Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > DUAS REPORTAGENS

O repórter e o boêmio

Por Rosana Figueiredo em 13/04/2004 na edição 272

São duas reportagens em que Joseph Mitchell conta de forma magnífica a vida de um boêmio que se formou em Harvard e dedicou todo o seu tempo a escrever o que acreditava ser a maior obra da literatura americana.

Joe Gould era um tipo raro, desses difíceis de encontrar. Nasceu em Norwood, subúrbio de Boston, Massachusetts. Filho e neto de médicos, graduou-se em Harvard em 1911 e optou por viver perambulando pelo Greenwich Village para ter liberdade e tempo de escrever sua ‘história oral’. Auto-intitulava-se a maior autoridade viva na linguagem das gaivotas. Dizia conhecer tão bem os grasnidos das gaivotas que era capaz de traduzir poesia para sua linguagem. ‘Traduzi vários poemas de Henry Wadsworth Longfellow para o gaivotês’.

Não tinha o que comer nem onde dormir. ‘Nos Estados Unidos, sou a maior autoridade em privação’, dizia. ‘Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e ketchup’. Na verdade vivia do que chamava de Fundo Joe Gould. Nada além de contribuições de conhecidos intelectuais e turistas que freqüentavam o bairro boêmio de Nova York, por onde ele sempre perambulava com seus cadernos escolares, onde escrevia sua história oral. Suas roupas eram doadas por conhecidos e a respeito disso costumava dizer: ‘A única coisa que me serve direitinho é a gravata’.

Gould passava horas trabalhando num livro misterioso e sem forma chamado ‘Uma história oral de nossa época’. Segundo ele a obra mais longa que já existiu, com originais que somam cerca de 10 milhões de palavras. O boêmio dizia escrever para a posteridade e guardava sempre no bolso um testamento que deixava dois terços do manuscrito à Biblioteca de Harvard e o terço restante à Smithsonian Institution. ‘Depois que eu morrer, os acadêmicos vão começar a folhear minha obra e dirão que eu fui o historiador mais brilhante do século. Não digo que toda história oral seja de primeira classe, mas uma parte dela terá vida tão longa quanto a da língua inglesa’.

Entre todas as pessoas que conheceram e conviveram com Joe Gould poucas leram algum trecho da história oral. O poeta Horace Gregory leu o bastante para formular sua opinião. ‘Se alguém se desse ao trabalho de separar o que é bom do que não presta, como os editores fizeram com milhões de palavras de Thomas Wolfe, talvez se descobrisse que Gould efetivamente escreveu uma obra-prima’.

História oral

As duas reportagens do repórter Joseph Mitchell [que renderam o filme Crônica de uma certa Nova York (Joe Gould’s Secret, EUA, 2000), de Stanley Tucci] e o posfácio escrito por João Moreira Salles formam o livro O segredo de Joe Gould, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O título faz parte da Coleção Jornalismo Literário, que traz também Hiroshima, de John Hersey, A sangue frio, de Truman Capote, Chico Mendes: crime e castigo, de Zuenir Ventura, e A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira.

O livro traz duas visões de um mesmo homem, Joe Gould. Os dois perfis foram feitos para a revista The New Yorker. O primeiro, ‘O professor gaivota’, foi escrito em 1942 e publicado na edição de 12 de dezembro de 1942. Nele Mitchell conta como conheceu Gould e se interessou pela sua história oral. Traça com detalhes o perfil do famoso mendigo e apresenta ao leitor uma verdadeira fotografia da Nova York daquela época.

Em O segredo de Joe Gould, escrito em 1964 e publicado nas edições de 19 e 26 de setembro de 1964, o jornalista descreve sua relação com Gould por mais de duas décadas e revela o mistério que envolve a história oral. Muito mais extenso do que o primeiro perfil, esse resgata a identidade de Gould e revela detalhes de uma Nova York desconhecida.

Vidas anônimas

Mitchell guardou o segredo de Joe Gould por muitos anos e só após sua morte o revelou. O motivo não se sabe ao certo, Gould nunca disse. Mitchel nunca insistiu em saber a razão, pois percebeu que o segredo era a própria vida de Gould. E confirma isso em sua segunda reportagem. ‘O Excêntrico Autor de um Grande Livro Misterioso e Inédito – essa era sua máscara. Escondido atrás dela, criara um personagem muito mais complexo, a meu ver, do que a maioria dos personagens criados pelos romancistas e dramaturgos de sua época’.

O ritmo de Joseph Mitchell é especial, assim como sua forma de fazer jornalismo literário, que pode ser mal-interpretado por leitores desatentos e insensíveis que considerariam O segredo de Joe Gould um livro pouco interessante, com informações repetidas. O que realmente acontece nos dois perfis feitos por Joseph Mitchell é que as características marcantes de Joe Gould são detalhadamente narradas. Mas nada disso faz de O segredo de Joe Gould um livro desinteressante, muito pelo contrário. A cada página lida a sensação é de que o segredo será esclarecido e que o fim está próximo. O que é uma pena, pois a vontade é que ele vá além das 157 páginas.

O estilo de escrever fez de Mitchell um dos melhores escritores de sua época. Escrevia sem pressa e passava meses apurando e redigindo uma reportagem. ‘O professor gaivota foi apurado em 16 dias, escrito em 18, revisado (por ele) e editado (por Shaw) em cinco meses’.

Lendo sua obra é fácil perceber a paciência e a atenção com que Mitchell ouvia seus entrevistados. Também se percebe o interesse do autor por assuntos bizarros. Isso explica o fascínio que Gould despertava em Mitchell, que acreditava que as vidas anônimas podiam revelar extraordinária beleza. Em seu posfácio, João Moreira Salles relata: ‘Joseph Mitchell jamais escreveu uma linha sobre alguém que não admirasse e ficava tristíssimo quando alguém dizia que seus personagens eram pequenos’.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo

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