Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

O repórter habita as histórias

Por Renato Tardivo em 01/08/2011 na edição 653

Christian Carvalho Cruz, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, acaba de lançar um livro tentador. A coletânea, que conta com apresentação de Laura Greenhalgh, reúne 23 textos publicados originalmente entre 2009 e 2011 no caderno Aliás – suplemento dominical do Estadão que aprofunda os assuntos marcantes da semana.

Trata-se de um livro de reportagens? Mais ou menos. Crônicas? Hum… Mais ou menos também. Contos? Olha que, embora as histórias sejam reais, não é exagero dizer que por vezes elas resvalem a ficção – mas não, não são propriamente contos. De que se trata então? Conforme lembra apropriadamente Greenhalgh na apresentação, conceitos como “new journalism […] jornalismo literário, jornalismo de autor, literatura da realidade […] servem para nomear o trabalho deste repórter brilhante”.

Com efeito, as expressões acima dizem respeito a certa mistura – confusão, no melhor sentido do termo – entre ficção e realidade. Para citar dois nomes célebres e pioneiros do gênero: Truman Capote, morto em 1984, e Gay Talese (que, aliás, esteve na Flip em 2009), hoje com 79 anos. Ambos estadunidenses. Mas, ao menos em ciências humanas, todo conceito é em alguma medida insuficiente, uma vez que se propõe a nomear, definir e, no limite, rotular um objeto multifacetado – e, justamente por isso, singular. Daí qualquer tentativa de apreendê-lo ser falha: o objeto sempre nos escapa.

Vá somando as ambiguidades…

Quando a temática versa sobre os limites colocados entre realidade e ficção, o problema se exacerba – novamente, no melhor sentido do termo. E é disso que trata o livro de Christian Carvalho Cruz, desde a dificuldade de categorizar a linguagem até o próprio conteúdo das histórias.

O primeiro relato, “De tigre a bem-te-vi”, conta a história do último exilado político a retornar à pátria. Escreve o repórter: “Na quinta feira, 20, estive com ele no Rio de Janeiro. Vi dois neguinhos: o Antônio Geraldo Costa, brincalhão, vivaz, raciocínio ligeiro, elétrico, cheio de planos e energia aos 75 anos; e, num outro relance, o antigo Carlos Juarez, carrancudo, desconfiado a ponto de pedir meu crachá para certificar-se de que falava mesmo com um repórter.” Esse personagem histórico, real, enrolado “com a dupla identidade de tantos anos”, é emblemático do que está por vir.

“Baile dos descarados”, texto seguinte, “é uma história dos descarados da tragédia nacional. História contada rodeando o cadáver do homem do carrinho, o famoso anônimo que ficou sem passado depois de morto e provavelmente não tinha futuro desde quando alguém o pariu”. No terceiro relato, “Crônica de uma morte à toa”, temos a tocante narrativa sobre o dia em que Adriano da Fonseca Pereira “se tornaria estatística de trânsito”.

Na primeira história, um personagem com identidade dupla; na segunda, personagens descarados; na terceira, os protagonistas têm nome, idade, profissão, carro e até máquina fotográfica recém-comprada no crediário. Têm? Tinham? Vá somando as ambiguidades…

A podridão invisível, descarada

Ambiguidades que a pena do repórter, como faria o olhar de um bom fotógrafo, revela. E se revela, não o faz por registrar meramente. Os rostos –as caras –, são desenhados e redesenhados porque sensivelmente vistos, isto é, sentidos.

É assim que cada um dos textos, como uma obra de arte, vive a sua própria vida, contém tudo o que deve conter – diria o esteta italiano Luigi Pareyson. Cada história, revivida nas páginas do livro, tem um ritmo, uma pulsação, uma nuance, uma coloração. Tais quais as personagens que engendram, são também elas multifacetadas, singulares.

