Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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O jornalismo em suas trincheiras de guerra

Por Sâmar Razzak em 08/08/2006 na edição 273

O jornalismo em épocas de conflito comete erros tão cruéis quanto as guerras. A imprensa nacional – principalmente a televisada – insiste em explicar o conflito que maltrata o Líbano há dias falando que Israel invadiu o país e matou centenas de civis por causa do seqüestro de dois soldados israelenses. Qualquer pessoa que pense um pouco não consegue se convencer com esta justificativa. Mas ela é noticiada, confirmada e ainda explicada: Israel não vai tolerar nem voltar atrás neste ponto. Quer de volta os dois soldados, nem que para isso seja preciso matar a população inteira de um país.

Como se não bastasse, a imprensa internacional também faz das suas. Enquanto se fala que um quarto da população libanesa já não tem onde viver, sem contar os mais de 1.000 mortos no confronto, tem quem dê destaque aos 36 soldados israelenses que morreram desde o início da ofensiva, em 12 de julho.

Uma equação que só é justa aos olhos de quem não tem qualquer sentimento humanitário ou senso de justiça. Guerra é guerra e a morte de soldados é conseqüência das batalhas travadas. Mas 1.000 civis mortos é covardia, embora a imprensa faça em sua cobertura um imenso exercício de segregação, pois se trata de árabes, tidos como pessoas de categoria inferior em toda a Europa e nos Estados Unidos. Por isso, ninguém ousa chamar o que está ocorrendo de holocausto, só que desta vez patrocinado por israelenses.

Como se não bastassem as atrocidades, é noticiado com o mesmo cinismo a preocupação pelo aumento do preço do barril de petróleo. Israel bombardeia um abrigo de refugiados e mata 56 mulheres e crianças. É a barbárie instalada, mas a imprensa forja o senso comum de que todo árabe é um extremista, o mal encarnado, um povo imbecilizado pelos dogmas de fé.

Politicamente incorreto

Mesmo no meio desta selvageria, o que sobra é falta de sensibilidade e partidarismo. Então nos deparamos com coberturas jornalísticas que simplesmente enojam. Um exemplo é uma matéria da revista alemã Der Spiegel, que parece tentar aplacar os horrores do holocausto provocado por seus comandantes na Segunda Guerra Mundial com uma carga extra de benevolência com Israel. No texto, o repórter narra a história de um soldado israelense, tratado como herói e ferido num confronto no sul do Líbano, mas que se diz pronto para voltar ao front.

‘Ran Wizer é um dos 20 soldados israelenses feridos no Líbano que estão no hospital. Internado no domingo com queimaduras, seus braços, pescoço, costas e cabeça estão cobertos de bandagens. Mas sua cabeça não está mais preta como fuligem, como ontem. Ele já consegue abrir novamente os olhos queimados, o que não conseguia ontem…’

Outro trecho diz:

‘Então fomos atingidos por um foguete. Não sabemos de onde veio. No momento em que nos atingiu eu não consegui ver nem ouvir nada. O tanque se incendiou. Suas escotilhas estavam fechadas. Quando a fumaça entrou no veículo, os outros três soldados que se encontravam lá dentro começaram a gritar; Wizer ordenou que eles abandonassem o veículo.

‘`Eu disse à minha equipe para se abrigar atrás do tanque´, diz Wizer, narrando a confusão. `Eu mesmo atirava loucamente em todas as direções. Então corremos cerca de 100 metros para trás, na direção de um Puma (veículo armado sem canhão). Eu continuava disparando minha pistola.´ Os soldados estiveram sob fogo o tempo todo, segundo Wizer. `Não sei se estávamos sendo alvejados por nossa própria gente ou por árabes´, diz o jovem oficial. Ele lembra que carregaram quatro soldados feridos em macas. `Então o Puma nos tirou de lá.´ O calor do fogo inimigo feriu com especial gravidade o pescoço de Wizer, mas as queimaduras vão muito abaixo da pele. `Mas eu tive sorte´, diz o soldado.

‘`Era um foguete antitanque. Muito moderno. Normalmente você fica pior depois de ser atingido por um desses.´ Wizer reage heroicamente. `Eu quero voltar ao Líbano´, diz. `Quero servir ao meu país.´ É uma tarefa difícil, diz Wizer, que só pode ser realizada por tropas em terra. Antes de voltar ao front, Wizer passará algumas semanas num hospital. Então completará pelo menos mais um ano de serviço militar. Depois disso quer ir para a América do Sul de férias, não por apenas algumas semanas, mas vários meses, ele diz.’

Então, depois de ler este absurdo, vamos parar e pensar. Os soldados israelenses invadem o país, desalojam um quarto da população, matam mais de 1.000 civis e ainda são tratados como heróis? Onde está o bom senso geral? Pelo relato deste infeliz dá para perceber que os israelenses não fazem idéia do que estão fazendo. Foram atingidos e para se defenderem começaram a atirar, não importa para onde. E no meio desta confusão já não sabiam se estavam sendo atingidos pelo inimigo ou por seus próprios soldados desorientados.

