Segunda-feira, 15 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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ARMAZéM LITERáRIO >

O ponto de vista do outro lado

Por Luis Guilherme Pontes Tavares em 17/03/2009 na edição 529

A Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba – está publicando Semanário Cívico. Bahia, 1821-1823, novo livro da historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva. A seleção de notícias comentadas pela autora revela ao leitor o ponto de vista daqueles que defendiam a permanência do Brasil na condição de colônia de Portugal, como era o caso do comerciante Joaquim José da Silva Maia, que editava o periódico. Para a historiadora ‘não há dúvida de que, para se ter um panorama completo das lutas políticas da época, é necessário conhecer os dois lados’.

A historiadora Maria Beatriz é publicada no Brasil e na Europa. É titular da Universidade de São Paulo e lecionou em universidades portuguesas. Em 2005, a Edufba, com o apoio da Academia de Letras da Bahia e da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, publicou a segunda edição de seu A primeira gazeta da Bahia: Idade d´Ouro do Brazil. 1811-1823, livro fundamental para o estudo dos primórdios da imprensa baiana.

Esse livro foi editado pela primeira vez em 1978, em São Paulo, pela Cultrix, com o apoio do Instituto Nacional do Livro – INL –, e desde então a autora adotou o seu modelo em duas outras ocasiões: no ano passado, ela publicou o Gazeta do Rio de Janeiro, 1808-1823, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj –, e agora está publicando, pela Edufba, o livro sobre o Semanário Cívico. Os três trabalhos salientam, a partir das notícias, aspectos da política, da economia, dos costumes e da cultura nas duas primeiras décadas do século 19.

Prefácio e orelhas

A escritora Isabel Lustosa, autora de Insultos Impressos A guerra dos jornalistas na Independência (1821-1823), é quem assina o prefácio do novo livro da professora Maria Beatriz, a quem ela distingue como aquela que inaugurou no Brasil os estudos de história da cultura e do cotidiano ‘nos moldes da historiografia contemporânea’, quando defendeu, na USP, em 1977, sua tese ‘Cultura e Sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821)’.

O livro da pesquisadora Isabel Lustosa sobre a imprensa no período da independência foi publicado pela Companhia das Letras em 2000 e é obra indispensável sobre o jornalismo brasileiro. Isabel Lustosa, além de outros trabalhos, é co-autora, com o jornalista Alberto Dines, da edição fac-similar e comentada do Correio Braziliense, jornal que o brasileiro Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça publicou, entre 1808 e 1822, em Londres. A obra fac-similiar foi publicada pela Imprensa Oficial de São Paulo – Imesp – em 31 volumes.

A pesquisadora Isabel Lustosa, que integra os quadros da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, considera que ‘o caráter precursor’ do novo livro da professora Maria Beatriz ‘se deve exatamente ao fato de se deter sobre o Semanário Cívico, porta-voz do lado que perdeu aquela guerra: o lado do general Madeira e daqueles que, na Bahia, lutaram contra a separação do Brasil de Portugal’.

O publicitário e jornalista Nelson Varón Cadena informa, nas orelhas, que o livro, ‘além de outros detalhes da história do período, revela um redator focado nos seus objetivos, leal, uma pena leve em tempos de `insultos impressos´, um cidadão-empresário que se viu envolvido numa guerra e a sua arma foi o proselitismo. [Joaquim José da] Silva Maia argumentou e rebateu as argumentações dos seus adversários com firmeza e sem extrapolar a linha divisória do respeito ao inimigo. Imaginou influir no ânimo e no pensamento de seus pares, na sua condição de doublé de funcionário público e publicista e, se não obteve sucesso, pelo menos alimentou o debate, uma contribuição no campo das idéias à guerra de armas e interesses travada nas ruas da cidade e vilas ao redor’.

Jornalista e escritor

O comerciante Joaquim José da Silva Maia, nascido no Porto, em Portugal, conforme o texto de Nelson Cadena, ‘descobriu-se jornalista e ativista político por acaso; protagonista da adesão da Bahia às Cortes de Lisboa no episódio militar de 10 de fevereiro de 1821, ele foi um dos signatários do documento oficial, na condição de procurador da cidade. Aborrecido com o discurso da gazeta baiana (Idade D´Ouro do Brazil) que julgou oportunista, três semanas após o levante lançava o Semanário Cívico. Cogitou encerrar atividades em dois momentos, inclusive abandonar Salvador, preocupado com a segurança de sua família, mas continuou a editar o jornal, esperançoso com a nomeação de Madeira de Mello como comandante de armas. Saiu de cena em 19 de junho de 1823, dias antes do início das negociações da rendição. Silva Maia embarcou às pressas rumo a Lisboa e lá continuou a sua ação política redigindo O Imparcial e, mais tarde, retornando ao Brasil para residir no Rio de Janeiro, quando publicou O Brasileiro Imparcial‘.

O livro de Maria Beatriz informa que Silva Maia, além de publicar o Semanário Cívico, publicou em 1823, em paralelo, o periódico Sentinela Baihense. Esse último foi estudado pela professora Consuelo Pondé de Sena que, a respeito, publicou em 1983 seu ensaio na série mantida pelo Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia – Ceb/Ufba. O editor do Semanário Cívico foi destacado comerciante em Salvador, tendo liderado, sobretudo com os seus periódicos, o segmento denominado de Praistas.

Silva Maia também escreveu dois livros: Memórias históricas, políticas da Revolução do Porto em 1828, e dos emigrados portugueses pela Espanha, Inglaterra, França e Bélgica, que foi publicada por seu filho Emílio, em 1841, nove anos depois da sua morte; e Memórias históricas e filosóficas sobre o Brasil, escrito em 1823 e publicado também por Emílio, no tomo II da Minerva Brasiliense, em 1841. O livro de Maria Beatriz tem, portanto, o mérito adicional de relembrar, às vésperas do bicentenário da imprensa na Bahia, quem foi o jornalista Joaquim José da Silva Maia.

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Jornalista e produtor editorial, Salvador, BA

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