Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > CRÍTICA DO JORNALISMO

O poder de construir e destruir realidades

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 25/09/2007 na edição 452

A obra Showrnalismo pode ser dividida em duas partes. Na primeira, o autor faz um esforço teórico para demonstrar como a mídia pode construir e destruir realidades. Na segunda, explora suas experiências pessoais.

Na introdução, Arbex afirma que é ‘…amplamente conhecido, lugar-comum, o fato, de em todos os países, os líderes políticos e os chefes militares planejaram suas ações calculando o tempo certo para serem apresentadas em horário nobre. A televisão adquiriu o poder de definir o que será ou não um acontecimento político’. Em razão disto haveria um enfraquecimento da fronteira entre o real e o fictício.

Arbex tem razão quando se refere ao poder da televisão de ficcionalizar a realidade. Contudo, a TV não é a única culpada pelo enfraquecimento da fronteira entre realidade e ficção.

A história está cheia de exemplos de como os políticos e guerreiros sempre empregaram ardis para construir e destruir realidades. Aníbal Barca, Alexandre o Grande, César, Napoleão, Stalin e Hitler foram mestres da encenação política e militar. Nenhum deles precisou da TV para iludir seus seguidores ou sobrepujar os adversários, mesmo quando estavam em desvantagem.

Fantasia e realidade

Nesse sentido, podemos concluir que a TV é apenas um novo instrumento de engodo. Aliás, caso não seja controlada, pode fazer vítimas inclusive entre os poderosos. A guerra do Vietnã e o impedimento de Collor exemplificam perfeitamente como a televisão acabou destruindo as esperanças dos militares e políticos que estavam no poder.

A cobertura das redes de TV norte-americanas fortaleceu a oposição interna à guerra do Vietnã e ajudou a selar o destino do exército dos EUA no sudeste da Ásia. A visibilidade da campanha dos ‘caras-pintadas’ foi fundamental para determinar o impedimento de Collor. Fiz referência aos dois exemplos porque eles provocaram mudanças comportamentais.

Desde a guerra do Golfo, os militares norte-americanos passaram a controlar rigorosamente cada informação jornalística e televisiva que sai do campo de batalha de forma a evitar reações indesejadas. A destruição política de Collor certamente inspirou o controle da mídia por Hugo Chávez. A recente adoção de práticas autoritárias sugere que eles também temem que a TV seja um instrumento de destruição de suas ficções.

No primeiro capítulo, Arbex menciona a morte da atriz Daniela Perez para demonstrar como a fantasia pode invadir a realidade. ‘A partir da ficção – mesmo quando apresentada como ficção –, a televisão é capaz de mobilizar as pessoas, criar debates e forjar um simulacro de participação.’ Nenhuma novidade. A televisão apenas ocupou o lugar da literatura.

Informação e entretenimento

Em seu livro Teoria da Literatura, René Wellek e Austin Waren afirmam que o ‘… escritor não se limita a ser influenciado pela sociedade: o escritor influencia a sociedade. A Arte não só reproduz a Vida, como lhe dá forma. As pessoas podem moldar as suas vidas nos modelos dos heróis e heroínas da ficção. Há quem ame, quem mate ou quem se suicide, de acordo com um livro – seja ele Os desgostos de Werther, de Goethe, ou Os Três Mosqueteiros, de Dumas’.

Quando escreveu o romance Os desgostos de Werther, o escritor Johann Wolfgang Goethe com certeza não queria que seus leitores seguissem necessariamente o exemplo do personagem que criou. Mas foi exatamente isto que acabou ocorrendo. O sucesso de Werther foi tão grande, que muitos jovens alemães passaram a se vestir exatamente como o personagem, a amar como ele e alguns até se suicidaram por razões semelhantes. O romance de Goethe é um exemplo de como a transposição entre ficção e realidade não é um privilégio da TV.

Mesmo assim, Arbex tem razão num ponto. O jornalismo deixou de ser o mesmo após o advento da TV. O ‘…fim da fronteira entre informação e entretenimento obrigou o telejornalismo a se adaptar ao ritmo das mensagens publicitárias: ninguém que tenha acabado de passar pelo impacto visual proporcionado pelas mensagens da Coca-Cola ou do Marlboro suportaria uma seqüência longa (mais do que trinta segundos) ou densa sobre algum evento. As notícias são apresentadas por belas mulheres, ou por ‘âncoras’ que funcionam como show-mim, não tendo importância o fato de eles saberem ou não de que trata a notícia lida no teleprompter’.

TV e poder político

Apesar de seu público imenso, a televisão não é exatamente o melhor meio de comunicação jornalística. Na TV, a complexidade dos fenômenos políticos e militares é diluída em razão do tempo e da linguagem empregada. Ficamos sabendo, por exemplo, que a polícia do Rio aprendeu tantos e quantos fuzis e metralhadoras numa favela, mas não onde as armas foram fabricadas, quem as transportou, introduziu no país e vendeu aos traficantes.

