomes da pesquisa das ciências da Comunicação.

Lembranças de um rio incerto

A ditadura militar promove, em meados dos anos 1970, a caça às bruxas que atinge a universidade. O doutor José Marques de Melo parte para um proveitoso exílio nos Estados Unidos, onde aprofunda seus conhecimentos em várias universidades. Na volta, encabeça um movimento pela fundação da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

Os caminhos percorridos por esse incansável guerreiro da Comunicação são múltiplos. Da gestão acadêmica à organização de seminários, encontros, congressos, fundação e direção de publicações especializadas, como boletins, revistas e a publicação de livros, muitos livros. É, provavelmente, o autor com mais títulos publicados sobre estudo de Jornalismo e Comunicação no Brasil.

Por tão ocupado, certamente, ele teve poucas oportunidades de voltar a Santana do Ipanema. Continua em sua travessia, cujos vestígios estão neste livro, quase uma autobiografia. Quase, porque seu ator ainda tem, sem dúvida, muito mais a contar. Em contos, talvez, intermezzos na labuta da pesquisa.

Lembranças guardadas não faltam. Por exemplo, as daquele rio que passa pela cidade que é dele – o Ipanema –, um rio sertanejo que tem muito valimento na travessia que faz das alturas do sertão de Pernambuco até encontrar outras águas, as do São Francisco. O Ipanema, rio incerto que nos tempos sem chuva, quando expõe o leito seco de areia e pedras, é o mesmo que ‘desce’ impetuoso nas grandes enchentes, fertilizando terras que o margeiam, alegrando o povo – até os retirantes, que poderão permanecer na terra se por ocaso toparem no caminho um certo Seu Né.

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Jornalista, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, diretor da Federação Nacional dos Jornalistas, deputado federal e diretor-presidente da Imprensa Oficial de São Paulo

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