Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ARMAZéM LITERáRIO > MACACO SIMÃO

O jornalismo de trocadilhos

Por Gabriel Perissé em 25/09/2007 na edição 452

Acabo de ler, com direito a risos e gargalhadas, os três dicionários de José Simão: Dicionário lulês, dicionário tucanês e dicionário antitucanês. Irreverência pura no país da piada pronta.

Embora pronta, a piada precisa ser devidamente captada e distribuída. José Simão é mestre nesta arte, apropriando-se do que, afinal, a ninguém pertence porque pertence a todos. O piadístico nas entrelinhas e entreletras.

Patrimônio nacional. Perdemos a amizade mas n

ão perdemos a piada. Piada como exercício intelectual. Como expediente terapêutico. Como trabalho poético. Os trocadilhos a serviço da crítica e da relativização de tudo o que cheira a arrogância, petulância, excessiva importância…

Ridicularizar o tucanês é libertar-nos da empáfia (empada podre com boa aparência…). Porque tucanar é criar cortinas de fumaça para ocultar o óbvio, o concreto, a realidade nua. José Simão descortina essas cortinas com o sopro do bom humor.

Tucanar o cotidiano é dourar a fome, a miséria, construir com circunlóquios um muro que esconde nossas feridas. O ‘usuário’ do tucanês não fala ‘fedor’. Refere-se à dispersão dos poluentes que provocam desconforto respiratório. A perífrase é a sua arma. Para tergiversar. Para perpetuar o fedor. O fedor se torna algo tão complexo – impossível detectar suas causas. Impossível, portanto, eliminar o fedor. O tucanês emascula o verbo, anestesia a consciência, perfuma o fedor.

Tucanês, antitucanês e lulês

Tucanês captado, surge o antídoto: o antitucanês. Este denuncia aquele. Não seremos enganados por muito tempo. Com os pés no chão e olhos bem abertos, o brasileiro sem frescura contrata a Desentupidora Alívio, vai se divertir na Casa de Sinuca Pau e Bola, e freqüenta o Motel Corpo-a-Corpo.

A graça do antitucanês está na aceitação da vida sem eufemismos. A Churrascaria Peixe Frito não esconde suas contradições. A Funerária Fim de Papo vai direto ao assunto.

O lulês já é outra história. É o Brasil que não consulta Aurélio ou Houaiss. O Brasil que nasceu analfabeto… O Brasil daquela atriz a quem perguntaram o que estava lendo ultimamente, e ela respondeu na lata: ‘Livros!’

O brasileiro que desembesta é o companheiro que voltou a estudar. O companheiro diabético tem parte com o diabo, e a companheira furibunda sentou no prego. O lulês é mais fácil que o inglês.

José Simão: um Oswald de Andrade mais escrachado, um Leon Eliachar com acesso à internet, um Millôr Fernandes sem medo de desembestar!

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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