No simplificado mundo da TV, os fuzis e metralhadores ‘aparecem’ no morro, os traficantes ‘desaparecem’ ao serem mortos pela polícia e por seus inimigos e milagrosamente ‘renascem’ para serem novamente abatidos. Nesse sentido, não posso deixar de anotar que há uma clara semelhança entre o Jornal Nacional e os rocambolescos romances espíritas. Mas ainda não conseguimos saber ao certo se é o JN que fomenta o sucesso dos duvidosos livros psicografados ou se são estes que ajudam alguns telespectadores a aceitar passivamente a mediocridade do jornalismo global.

Segundo Arbex, ‘Jean Baudrillard dirá que o desaparecimento das fronteiras entre ficção e realidade atribuiu à mídia não apenas a capacidade de criar fatos, como também de criar a ‘opinião pública’ sobre os fatos que ela mesma gerou’. A metalinguagem ocupa um papel central na TV. Em razão de refletir, realçar e difundir suas próprias opiniões, a TV tem um poder político muito grande. Entretanto, nem mesmo a televisão está em condições de deter processos históricos que ocorrem fora de seus estúdios e à revelia de seus controladores.

Na Venezuela, há bem pouco tempo, Hugo Chávez fechou a rede de TV que apoiou um malogrado golpe de Estado. O bombardeio das retransmissoras de TV da Sérvia privou Slobodan Milosevic de sua principal fonte de legitimação e abriu caminho para o desmantelamento de seu regime. O alinhamento entre a TV e o poder não é automático. Mesmo quando a TV e o governante andem de mãos dadas, existe a possibilidade de um poder externo provocar o divórcio de ambos.

Mídia e população

Mesmo assim, Arbex tem razão quando afirma que ‘… a ‘opinião’ divulgada pela mídia interfere no curso dos acontecimentos, dando a ilusão de que o público foi levado em consideração. Na realidade, os indivíduos permanecem isolados, espalhados pelas mais distintas cidades, regiões, estados e países, sendo virtualmente ‘unificados’ pela mídia, mas sem terem exercido qualquer interlocução. É a ‘ágora eletrônica’ que simula a antiga polis, onde tudo se debatia. As megacorporações simulam a ágora que legitimará suas próprias estratégias de dominação e controle’.

Desde tempos imemoriais há um grande conflito entre dois tipos de governo. Um centralizado, restrito a uma minoria. Outro descentralizado, aberto à participação da maioria. As democracias modernas são uma inteligente e insidiosa combinação de ambos. À grande maioria da população é franqueada uma participação limitada. Podemos votar, mas não reduzir os salários dos nossos governantes, desembargadores, promotores etc. Sendo assim, o poder de fato é exercido por grupos minoritários que controlam o Estado e os mesmos pouca ou nenhuma atenção dão aos reclamos da maioria. Muitas vezes, estes grupos minoritários conseguem legitimar seus interesses através da mídia. Mas quando a mídia questiona seus privilégios em defesa da maioria da população acaba sendo silenciosamente ignorada.

Foi o que ocorreu no caso Renan Calheiros. A mídia e a população queriam sua cassação, os motivos para que a mesma ocorresse existiam. Contudo, a maioria do Senado, por razões duvidosas, resolveu preservar seu mandato numa seção secreta.

Ideologia conservadora e estética nazista

Ao tratar do império das corporações, Arbex notou que ‘…quanto maior o capital necessário ao investimento em novas tecnologias, mais a mídia se torna dependente dos anunciantes e dos sistemas de crédito. Como resultado – dirá Jürgen Habermas –, a imprensa, que até então fora ‘instituição de pessoas privadas enquanto público, torna-se instituição de determinados membros do público enquanto pessoas privadas – ou seja, pórtico de entrada de privilegiados interesses privados na esfera pública’’. Em conseqüência, ‘…se a mídia oferecia uma garantia frente ao poder do Estado, na medida em que os meios de comunicação se associaram em ‘oligopólios’ eles foram obrigados a inibir as funções críticas do jornalismo’.

O fenômeno referido no livro é relevante, mas sua interpretação um pouco pessimista. O stalinismo, o fascismo e o nazismo só dominaram a cena na URSS, Itália e Alemanha porque controlaram rigidamente a produção de notícias. Contudo, o capital necessário para manter um jornal ou rádio naquela época era comparativamente menor ao que hoje se gasta para criar e manter uma TV ou portal de internet.

Atualmente, os meios de comunicação se diversificaram de tal forma que o Estado não tem meios de manipular ou controlar todas as fontes de informação. Além disto, em razão da internet, qualquer cidadão pode se tornar fonte e produtor de informação – não é isto que estou fazendo neste exato momento? Em razão da multiplicidade de fontes, a credibilidade de cada veículo de informação é pequena e nenhum barão da mídia tem hoje o mesmo poder que o dono do jornal norte-americano que praticamente declarou a guerra Hispano-Americana.

