Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > MÍDIA E GOVERNO

O PT, a manipulação da notícia e as conspirações

Por Larissa Grau em 07/08/2007 na edição 445

A notícia é produto-mercadoria feito a partir da informação e ela recorta a realidade, certo? Certo. O fato é retirado de seu contexto abrangente e reduzido a uma simplicidade inexistente, não é? Correto.

Ao enquadrar um determinado acontecimento e colocá-lo como concretamente observável por todos, a mídia, ao mesmo tempo, ignora o que está do lado de fora desse enquadramento. Ao revelar, esconde. E há que se perguntar se existe alguma outra possibilidade de ser de algum outro jeito já que, rezam a filosofia e as pessoas de bom senso, o real é inapreensível em sua totalidade. Assim, à sua maneira peculiar e operacional, a mídia constrói a representação dessa realidade.

Entretanto, a única maneira de que fatos acontecidos longe de nossos olhos possam ser publicamente contados é através dos meios de comunicação, sejam eles de massa ou não. E, em uma de suas múltiplas definições, a notícia é o resultado de uma necessidade social do relato de fatos, pelos ausentes, inobservados.

A mídia, por essas características (ser um produto, recortar, fragmentar e reduzir o real), é, vez ou outra, acusada da prática de manipulação. Foi, inclusive, essa acusação –manipulação golpista – que justificou o ato do presidente Hugo Chávez de não renovar a licença da emissora venezuelana RCTV. E foi também essa mesma razão que motivou a Comissão Executiva do Partido dos Trabalhadores, no dia 31 de julho deste ano, a convocar os detentores de mandatos públicos à mobilização contra a ‘grande ofensiva da direita aliada a certos setores da mídia contra o PT e o governo do presidente Lula’. Foram destacadas, pelo mineiro Gleber Naime, responsável pela comunicação do PT, as ações manipulatórias dos grupos de comunicação privados Rede Globo de Televisão, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense, O Globo e O Estado de S. Paulo, os quais, segundo Naime, ‘nunca fizeram antes oposição a um governo como o fazem agora’. Acusação que deve, primeiramente, ser empiricamente verificada, comparada com governos anteriores e comprovada para que se transforme, finalmente, em fato. É o que se denomina apuração e checagem jornalística.

Teorias da conspiração

Enfim, para o PT, uma parcela importante e significativa dos veículos de comunicação de nosso país está mancomunada e atentando sucessivamente contra os frágeis valores democráticos nacionais. E não é só isso. Toda a imprensa está equivocada. Melhor informar-se com os veículos oficiais do governo.

Preocupante e temerário, se levarmos em consideração que, ao longo de sua história, o Partido dos Trabalhadores fez campanha constante e ferrenha contra todos outros governos democraticamente eleitos sem que isso configurasse um atentado contra a democracia. Era, então, parte do jogo do contraditório que caracteriza a democracia.

Nesta acusação, aplica-se levianamente ao jornalismo o mesmo propósito e objetivo inerente à publicidade – a manipulação intencional. Voltando ao parágrafo primeiro, a mídia noticiosa recorta, sim. Fragmenta. Ao selecionar o que será revelado, produz automaticamente o seu contrário: o que não foi revelado. Ao selecionar e valorar algo como de interesse maior e, portanto, publicável, condena outros fatos a uma condição hierárquica inferior. Porém, dentro da rotina produtiva nas redações dos jornais, é importante compreender as possibilidades sempre limitadas de manipulação, já que é palco de interesses diversos e divergentes.

Não raro, as suspeitas de manipulação são exageradas e as acusações de suas práticas não são profundas. Se existe uma manipulação, ela é decorrente muito mais da própria funcionalidade interna do sistema – gostemos ou não – do que de uma decisão intencional realizada todos os dias, após o café da manhã, nas mesas dos respectivos editores. Isso é um credo razoável para aqueles que acreditam em teorias da conspiração.

Grande e manipulada inverdade

Há as linhas editoriais de cada veículo, não há como negar. Os leitores da revista Veja são ideologicamente diferentes dos leitores da revista CartaCapital, mas os meios de comunicação de massa vivem da venda, aos seus leitores, sejam eles quais forem, das incertezas dos fatos. A realidade é sempre descrita como carente de algum equilíbrio, seja qual for o governo que estiver no exercício de sua função. Ao elaborarem uma determinada informação, os sistemas de comunicação criam uma sensação de insegurança que só será aplacada com outras e novas informações e assim sucessivamente.

