Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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ARMAZéM LITERáRIO >

O porquê da seletividade

Por Washington Araujo em 18/05/2011 na edição 642

Leigos costumam achar que jornalismo é profissão sem rotina. Ledo engano. Todo ano tem Carnaval, Campeonato Brasileiro, enchentes em São Paulo e em cidades do Nordeste; a cada dois, eleições e bienais; de dois em dois ou Copa do Mundo ou Olimpíada; todos os dias, fofocas políticas e denúncias de corrupção. As pautas estão sempre pré-montadas à espera de repórter que lhe acentue os contornos e que tenha disposição para cobri-las com imagens candentes, com frases bombásticas, com depoimentos indignados de cidadãos.


E na falta disso tudo temos sempre de plantão articulistas indignados com o excesso de ação do governo ou, então, com a inação deste. É este o tipo de jornalismo que temos. Cabe aqui a pergunta do plantonista, do observador assíduo da imprensa: mas será este o tipo de jornalismo que gostaríamos de ter?


Perguntas sem respostas


A função do quarto poder é, sem dúvida, controlar e criticar os outros poderes tradicionais, e só pode fazê-lo em país em que vigore o estado de direito e a liberdade de expressão plena, isto porque sua crítica não tem conteúdo repressivo. Portanto, o Brasil atende a esses requisitos. O que não falta é liberdade para opinar e, no caso de se possuir algum veículo de comunicação, a liberdade inclui o direito de alçar à condição de notícia o que em condições normais de temperatura e pressão não passariam de meras suposições.


É corrente a percepção que os meios de comunicação podem influenciar a vida política do país por meio da criação de opinião. Cria-se, então, a opinião e busca-se logo em seguida quem a assine e se disponha a defendê-la publicamente. Umberto Eco foi feliz quando afirmou que os poderes tradicionais não podem controlar os meios de comunicação a não ser através deles mesmos, pois de outra maneira qualquer intervenção sua se converteria em sanção de natureza executiva, legislativa ou judiciária, algo que só pode ocorrer se os meios gerarem situações de desequilíbrio político e institucional.


Mas, surge outra questão – para muitos considerada impertinente! – sobre as reais possibilidades de existir um controle de um meio sobre o outro quando todos estão tão interligados pela preservação de sua própria influência e poderio ostensivo. A idéia monopolista veta este curso de ação e a imprensa se vê isolada, imune a qualquer marco regulatório, uma vez que o dispositivo constitucional não foi regulamentado e que qualquer tentativa nesse sentido terá ampla possibilidade de ser solapada por interesses tacanhos, quando não apenas escusos.


Com o objetivo de movimentar um pouco o noticiário é de se esperar que alguns veículos de comunicação, observando o impressionante estoque de tintas de escândalo armazenadas em suas redações cada vez mais virtuais e menos físicas, sintam-se tentados a cavar uma história em busca de indícios de corrupção. Não apenas de corrupção, mas de grossa corrupção.


Foi o que ocorreu nos últimos dias com as investigações do jornal Folha de S.Paulo sobre o enriquecimento do ministro-chefe da casa Civil Antonio Palocci: seu patrimônio teria aumentado em 20 vezes nos últimos anos. Há que se perguntar o porquê da seletividade: por que apenas Palocci teve esquadrinhada a evolução de seu patrimônio? Não seria interessante levar à mesma alça de tiro duas outras personalidades públicas, por exemplo, um grão-oposicionista e alguma vistosa autoridade do Poder Judiciário?


Obviamente esse é o tipo de pergunta que se formula com absoluta certeza de que não é para valer porque jamais será respondida. Obviamente existem interesses envolvidos, dentre os quais aqueles que se comprazem em ver sombras de suspeição pairando por sobre a Casa Civil do governo Dilma Rousseff.


Defesa vigorosa


É bem difícil para a grande imprensa assistir impávida ao autodesmoronamento da oposição no país, uma oposição tratada nos últimos oito anos a pão de ló, recebendo amplo noticiário para qualquer de suas teses, quer estivessem bem fincadas na realidade quer não. A experiência manda que tenhamos sempre um pé atrás quando, assim do nada ou do ‘quase nada’, surge denúncia de enriquecimento ilícito envolvendo um figurão da República. Por trás da ‘história’ pode existir lista em ordem alfabética de interesses a atender, de beneficiários a contemplar, ainda mais quando o procedimento padrão de investigação parece tão exato e preciso quanto a previsão da ocorrência concomitante de terremotos e de imensas ondas a varrer do mapa cidades e usinas nucleares.


Uma pista àqueles que têm um pendor por acompanhar as idas e vindas da imprensa brasileira é observar a forma como se dá a repercussão: que colunistas impedem que o tema morra por inanição ou por completa ausência de novos fatos; que personagens públicos são chamados a opinar; em que sequência midiática ocorre a repercussão propriamente dita. E também que assuntos que pareciam mortos e enterrados voltam como toque de mágica à superfície dos acontecimentos para abastecer quadros pretensamente explicativos e que levam o prosaico título ‘para entender o caso’. Na pior das hipóteses, é já recorrente o expediente de oferecer bandeiras a quem, na falta delas e na falta de votação expressiva advinda das urnas, precisa de um generoso tempo de sobrevida.


Acompanhemos os desdobramentos. Nestes, encontraremos o vigor com que a imprensa defende de qualquer forma de controle constitucional e democrático a sua liberdade de expressão e de imprensa, de impressão e de pressão.

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

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