Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

O que há de novo na imprensa

Por Eduardo Guimarães em 19/12/2006 na edição 316

Fazia bastante tempo que a imprensa brasileira não produzia novidades em termos de postura. Foi só neste árduo 2006, que se aproxima do fim, que algo de novo surgiu em termos de forma de fazer jornalismo. Digo isso ignorando a luta pretérita da valente publicação CartaCapital, porque sempre foi voz isolada no deserto e sempre contou com reduzido universo de leitores. A crise política, porém, aliada ao processo eleitoral da presidência da República que ocorreu neste ano, fez com que não só a CartaCapital adquirisse uma dimensão que jamais teve mas que também alguns nomes importantes do jornalismo nacional se rebelassem contra o pensamento único midiático, totalmente voltado para o projeto de derrubar Lula e recolocar um tucano no poder, fosse esse tucano quem fosse.

A grande imprensa tradicional está ouriçada com a aurora de um novo jornalismo que começa a surgir neste país. Alguns homens estão sendo pioneiros desse movimento de recuperação da dignidade da profissão de jornalista. Trata-se de um movimento que eclode no preciso momento em que o nobre ofício jornalístico se encontra mergulhado num poço profundo de descrédito, de falta de respeito pelo direito do público de receber informações precisas, desengajadas, que contemplem todos os ângulos e que não ocultem, mitiguem ou superdimensionem qualquer fato.

O movimento em questão está permitindo à sociedade brasileira tomar cada vez mais conhecimento de opiniões antagônicas sobre fatos polêmicos, e é justamente desse tipo de opiniões que a análise séria de fatos polêmicos carece, pois polêmicas só podem existir diante da necessidade irrefreável do contraditório e o que vinha faltando ao jornalismo brasileiro era exatamente isso, o contraditório, pois os veículos da grande imprensa homogeneizaram-se de uma tal maneira que já não se tinha acesso a qualquer discordância de vulto das teses (sobretudo das teses político-ideológicas) que esses veículos propagavam em uníssono.

Outro lado da história

Homens como Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Franklin Martins, Luis Nassif e muitos outros, menos eminentes mas igualmente corajosos, desafiam cada vez mais a grande imprensa, submetendo-se ao risco de ela (a grande imprensa) logo, logo arrumar algum escândalo para desmoralizá-los. É preciso coragem. É preciso confiança na própria história e nos próprios atos para desafiar um poder que conseguiu paralisar a República durante mais de um ano e meio antes das eleições deste ano.

É o jornalismo rebelde, contestador, que não atua apoiado em grandes fortunas, no capital predador transnacional e que desafia as insinuações e as acusações veladas sem temer represálias dos megamagnatas da grande imprensa. Um jornalismo que arrisca o futuro, a ‘viabilidade’ no ‘mercado’ jornalístico ao ousar discordar do consenso dos patrões midiáticos.

São homens que estão trocando a fortuna imediata por um lugar na história, pelo momento em que a farsa montada pela direita brasileira e sua máquina de propaganda jornalística for desmascarada por historiadores, que contarão às gerações futuras como um grupo reduzido de homens lutou para manter o poder que sempre teve de eleger e derrubar governos e foi derrotado por um povo que esse grupo não hesitou em desqualificar, em dizer que seu voto era menos legítimo do que o dos ‘doutores’, que o dos mais ricos, escolarizados, que, em boa parte, acabaram acorrendo para a opinião política da ralé, do lumpemproletariado.

O jornalismo rebelde começa a denunciar e a contar o outro lado da história. E, o mais importante, a admitir o modus operandi nefasto que sempre foi adotado pela grande imprensa brasileira, mas que de quase dois anos para cá exacerbou-se como há décadas não ocorria visando combater um governo que, apesar dos pesares, vem promovendo distribuição de renda e de oportunidades de forma ainda bem longe da ideal, mas muito superior à que vinha existindo em governos anteriores.

A força desse movimento rebelde do jornalismo brasileiro, aliás, reside no fato de que ele é encabeçado por homens que formaram suas reputações e construíram suas carreiras nessa grande imprensa que hoje denunciam, o que lhes dota as denúncias de incômoda credibilidade… do ponto de vista dos barões da imprensa.

Viva, pois, o jornalismo rebelde. O grande movimento literário, o grande movimento comunicador do século 21. Que cresça e prospere. O Brasil precisa demais dele.

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Comerciante, São Paulo (SP)

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