Esse é o seu modo operativo de manutenção e auto-reprodução e que o torna um dos sistemas autônomos de função de nossa sociedade. ‘A função dos meios de comunicação é a produção contínua de irritação’, afirma o sociólogo alemão Nicklas Luhmann. É bom que fique claro que isso não é privilégio ou perseguição a este governo e tampouco ao Partido dos Trabalhadores. É a lógica do sistema operacional.

O mundo jamais poderá ser observado, como também não será apreendido, em sua totalidade. Ele não pode ser conhecido a não ser pelos seus dispositivos midiáticos e suas limitações técnicas, operativas e ideológicas.

A convocação petista preocupa, pois atenta contra o direito constitucional de informar e ser informado. A título de um exemplo, a socióloga Marilena Chauí, em artigo publicado no blog Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, acusa a imprensa de ter ‘inventado’ a crise do setor aéreo brasileiro. Pelo jeito, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva não concorda com a intelectual, sua correligionária, já que admitiu a existência do problema concreto, embora tenha confessado que desconhecesse sua profundidade até a semana passada. Ajudaria se, de vez em quando, ele desse uma passada de olhos pelos jornais impressos ou televisivos e não tomasse todo esse conteúdo como uma grande e manipulada inverdade.

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Estudante do último período de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/08/2007 Apolonio Silva

    Caro Gustavo, não tenho a fórmula do ‘cansei’ – e não participo. Mas ele é legítimo, por mais que o petismo sonhe com monólogos. O próprio PT fez algo parecido. Não tenho a fórmula para melhorar o país. O máximo que consigo é chamar a atenção para o que está errado, coisa impossível para quem é militante do partido deste governo. Mas se o senhor me pergunta quais ingredientes seriam importantes para que o país caminhasse num sentido mais civilizado, para que graves erros históricos não voltassem a ser cometidos eu tenho sugestões: a mídia deve ser didática e apresentar claramente à população, aos trabalhadores em geral, o risco que existe na mistura entre sindicalismo e política, no adestramento do movimento estudantil por correntes políticas autoritárias, no encadeamento forçado de aparelhos sociais por movimentos ideológicos. Somos todos testemunhas oculares do que está ocorrendo. O neo-peleguismo sindical, articulado por uma elite de trabalhadores, cala-se diante de escândalos que no passado, colocaram milhares nas ruas, e removeram presidentes. O movimento estudantil degenerou e segue sem rumo. Miríades de ONGs aliadas a partidos políticos envolvem-se num neo-clientelismo terrível. O movimento cansei tem ‘chance’? Se pode ‘vencer’? Não sei. Nesse quadro, quem perde é o próprio Brasil. E quem se condena é o próprio petismo: cedo ou tarde a história cobra sua fatura.

  2. Comentou em 12/08/2007 Gustavo Morais

    A julgar pela sua postura e posicionamentos o Sr. Apolônio ganharia muito mais com a auto-aplicabilidade da lei da inércia, o que lhe seria recomendável pelo seu evidente “cansaço”. Todavia, o nobre físico deve se achar um gênio incompreendido, visto que enquanto gasta toda a sua “sabedoria”, esforçando-se em expor as suas teorias negativistas e anti-Lula e PT, o povo na sua sábia “ignorância”, na vivência prática e empírica do seu cotidiano, confrontando o passado com o presente, sabe avaliar, discernir e equacionar perfeitamente os fatos, reconhecendo e valorizando o que repercutiu positivamente em sua vida. Por tal razão, enquanto a mídia, o Sr. Apolônio e sua mirrada trupe vomitam o seu cansaço, o POVO está com Lula, apoiando-o maciçamente. Desafio o Sr. Físico a descobrir a fórmula para evitar o fracasso do movimento “Cansei”, do qual certamente participará na próxima sexta-feira (se efetivamente tiver). Decerto, participará do referido evento, visto que mora aí em São Paulo, local onde o mesmo ocorrerá, não podendo culpar o “caos aéreo” por sua possível ausência. Entretanto, acredito que será bem mais fácil engolir o seu “cansaço” e o “sapo barbudo”, que para a plebe, não sem razão, transformou-se num Príncipe.

  3. Comentou em 11/08/2007 Paula Abreu

    Só um detalhe adicional importante: o Partido dos Trabalhadores não só fez campanha constante e ferrenha contra todos outros governos democraticamente eleitos como usou a mesma imprensa que hoje chama de ‘golpista’, ‘burguesa’, o que leva a crer que nem eles acreditam na farsa que pregam sobre a imprensa e fazem isso porque querem massacrar todas as instituições a fim de impor sua visão totalitária e extremamente partidarizada de mundo.

