Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > TELEJORNALISMO

O noticiário de TV como prática democrática

04/02/2008 na edição 471

A mídia hoje é essencial para a vida em sociedade. Os telejornais cumprem uma função de sistematizar, organizar, classificar e hierarquizar a realidade. Dessa forma contribuem para uma organização do mundo circundante. É o lugar em que os grandes temas nacionais ganham visibilidade, convertendo o exercício de publicização dos fatos como a possibilidade prática da democracia. Todo esse processo se produz num campo complexo de construção, desconstrução, significação e ressignificação de sentidos.

O telejornal é hoje a grande praça pública do Brasil. Dando continuidade às pesquisas que estamos desenvolvendo há três anos, consideramos a reflexão sobre o campo do telejornalismo como um lugar de construções simbólicas de fundamental importância para a compreensão da produção, circulação e consumo de sentidos na sociedade. Consideramos ainda que a reflexão sobre o campo do telejornalismo seus processos, métodos e estratégias é de fundamental importância quanto à sua relevância, significado e eficácia para a compreensão da experiência nas sociedades democráticas. É dentro desse contexto que nos propomos a discutir o que denominamos de A Sociedade do Telejornalismo.

‘Relações perigosas?’

Em A construção do real no telejornalismo: do lugar de segurança ao lugar de referência, Alfredo Vizeu, PPGCOM/UFPE, e João Carlos Correia – Universidade da Beira Interior, Covilhã, lançam a hipótese de que o telejornalismo representa um lugar de referência para os brasileiros muito semelhante ao da família, dos amigos, da escola, da religião e do consumo. Com a finalidade de apresentar um esboço teórico dessa proposta, o estudo está dividido em três momentos: o telejornalismo como um lugar de construção do real, o conhecimento do telejornalismo e a produção do conhecimento. Como pano de fundo dessa caminhada, o que estamos apontando e indicando são algumas pistas, algumas considerações e algumas provocações para a construção de uma epistemologia do telejornalismo. Sean Hagen, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, discute ‘Jornalismo, Mito e Linguagem: uma abordagem teórica dos apresentadores-estrela’ como a imbricação entre jornalismo, pensamento mítico e linguagem desvela uma tendência presente no jornalismo atual: a transformação dos apresentadores de TV em estrelas.Além da imagem tradicional de jornalistas, agora ocupam um espaço glamouroso no universo simbólico do público – e do próprio jornalismo –, revelando uma forte presença das estruturas míticas na pretensa objetividade, veracidade e imparcialidade do campo em que trabalham, deixando de ser os produtores da informação para ser a própria notícia. Racionalmente, os jornalistas negam a presença da subjetividade na pragmática profissional, mas de forma inconsciente se deixam dominar pelas estruturas aparentemente arcaicas do mito na produção de notícias.

Em ‘Mídia e Poder: os dois lados da mesma moeda – a influência política do telejornalismo no Brasil’, Flávio Porcello, da UFRGS, procura examinar o jornalismo televisivo como um lugar de troca entre a política e o poder. ‘Relações perigosas? Relações promíscuas?’. Dentro desse contexto, o autor procura fazer um mapeamento inicial da força do poder televisivo.

A emissora e o público

Nesse sentido, procura buscar algumas pistas sobre as práticas políticas, profissionais e rotinas produtivas das principais emissoras de TV aberta do Brasil: Bandeirantes, Globo, Record e SBT em seus telejornais mais assistidos, Jornal da Band, Jornal Nacional, Jornal da Record e SBT Brasil, que contribuem cotidianamente para construir o Brasil da tevê, o Brasil do telejornalismo.

Já na sua pesquisa ‘Falibilismo: incertezas na construção do telejornalismo’, Aline Grego, da Unicap, defende que a produção do telejornal é apresentada como um processo comunicativo complexo, conseqüência de uma intrincada construção autoral coletiva. Ela é permeada por atos comunicativos em diferentes graus: do jornalista com ele mesmo, com outros profissionais e com o público telespectador. O telejornal, analisado enquanto linguagem e ações que se estabelecem no tempo, indica e segue rumos, busca alternativas. É um discurso que discorre sobre fatos que se transformam em notícias, ou melhor, em signos notícias, expostos ao falibilismo e às experiências colaterais, conceitos engendrados pela semiótica de Charles S. Peirce.

Iluska Coutinho, da UFJF, em ‘Telejornalismo e identidade em emissoras locais: a construção de contratos de pertencimento’ reflete sobre a produção dos contratos de afinidade e da relação de pertencimento entre uma emissora e seu público, tendo como referência a identidade forjada nos telejornais locais. Como modelo dessa experiência, a pesquisadora, que vem há cinco anos estudando o tema, traz como exemplo a cidade mineira de Juiz de Fora.

Efeito de presença

A pesquisadora procura mostrar a partir do modelo apresentado como a veiculação diária de produtos jornalísticos reforça a relação entre TV e município. Autores como Hall e Bauman oferecem suporte teórico para a discussão da identidade e, na reflexão proposta, dialogam com pesquisadores que estudam a televisão, e especialmente seu material jornalístico.

Yvana Fechine, em Configurações espaciais no telejornal’, procura mostrar que, preocupados em construir um maior envolvimento dos seus apresentadores com os conteúdos enunciados, os telejornais brasileiros têm buscado cada vez mais estratégias que produzem um efeito de continuidade espaço-temporal entre o estúdio e a rua. Para isso, estão apelando, com freqüência cada vez maior, tanto para o deslocamento de um dos seus apresentadores para locações externas quanto para o uso do monitor de plasma que permite uma interlocução direta dos apresentadores com os repórteres posicionados nos links espalhados pela cidade.

Com tais procedimentos, os telejornais almejam a neutralização da oposição interno vs. externo e a conseqüente construção de um espaço sem qualquer correspondência empírica: nem aqui (estúdio), nem alhures (locações externas). Este artigo propõe-se a mostrar, a partir da teoria da enunciação, como se constroem essas novas configurações espaciais e como, a partir delas, os telejornais investem na produção de um efeito de presença.

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