‘Auschwitz cultural’ é um dos melhores capítulos do livro. É nele que Arbex faz um inventário da crítica à cultura pós-moderna. Cita Adorno para sustentar que ‘…o desenvolvimento das tecnologias industriais foi um componente central do extraordinário crescimento da ‘sociedade de consumo’, em particular nos países capitalistas mais adiantados’. O autor do livro invoca Debord para dizer que o ‘…espetáculo é a aparência e confere integridade a uma sociedade esfacelada e dividida’. Por fim, não deixa de se referir a era do maquinomem por causa das ‘…coberturas midiáticas da guerra do Golfo e de conflitos militares subseqüentes…’ que teriam realizado ‘…a síntese da mais avançada tecnologia com a ideologia mais reacionária e conservadora, ecoando, de forma bastante perceptível, os fundamentos da estética nazista’.

Celebração da brutalidade

Sou um consumidor de livros. Consumi o livro do Arbex e gostei tanto que estou a incentivar seu consumo por outras pessoas. A editora que publicou o excepcional livro Showrnalismo consumiu papel e tinta, produtos que por sua vez são fabricados por empresas que consomem outras mercadorias. Em razão disto, sou obrigado a concluir que a própria ‘sociedade de consumo’ cria oportunidades para todos, inclusive para seus críticos.

As teorias de Debord ainda conservam algum charme. Mas o francês nunca conseguiu explicar de maneira satisfatória porque somente na era da TV o espetáculo se tornou um problema.

Mesmo os homens mais primitivos inventaram músicas, danças, pinturas e rituais solenes para simbolizar suas relações entre si e com o mundo. O espetáculo sempre ocupou um papel central nas sociedades humanas. É através do espetáculo que os indivíduos se tornam parte de algo maior e se reconhecem uns aos outros como iguais.

Nesse sentido, a TV apenas deu uma dimensão nova a algo que já existia. E mais, os espetáculos televisivos (ou televisados) são obrigados a competir com outros espetáculos que ocorrem longe das câmeras. E muitos dos espetáculos não televisados têm mais importância simbólica nas nossas vidas do que os que ocorrem na TV.

Em razão de minhas especulações, concluí que o problema não é a existência da sociedade de consumo (que cria as condições de possibilidade de sua crítica) ou do espetáculo televisivo (que é obrigado a concorrer com outros), mas a celebração da brutalidade através da TV.

O indivíduo na era do clichê

O uso que se fez da TV nas duas guerras do Golfo é realmente apavorante. As ‘belas’ cenas de bombardeio e uma absoluta ausência de sangue conseguiram convencer o público que a guerra é como um videogame. Não é, não! Cada bomba que vimos explodir num ataque norte-americano ao Iraque, Sérvia ou Afeganistão, causou dezenas, centenas, milhares, dezenas de milhares de mortos e mutilados.

Nenhuma guerra foi limpa. Nenhum conflito armado é ou será lindo. Toda guerra produz vítimas inocentes, além do odor nauseabundo de cadáveres insepultos. Na tranqüilidade de nossos lares, não lamentamos pelas vítimas dos bombardeios norte-americanos. Ficamos hipnotizados pela ‘beleza asseada e ilusória’ das imagens feitas pelas próprias bombas e que lembram um videogame. Contudo, se aquelas mesmas bombas estivessem caindo em nossas cabeças e o espetáculo estivesse sendo assistido em outro país certamente nossa perspectiva da guerra seria outra. Neste particular, a crítica do uso da TV pelos senhores da guerra é essencial e foi feita de maneira competente por Arbex.

‘A televisão é um pólo ativo do processo de seleção e divulgação das notícias e também dos comentários e interpretações que delas são feitas. Ela não é mera ‘observadora’ ou ‘repórter’: tem o poder de interferir nos acontecimentos. O tele-noticiário diário adquiriu o estatuto de uma peça política, cuja lógica é determinada pelas relações de cada veículo de mídia com o sistema político, financeiro e econômico do país ou região em que ele se encontra.’

A afirmação supra é especialmente verdadeira se considerarmos a cobertura das guerras norte-americanas. Preocupadas em difundir a ‘beleza asseada e ilusória’ das imagens produzidas sob medida pelos militares e as opiniões dos especialistas (eufemismo para militares), as redes de TV endossaram a matança indiscriminada de velhos, mulheres e crianças. Raramente alguém na TV fez qualquer objeção à rígida censura jornalística imposta pelos norte-americanos ou fez a crítica da estética nazista.

Na primeira parte o autor trata ainda do indivíduo na era do clichê, do show de amnésia e memória, de como a televisão contamina a cultura e da ilusão ‘do fato como ele aconteceu’. Na segunda parte o autor faz uma retrospectiva de sua rica experiência como jornalista da Folha de S. Paulo. Mas não vou estragar as agradáveis surpresas que a obra proporciona ao leitor. Encerro aqui esta resenha de Showrnalismo, livro que vale cada centavo de seu preço.

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Advogado, Osasco, SP

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