  4. Comentou em 10/08/2007 Marcelo Ramos

    Prezada articulista, depreende-se, pelo seu artigo que o comportamento da imprensa, hoje, é o mesmo da época de FHC. A manipulação que ocorreu no segundo turno da eleição de Lula com Collor é ‘normal’? A forma como a imprensa não aprofundou ou não noticiou erros graves do governo de Fernando Henrique também é ‘normal’? Eu não sou contra divulgar problemas e erros, pessoas em cargos erram. E o Lula já disse e repetiu diversas vezes ‘não importa o partido, quem fez coisa errada, vai ser investigado e, se tiver culpa vai ter que responder’ Mas não dá pra dizer que a politização (ou tentativa de criminalização) proposital de determinados eventos está dentro do âmbito da atividade jornalística. Assim como não é normal a presunção de culpa que se tornou rotina em diversos veículos. É normal, sim, não poder encher toda uma página com o mesmo assunto. O assunto tem que sair aos pedaços. Isso é nornal, são decisões das editorias. Por exemplo, quando veio à tona o escândalo do Caixa 2 de campanha, o presidente disse, ‘vamos investigar’. Até então, o foco das investigações eram parlamentares da base governista. Quando as investigações se aprofundaram, apareceram mais nomes de diversos outros partidos, inclusive o ‘criador’ do Valerioduto, do PSDB. De repente, o Caixa 2 saiu da pauta. Você vai me jurar que é apenas uma decisão editorial… mas nós sabemos que não é.

  5. Comentou em 09/08/2007 cid elias

    Concordo com alguém que disse que cada um tem direito à opiniões próprias, ao referir-se ao artiquete lamentável da Larissa. Então este direito é extensivo às opiniões dos outros ‘uns’, os comentaristas que tiveram o desprazer de ler este monumental exemplo do que chamaria ‘geração sem noção, jovens vitimados pela desinformação idiotizante praticada por meios de comunicação tupis’. Há tantos descalabros, tantas mutilações dos fatos, que me pareceu feito por estudante de escatologia. Menina, tão jovem, tão desinformada. Com certeza este artiquete faria sucesso nos espaços umbralinos dos infectados pela idiotia midiática. Por sinal, seguem duas notícias novas que ofereço à pobre menina rica, pois no fundo ela é vítima das vejas qmentiras e rede golpe, a pró-ditadura:1-‘Procurador-geral denuncia Ivo Cassol(ex-psdb, hoje pps) e Expedito Júnior por compra de votos. Segundo o procurador-geral, os denunciados compraram votos de milhares de eleitores por R$ 100 cada…(L.Vasconcelos-AgenciaBrasil) 2- ‘Tucanos:Um Quase Líder Suspeito”-“Ter seu nome citado nas investigações desvio de dinheiro do Banco Regional de Brasília -BRB- Operação Aquarela, fez com que o deputado federal Leonardo Vilela (PSDB-GO) tivesse seu nome recusado para a liderança da bancada de oposição na Câmara nessa terça, em Brasília. Vilela havia sido indicado às 16h de ontem e caiu às 20h. (Cong.emFoco)

  6. Comentou em 09/08/2007 cid elias

    Concordo com alguém que disse que cada um tem direito à opiniões próprias, ao referir-se ao artiquete lamentável da Larissa. Então este direito é extensivo às opiniões dos outros ‘uns’, os comentaristas que tiveram o desprazer de ler este monumental exemplo do que chamaria ‘geração sem noção, jovens vitimados pela desinformação idiotizante praticada por meios de comunicação tupis’. Há tantos descalabros, tantas mutilações dos fatos, que me pareceu feito por estudante de escatologia. Menina, tão jovem, tão desinformada. Com certeza este artiquete faria sucesso nos espaços umbralinos dos infectados pela idiotia midiática. Por sinal, seguem duas notícias novas que ofereço à pobre menina rica, pois no fundo ela é vítima das vejas qmentiras e rede golpe, a pró-ditadura:1-‘Procurador-geral denuncia Ivo Cassol(ex-psdb, hoje pps) e Expedito Júnior por compra de votos. Segundo o procurador-geral, os denunciados compraram votos de milhares de eleitores por R$ 100 cada…(L.Vasconcelos-AgenciaBrasil) 2- ‘Tucanos:Um Quase Líder Suspeito”-“Ter seu nome citado nas investigações desvio de dinheiro do Banco Regional de Brasília -BRB- Operação Aquarela, fez com que o deputado federal Leonardo Vilela (PSDB-GO) tivesse seu nome recusado para a liderança da bancada de oposição na Câmara nessa terça, em Brasília. Vilela havia sido indicado às 16h de ontem e caiu às 20h. (Cong.emFoco)