Infelizmente, este retrato de Israel como a grande vítima da história é reproduzido por grande parte da imprensa. Há muito tempo qualquer observação contra israelenses é politicamente incorreta. É anti-semitismo. Exceções existem, claro. Uma delas é o jornal The Independent, da Inglaterra. Basta ler os textos assinados por Robert Fisk (e reproduzidos no Estado de S.Paulo) para saber que a guerra não é bem essa que as televisões insistem em mostrar e que o lobby israelense consegue emplacar mundo afora. Neste texto, escrito logo após o assassinato dos quatro funcionários da ONU no Líbano, por causa de mais um ataque desastrado de Israel, Fisk escreveu:

‘Será possível – será concebível – que Israel esteja perdendo a guerra no Líbano? Da aldeia de Qlaya, numa colina no sul do Líbano, posso ver as nuvens de fumaça escura que se erguem sobre o mais recente desastre na cidade libanesa de Bint Jbail; pelo menos 9 soldados israelenses morreram e outros estão cercados depois de uma devastadora emboscada dos guerrilheiros do Hezbollah no que se supunha ser uma bem-sucedida investida militar israelense contra um `centro terrorista´.

‘À minha esquerda também se vê a fumaça subindo sobre a localidade de Khiam, onde os restos do posto destroçado das Nações Unidas permanecem como um monumento em memória de quatro soldados da ONU que morreram na terça-feira, quase todos decapitados por um míssil fabricado nos Estados Unidos, durante um ataque aéreo israelense…

‘As instalações estavam pintadas de azul e branco, e tinham uma bandeira azul da ONU na entrada. O dever desses soldados era reportar tudo que vissem: os impiedosos foguetes do Hezbollah sendo disparados de Khiam e a brutal resposta israelense contra os civis no Líbano.

‘Será que, por causa disso, tinham de morrer, depois de terem sido alvo dos israelenses durante oito horas e com todos os apelos que seus superiores fizeram às Forças de Defesa Israelenses para que cessassem o fogo? Foi um helicóptero israelense, também fabricado nos Estados Unidos, que se encarregou disso.

‘Enquanto isso, em Bint Jbail, outra carnificina acontece.

‘Depois de proclamarem o `controle´ sobre esta cidade do sul do Líbano, os israelenses caíram numa armadilha do Hezbollah. No momento em que chegaram a um mercado deserto, foram emboscados de três flancos, e os soldados caíram sob um fogo sustentado de fuzis. O restante dos soldados israelenses – cercados pelos `terroristas´ que deveriam liquidar – fez chamados desesperados de socorro, mas um tanque israelense Merkava e outros veículos enviados como reforço também foram atacados e incendiados. Até 17 soldados podem ter sido mortos até agora nessa desastrada operação. Durante a ocupação do Líbano em 1983, mais de 50 soldados israelenses morreram em um único atentado suicida.

‘O Hezbollah esperou e treinou para essa guerra durante anos e não vai renunciar ao território que libertou de Israel após 18 anos de uma guerra de guerrilha. O assalto de quarta-feira contra o Exército israelense em Bint Jbail comprovou isso. O problema é que os Estados Unidos acreditam que a matança é uma `oportunidade´ para humilhar os simpatizantes do Hezbollah em Teerã, e para ajudar a redesenhar o `Novo Oriente Médio´ do qual tão alegremente tem falado a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice.

‘É para Israel que está se esgotando o tempo no sul do Líbano. Os ataques mais recentes contra esta nação colocaram os israelenses, pela quinta vez em 30 anos, no banco dos réus de crimes de guerra.’

Sem mocinhos

E mesmo depois de todo tipo de atrocidade já praticada, Israel afirma que precisa de mais tempo para concluir seu ‘trabalho’ no Líbano. Quando eles ‘erram’ alvos como aconteceu em Qana, viram autores de um massacre cruel e vergonhoso. E isso não deveria ser concebível para um povo que já sentiu na pele o peso da perseguição em guerras passadas.

Ninguém fala sobre certos detalhes sórdidos da guerra, mas só quem veio fugido do Líbano recém-destruído pode falar dos dirigíveis, dezenas deles, que sobrevoam as mais remotas aldeias libanesas, filmando tudo, cada localidade, cada casa, escola, hospital. Eles sabem muito bem onde suas bombas estão caindo. Sabem quem vai morrer por causa delas. E mesmo assim a barbárie continua e o grito de dor do povo libanês nunca ecoa na imprensa internacional, grande parte dela controlada por judeus e por empresários sequiosos de lucros.

Não estou aqui para dizer que existem mocinhos nesta guerra injusta. Mas é preciso refletir sobre as disparidades do conflito e ponderar que, diferentemente do que muitos querem ratificar, as maiores vítimas desta guerra absurda são os libaneses. E pensar que estão destruindo o país mais laico do Oriente Médio, reconhecido pela tolerância religiosa que impera por lá (metade da população libanesa é católica e outra parte é mulçumana) e que há pouco conseguia se reerguer dos anos de destruição causada por outra guerra injusta… Mas esta já é outra história.

******

Jornalista brasileira de origem libanesa, pós-graduada em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná

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