Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

O mexicano que amava a língua portuguesa

Por Wladir Dupont em 01/02/2005 na edição 314

Ni en la muerte espero dormir. (Álvaro de Campos)

De trato áspero e despachado, pessimista no limite, sombrio sentido de humor, desdenhoso das glórias e das igrejinhas literárias, inimigo feroz do servilismo de colegas diante do mecenato oficial, o poeta mexicano Francisco Cervantes, morto no domingo (23/1), talvez reagisse com certo fatalismo se soubesse que nas duas mais prestigiosas livrarias da Cidade do México – Gandhi e Fondo de Cultura Económica – pouco ou nada havia de sua obra à venda até segunda-feira (31/1). Afinal, não era ele mesmo quem fugia horrorizado de qualquer badalação?

Princípios pessoais à parte, essa falha é lamentável, considerando que ele foi um dos melhores poetas de sua geração, a dos 1960, além de o maior tradutor de língua portuguesa do país, ofícios que exerceu com rigor e brilho até o ano passado, quando anunciou sua aposentadoria das letras.

Debilitado pelos efeitos cumulativos de um velho diabetes, agravado pela hipertensão, Cervantes, 66 anos, se dizia cansado de tudo, perdera ‘o apetite criativo’, já escrevera ‘o que tinha para escrever’. Nos últimos tempos, de volta à sua terra, a cidade de Querétaro, a duas horas da capital mexicana, dava oficinas de literatura a escritores e poetas aspirantes.

Bardo elogiado pelo ‘maestro’ Octavio Paz, trabalhador braçal e incansável do verso, Cervantes deixa uma obra consistente que se nutria de fontes e referências no mínimo extravagantes, como a sua paixão pelas tradições líricas castelhana, galega e portuguesa, do século 12 ao 20, preferência de fato excêntrica no universo lingüístico hispânico. Isto o inspirava a fundir os três idiomas em sua poesia, dificultando assim qualquer tipo de classificação ou escola.

Também curtia – e retrabalhava em seus textos poéticos – autores pouco conhecidos da tradição greco-latina, romances e novelas de cavalaria, escritores espanhóis do Século de Ouro. Escolhas que criavam, em relação a sua poesia, uma mistura de isolamento e extraterritorialidade, que ele explorava com altivez.

Vinho verde

O crítico Christopher Domínguez, do suplemento cultural El Angel, do diário Reforma, dizia em sua coluna no domingo (30/1) que…

‘…a virtude de Cervantes, sua originalidade, foi que não pertenceu a nenhuma corrente da poesia mexicana atual. Seu universo espiritual estava em outras literaturas. (…) Inventou uma língua portuguesa e espanhola em muitos de seus poemas mais comoventes’.

Outro poeta e ensaísta, Ernesto Lumbreras, no mesmo suplemento afirma que…

‘…mais do que fundir ‘traços’ do espanhol e do português, Cervantes inventou – à maneira de um esperanto – uma terceira língua própria para suas empreitadas líricas; partindo dessas línguas romances, achou uma sintaxe, ora barroca, ora plana, inconfundível dentro dos discursos da poesia mexicana’.

Em um de seus poemas, ‘Brasil y Portugal’, ele se expressa assim sobre essa rara e profunda dualidade poética e semântica:

De alguna otra manera

Sé que solo habré vivido

En dos países que he querido:

Brasil y Portugal y que me espera

Nadie y ninguno en otra parte,

Mas estos dos países son el mismo

En su lengua y en este mi espejismo,

Brasil o Portugal espero darte

Este sueño y esta vida que es la mía…

De fato, ao lado de sua extensa obra poética, cuja culminância é a antologia Cantado para nadie – Poesia completa (Fondo de Cultura Económica, 400 pp., 1997), Cervantes, ao longo dos seus quarenta anos de atividade, converteu-se, graças a essa paixão de ourives pelos segredos e matizes da língua portuguesa dos dois lados do Atlântico, no grande tradutor do português Fernando Pessoa (e heterônimos).

Em 2000, publicou uma antologia, em edição bilíngüe, de boa parte da obra de Pessoa – Drama en gente. Antes, em 1986, traduzira ao espanhol Vida e obra de Fernando Pessoa. História de uma geração, do crítico português João Gaspar Simões.