  7. Comentou em 08/08/2007 Fábio Carvalho

    Segundo a autora, a mídia é, vez ou outra, acusada de manipulação. Está correta nesta assertiva, sem dúvida. Mas como reage a imprensa diante dessas acusações? Como a imprensa faz sua defesa? A imprensa procura demonstrar que não manipulou, é transparente? A imprensa, em geral, acolhe a crítica, faz verificações e admite erros? Ou a imprensa segue manipulando a verdade? Essa é a questão, ora. A autora sustenta que ‘foi, inclusive, essa acusação – manipulação golpista – que justificou o ato do presidente Hugo Chávez de não renovar a licença da emissora venezuelana RCTV’. Isso parece exatamente a cabeça da notícia ‘isenta’ do Jornal da Globo, lida por William Waack. A autora (como jornalista) não cumpre com uma função essencial: verificar os discursos, inclusive o feito em nome da liberdade de imprensa defendida pela Abert, ANJ e outros que representam os donos da mídia. Não é e não pode ser uma acusação feita por Chávez que irá determinar a notícia sobre o caráter golpista desta emissora. Diante da acusação, a gente ouve o outro lado. A gente busca a história, vê vídeo no You Tube. A gente descobre a golpista Venevisión, neoaliada de Chávez. Mas, se o intento é construir uma visão de mundo que ‘comprova’ o viés autoritário, dizemos apenas que há uma acusação de golpismo feita esquerda, por Chávez ou pelo PT. Parece sofisticado, mas é apenas sofismático.

  8. Comentou em 08/08/2007 Fábio Carvalho

    Segundo a autora, a mídia é, vez ou outra, acusada de manipulação. Está correta nesta assertiva, sem dúvida. Mas como reage a imprensa diante dessas acusações? Como a imprensa faz sua defesa? A imprensa procura demonstrar que não manipulou, é transparente? A imprensa, em geral, acolhe a crítica, faz verificações e admite erros? Ou a imprensa segue manipulando a verdade? Essa é a questão, ora. A autora sustenta que ‘foi, inclusive, essa acusação – manipulação golpista – que justificou o ato do presidente Hugo Chávez de não renovar a licença da emissora venezuelana RCTV’. Isso parece exatamente a cabeça da notícia ‘isenta’ do Jornal da Globo, lida por William Waack. A autora (como jornalista) não cumpre com uma função essencial: verificar os discursos, inclusive o feito em nome da liberdade de imprensa defendida pela Abert, ANJ e outros que representam os donos da mídia. Não é e não pode ser uma acusação feita por Chávez que irá determinar a notícia sobre o caráter golpista desta emissora. Diante da acusação, a gente ouve o outro lado. A gente busca a história, vê vídeo no You Tube. A gente descobre a golpista Venevisión, neoaliada de Chávez. Mas, se o intento é construir uma visão de mundo que ‘comprova’ o viés autoritário, dizemos apenas que há uma acusação de golpismo feita esquerda, por Chávez ou pelo PT. Parece sofisticado, mas é apenas sofismático.

  9. Comentou em 07/08/2007 Rogério Ferraz Alencar

    Apolônio Silva, tucano, quer dizer que não tem caráter são os petistas. É a velha mania tucana de imputar coisas suas aos outros. Creio que Larissa Grau quer manipular informações ou foi manipulada por elas. Este trecho é sintomático: “A mídia, por essas características (ser um produto, recortar, fragmentar e reduzir o real), é, vez ou outra, acusada da prática de manipulação. Foi, inclusive, essa acusação –manipulação golpista – que justificou o ato do presidente Hugo Chávez de não renovar a licença da emissora venezuelana RCTV.” Hugo Chávez não acusou a RCTV de ter feito “manipulação golpista”, mas de ter participado do golpe, como ela efetivamente participou e, ainda, comemorou, no ar, junto com um dos militares venezuelanos que participaram do golpe. Há outros: ela diz que “para o PT, uma parcela importante e significativa dos veículos de comunicação de nosso país está mancomunada e atentando sucessivamente contra os frágeis valores democráticos nacionais. E não é só isso. Toda a imprensa está equivocada. Melhor informar-se com os veículos oficiais do governo.” Os petistas nem consideram que “toda a imprensa está equivocada” nem que o que está ocorrendo são “equívocos”.

  10. Comentou em 07/08/2007 Patrick Lucas

    Que democracia é essa em que pobre tem que apanhar calado?

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