Vamos retomar. O livro reúne textos publicados em um suplemento jornalístico que aprofunda os acontecimentos da semana. Fatos que foram notícia, aqui e ali. Mas que os textos de Christian paradoxalmente inauguram, de novo. Como a incrível sensibilidade com que, em “Morrer de novo”, se reconstrói a história de uma mulher a qual, ao tomar conhecimento de que os exames anti-HIV feitos anos atrás eram falsos positivos, morre de novo: “Maria apodreceu por dentro”. Ora, não há outra forma de dar à luz, como se fosse a primeira vez, esse evento senão sentindo através das próprias veias – que se estendem ao texto – a podridão invisível, descarada, de Maria.

Supostas verdades irremovíveis

O embate entre os que têm cara versus os que não têm, ou seja, entre o visível e o invisível, prossegue encarnado na questão da autenticidade – questão, diga-se, cara ao jornalismo. Vejamos alguns casos.

O padre (ou melhor, ex-padre) que emprestou ao papa João Paulo II (ou melhor, futuro papa) seu pisante “42 bico largo”. A evolução (ou seria involução?) que o manejo rápido dos teclados de celulares, sobretudo pelos jovens, representa em “De torpedo a torpedo”: “a geração dedão, formada por Homo sapiens que falam pelos polegares”. Em “Vamo começá essa bagaça”, a história do humorista Luiz Xavier, o Bartô, que deu “entrevistas por telefone a rádios estrangeiras como se fosse seu xará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. E, finalmente, dois textos cujo foco narrativo chama a atenção. Em “1 milhão em 25”, o jornalista escreve na primeira do singular – a notícia é a descrição de sua experiência fenomenológica. Já no excelente “Uma senhora batuta”, é a senhora (a notícia) quem narra em primeira pessoa e toma o lugar do jornalista.

Enfim, trata-se de alguns exemplos do fôlego do livro que, ao questionar as supostas verdades irremovíveis, parece ir colocando pingos nos “is” neste mar de histórias mal contadas. Mas, é importante dizer, não o faz porque as resolve, senão porque as transfigura – questão, diga-se, cara à ficção.

Arrisco um palpite

De modo geral, os últimos relatos trazem personagens conhecidos do grande público – Elza Soares em “Isto sim, é diva”, José Luiz Datena em “Ah, vai te catar”, o famoso publicitário em “Quero ser Washington Olivetto”, “a `pecadora´ da Uniban”, Geisy Arruda, em “Cada virada é um flash”. Nessas histórias, as personagens célebres parecem ceder o posto de protagonista à sociedade do espetáculo.

Sem tirar conclusões, condenar ou absolver, os relatos de Christian Carvalho Cruz invertem (subvertem?) as perspectivas usuais, transformam anônimos em celebridades, celebridades em (meras?) partes de um todo que (às vezes à revelia) ajudam a compor. E, nessa medida, propiciam ao leitor o gozo de se perder e se encontrar em toda essa deliciosa confusão.

“Entretanto, foi assim que sucedeu.” Esta é a primeira frase da história “Fóssil à deriva”, uma das mais literárias do livro – a linguagem, o enredo, a atmosfera: elementos de um conto fantástico. Sugestivamente, a frase inicial desse relato corresponde-se quase na totalidade com o título do livro.

“Entretanto”, como sabemos, é uma conjunção adversativa e, logo, denota oposição. Mas, no caso, oposição a quê, uma vez que o título é a primeira frase do livro? À conjunção “entretanto” segue-se a taxativa afirmação “foi assim que aconteceu”. Mas “assim como”? Para compreender o sentido precisaríamos saber de que oposição se trata.

Eu arrisco um palpite. Antes do “entretanto” vem o corpo do escritor. Corpo ambíguo, diria o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, que se deixa marcar pelas ambiguidades das histórias que encara. Que habita. Entretanto, mesmo que o meu palpite proceda, o enigma proposto pelo título não se resolve: ele se exacerba.

***

[Renato Tardivo é psicanalista e escritor, São Paulo, SP]

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