Traduziu e divulgou também outros poetas portugueses, nomes do calibre de Sophia de Mello Breyner Andersen, Carlos Queirós, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, José Régio, Teixeira de Pascoaes. Uma canção de Gil Vicente, o vinho verde, a paisagem ao redor do rio Tejo, o Castelo de São Jorge, em Lisboa, os fados de Amália Rodrigues, tudo isso amenizava a saudades das longínquas terras portuguesas, que visitou várias vezes.

Aos trovadores

Entre os poetas brasileiros de sua preferência, e por ele traduzidos, estão Mário de Andrade (Meditação sobre o Tietê), Souzândrade, Raúl Bopp (Cobra Norato), Cecilia Meireles, Jorge de Lima (Invenção de Orfeu), Manuel Bandeira (Lira paulistana), Hilda Hilst, Paulo Leminski, Ana Cristina César.

Sobre a cultura brasileira, aliás, escreveu centenas de artigos e ensaios na imprensa mexicana, textos reunidos depois no livro Travesías brasileño-lusitanas, de 1989, trabalho que lhe rendeu um prêmio do qual muito se orgulhava, a condecoração da Ordem do Rio Branco.

Suas curiosas experiências formais, com ênfase na mistura dos três idiomas, no fundo vindos da mesma raiz, a principio desconcertaram espíritos mais conservadores. Mas, com o tempo, Cervantes, único e imbatível nessa façanha, ganhou o respeito dos mestres da literatura mexicana, não poucas vezes encantados com as descobertas e possibilidades literárias produzidas por esse exercício inédito, audacioso.

Um trecho de seu poema intitulado ‘Homenagem aos trovadores e as donas galaico-portuguesas’ (vários de seus poemas são intitulados em português):

Fosse o rei neto

do nosso pae Affonso X!

Suspiran los cabellos que son olas

que, sonoras, invaden remos y mujeres

dispuestas a todo lo demás…

El-rei de Portugal

barcas mandou lavrar,

e levará nas barcas sigo.

mia filha, a voss’amigo.

Aquí se modifica y canta Hugo Vidal:

Vanse los mis ojos

y se van muy solos.

¿Quién los acompañará?

Lições do poeta e tradutor

De existência monástica, figura solitária e arredia, despojado de bens materiais, enfurnado em hotéis baratos do Centro Histórico da Cidade do México, dedo sempre em riste na denúncia do que considerava imposturas intelectuais – posição que lhe trouxe não poucos desafetos e um ostracismo severo –, Cervantes de repente soltava o verbo entre amigos e admiradores (que os tinha também) ou dava entrevistas a jornalistas culturais, falando sobre poesia e tradução. Alguns de seus conceitos:

** Poesia e tradução são a mesma coisa. Não funciona diferenciá-las. Trata-se de aspectos distintos da poesia.

** Para traduzir poesia é preciso ser poeta.

** O que é poesia? Existem 2 mil e 258 definições, mas nenhuma serve. Eu, por exemplo, tive 50, mas nenhuma durou e agora não me preocupo mais em encontrar outra. O segredo da poesia é o próprio segredo. [Contudo ele concordava com a opinião de dois de seus poetas prediletos, Borges e Graves: poesia é tradição e uma forma de religião.]

** Embora se deva ler Fernando Pessoa com muito cuidado em suas entrelinhas, também é verdade que a leitura direta de sua obra indica com verdadeiros relâmpagos ou tempestades de luz a consistência humana não só atingida pelo poeta, como a recomenda à humanidade futura, posterior a ele.

** Somente se escreve por meio das próprias experiências e gostos individuais. Mas podemos garantir que quase sempre o ego é transcendido pelo espírito que flutua nos ares e que nos procurou para expressar-se, não que nós o tivéssemos procurado. Mesmo quando se trata de sentimentos e experiências totalmente pessoais. Pessoa é ninguém. Ou Pessoa. É a mesma coisa.

** Jovens interessados em escrever poesia devem ler três livros essenciais: Residencia en la tierra, de Pablo Neruda, Poeta en Nueva York, de García Lorca, y Poemas humanos, de César Vallejo.

******

Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México

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