Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > PLANETA LIVRO

O paraíso distinto de editores, autores e leitores

Por Marisa Lajolo em 13/03/2006 na edição 372

O dos editores é um paraíso de livros que se escrevem por si, sem o incômodo de autores que escrevem menos ou mais do que o esperado, reivindicam maior percentagem de direitos autorais e questionam a eficiência da distribuição, já que raramente encontram seus livros nas livrarias que freqüentam.

No paraíso dos escritores os livros chegam às mãos dos leitores sem intermediários, impressos em gráficas que da noite para o dia transformam grossos originais em livros bonitos e baratos. As tiragens dos livros sempre coincidem com as registradas em contrato e os livros chegam a livrarias, onde ficam em destaque até que os leitores descubram a maravilha que se oculta entre as capas que os contemplam das estantes.

Paraíso de editores, inferno de escritores. E vice-versa.

Mas um não vive sem o outro. Melhor dizendo, um não vivia sem o outro.

O casamento parecia eterno e indissolúvel em tempos pré-internet. Mas a partir dos três dáblius da world wide web, novos pactos nupciais continuam surgindo no horizonte. Porém, enquanto o tempo de bits e nets democráticas e gratuitas não vem, alguns aspectos da parceria entre escritores (fornecedores de matéria-prima) e editores (fabricantes do produto) merecem reflexão. Particularmente por parte de produtores de textos entendidos como literários.

Autores traduzidos

O mercado brasileiro não consome literatura nas mesmas quantidades em que consome, por exemplo, obras didáticas. Talvez seja assim no mundo todo, mas talvez seja mais assim no Brasil. Em conseqüência, sobram acusações de todos os lados. Os livros são caros, dizem os autores. Os livros são caros porque vendem pouco, retrucam os editores. No bate-boca, os livros permanecem inéditos ou fechados.

Letrados não se dão muito bem com números, mas é na frieza dos algarismos que precisa fundar-se um diagnóstico menos impressionista de como anda a questão da leitura no Brasil. Do tema faz parte a relação entre escritores e editores: são ambos interessados em livros, papéis pintados com tinta sobre os quais se desenvolvem as práticas de leitura, as quais gozam de publicidade gratuita já que todos – da Unesco a qualquer secretaria de Educação – fazem parte do coro que defende, divulga e quer implementar a leitura.

Os números disponíveis são poucos. Os mais recentes e consolidados vêm de pesquisa de junho de 2005 encomendada pela Câmara Brasileira do Livro. Mas mesmo estes números estão longe de serem suficientemente abrangentes: refletem respostas de apenas 151 editoras dentre as 513 consultadas.

Mas como são estes os números de que dispomos, vamos a eles.

Eles dizem que em 2004, entre lançamentos e relançamentos de literatura, houve 4.875 títulos que venderam 24.220.487 exemplares. É pouco? É muito? E que sentido podemos atribuir à informação de que houve mais títulos reeditados (2.487) do que títulos novos (2.388)? Que interpretação damos à informação de que os lançamentos venderam mais exemplares (14.712.750) do que os relançamentos (9.507.737)?

Outras cifras permitem cruzar a situação de autores brasileiros com a de autores estrangeiros. Infelizmente, porém, os dados disponíveis não discriminam autores de literatura. Limitam-se os indicadores às chamadas obras gerais, categoria que abrange a literatura. Segundo eles, os autores nacionais levam vantagem: 6.823 títulos brasileiros contra 3.220 estrangeiros e 48.313.790 exemplares nacionais contra os 12.511.661 traduzidos.

Repete-se o impasse de interpretação: com pouco mais do dobro de títulos, os patrícios vendem quase quatro vezes mais exemplares. O público prefere o produto made in Brazil . Será? Ou será preocupante que num país de 170 milhões de almas apenas menos da metade tenha comprado, em um ano, um livro não didático, nacional ou estrangeiro?

E se acrescentarmos a informação de que nos últimos anos a publicação de autores traduzidos vem avançando tanto em títulos quanto em exemplares: 1.670 títulos em 2002, 2.430 em 2003 e 3.220 em 2004. No mesmo período, a publicação nacional encolhe: 9.080 títulos em 2002, 7.220 em 2003 e 6.826 em 2004. E se lembrarmos que é também crescente o capital editorial estrangeiro no país?

Livros a mancheias

Encomendadas pelo setor empresarial, estas pesquisas espantam pelo que não pesquisam. Não ajudam um cidadão – inclusive o cidadão-editor que as paga – que queira basear-se nelas para decidir em que linha editorial investir. Excluindo-se o setor de didáticos que tem consumidor cativo na figura do MEC, os demais setores são uma espécie de buraco negro onde as decisões talvez se pautem pelo mesmo amadorismo de Monteiro Lobato nos anos 20 do século passado, para ficarmos com um amador altamente competente e bem-sucedido.

Mas no buraco negro do que não se sabe também naufraga um aspecto muito importante de nossa história cultural. Sem um melhor conhecimento de práticas da cultura letrada brasileira, campanhas em prol da leitura podem muito pouco. É verdade que uma história da leitura não se faz apenas de números. Mas se faz também deles. E para que as estatísticas e algarismos cumpram o papel que precisam cumprir, as pesquisas precisam ser planejadas de forma a contribuírem para um diagnóstico mais eficiente das condições de leitura no Brasil. Por onde, como já se disse, passa o jogo de braço entre escritores e editores.

Que não venha o paraíso destes senhores é pena, mas… e nós leitores, e nosso paraíso de livros, livros a mancheias, como queria o poeta?

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Professora titular de teoria literária na Unicamp e autora, entre outros títulos, de A formação da leitura no Brasil, O preço da leitura, Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida 

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