Segunda-feira, 25 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
Menu

ARMAZéM LITERáRIO >

O repórter atirou certo, mas errou o alvo

Por Marcelo Csettkey e Marcelo Gil em 10/10/2006 na edição 312

Bob Woodward retoma as rédeas de sua história e lança o livro State of Denial. Entre outras coisas afirma que Condoleezza Rice ex-conselheira de Segurança Nacional, e hoje secretária de Estado, “se encontrou com o então chefe da CIA, George Tenet, e com seu assessor de contraterrorismo Cofer Black em 10 de julho de 2001. O jornalista relata que na reunião ela ouviu dos agentes que a ‘Al-Qaeda iria atacar, possivelmente dentro dos EUA’” (Estado de S.Paulo, 3/10/2006). Ela alegou que não se lembrava da “suposta” reunião. Porém o Departamento de Estado, reavivando a memória de Rice, confirma a reunião.

É compreensível que Rice continue a negar coisas tão evidentes – afinal, toda a cúpula do governo Bush se alinhou na mesma posição com afirmativas como a de Rice de que “ninguém poderia ter previsto que pessoas tomassem aviões e os lançassem contra o World Trade Center”. Mas, depois de tantas evidências apontando para o conhecimento da Casa Branca sobre a preparação dos atentados – também publicadas no nosso livro Crime de Estado – esse desmentido do Departamento de Estado parece o prenúncio de que a secretária Condoleezza poderá ser usada como “bode expiatório”, se for preciso.

É compreensível também que Woodward mude sua estratégia de atuação no que diz respeito ao governo de George W. Bush, depois de tantas mentiras descobertas nos últimos anos. Ele claramente começa a retirar seu apoio incondicional a Bush uma vez que o patriotismo “cego” que tomou conta do país começa a definhar, já não sem tempo. Toda a defesa que fez da atuação do presidente no seu livro Bush em Guerra começa agora a se transformar em desconfiança. Nada mais prudente para um Pulitzer [ver “Estrela do jornalismo perde o brilho”, neste OI].

“Não disse nada”

Rice, porém, não é a figura mais importante dessa nova – velha – história sobre os fatos que antecederam o atentado. George Tenet é o protagonista disso tudo. O ex-diretor da CIA sabia muito sobre a grande ameaça da al-Qaeda. A CIA acompanhou todos os passos da orquestração do atentado e Tenet, o tempo todo, esteve no comando. A CIA e o FBI desde 1995 tinham dados sobre o ataque com aviões usados como armas. O idealizador do futuro ataque, Ramzi Yusef – responsável pela explosão de uma bomba no subsolo do WTC em 1993 – e seu comparsa Abdul Murad foram presos naquele ano.

Em 1998, houve um relatório, produzido em conjunto pelas comissões do Senado e da Câmara dos Representantes dos EUA, apontando especificamente para a possibilidade de ataque terrorista usando aviões como armas. Havia inclusive, no documento, uma afirmação de que aviões poderiam ser lançados contra o WTC. Em janeiro de 2000, a inteligência da Malásia, a pedido da CIA de Tenet, monitorou a reunião dos membros da al-Qaeda escalados para o ataque de 11 de setembro do ano posterior. Os terroristas da al-Qaeda entraram em território americano com vistos legais usando seus nomes verdadeiros.

No dia 6 de agosto de 2001 o presidente Bush recebia das mãos de Tenet o “Top-Secret Presidential Daily Brief Memorandum”. O relatório trazia o título “Bin Ladin determined to strike in USA”.

Tenet tomou ciência do caso Moussaoui –que seria o vigésimo seqüestrador, mas foi preso em 16 de agosto de 2001. Segundo Coleen Rowley, ex-chefe do escritório e ex-supervisora jurídica, em meados de agosto de 2001 Tenet sabia do esforço dos agentes de campo do FBI de Mineápolis para conseguir um mandado de busca a fim de verificar os dados do computador de Moussaoui. A Rede Globo fez uma reportagem no dia 11 de setembro de 2006 para ser apresentada no Jornal da Globo intitulada “Os erros da inteligência americana antes do atentado”. Entrevistada, a agente Rowley confirma que Tenet sabia de tudo sobre Moussaoui:

“Segundo Rowley até um possível alvo foi especulado com precisão. Um dos supervisores em Minessota mandou entre 60 e 70 mensagens eletrônicas para a sede em Washington. Em um desses e-mails escreveu: ‘Esse é um terrorista que pode jogar um avião contra o WTC’(…) A informação chegou a um nível mais alto, o do diretor George Tenet. Ele recebeu informações detalhadas sobre Moussaoui e o possível atentado. A apresentação foi feita cuidadosamente no dia 23 de agosto de 2001, lembra Coleen. Mas nas três semanas seguintes George Tenet guardou essa informação. Não disse nada ao presidente”.

Três mil vidas

Segundo Woodward, no livro Bush em Guerra, Tenet tinha “o caso Moussaoui muito claro em sua mente. Em agosto, o FBI havia pedido à CIA e à Agência de Segurança Nacional para traçar todas as ligações telefônicas que Moussaoui havia feito para o exterior. Ele já era assunto de um vasto dossiê nas mesas do FBI” (Woodward 2002:25), mas mesmo assim não ajudou Rowley. Ela tinha anexado em seu pedido de mandado de busca informes decisivos sobre Moussaoui enviados pela inteligência francesa. A revista Time publicou a indignação de Rowley em junho de 2002, quando Rowley desabafa e põe tudo às claras sobre a passagem de Moussaoui em agosto de 2001:

“Os agentes de Mineápolis tiveram suspeitas bastante razoáveis e rapidamente entenderam que havia uma causa ‘provável’, pelo menos ocorreria dentro da prisão de Moussaoui. Quando a inteligência francesa confirmou sua filiação ao grupo islâmico radical fundamentalista e suas atividades conectadas a Osama Bin Laden, eles ficaram desesperados para conseguir o mandado, o que lhes permitiria investigar o computador de Moussaoui (…) quando, num esforço desesperado para ultrapassar as barreiras impostas pela sede central do FBI, a divisão de Mineápolis tomou a iniciativa de notificar diretamente a divisão de contraterrorismo da CIA”. (“The Bombshell Memo”, Time, 3/6/2002)

Em verdade George Tenet sabia muito sobre a orquestração de 11 de setembro. O que levanta uma forte suspeita é: por que Tenet não ajudou o escritório do FBI de Mineápolis? Bastava apenas aprovar um mandado de busca para verificar o computador de Moussaoui – no dia 11, por motivos óbvios, o mandado de busca foi aprovado. O FBI e a CIA puderam verificar que nele estavam todos os terroristas que iriam participar da “Operação Aviões” e toda a logística do plano. Tudo isso estava no computador do terrorista, condenado a prisão perpétua em março deste ano.

A pergunta que fica é: por que George Tenet, sabendo da periculosidade de Moussaoui, não usou sua influência para aprovar um dos 70 mandados pedidos pelo escritório do FBI – já que sabia quem era Moussaoui? E por que de 13 mil mandados aprovados desde 1978 em território norte-americano apenas um tenha sido negado? Aquele que muito provavelmente salvaria três mil vidas!

Por tudo isso, Bob Woodward quer retomar as rédeas de sua história pessoal e se desvincular de um presidente que se mostra, cada vez mais, uma ameaça à paz mundial.

******

Jornalistas

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem