Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > CIÊNCIA & IDEOLOGIA

O Santo Graal da falácia jornalística

03/02/2004 na edição 262

O livro é oriundo de uma tese de doutorado defendida em novembro de 2002 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob orientação do professor-doutor Carlos Marcos Avighi. A obra analisa 10 anos de publicações nacionais e estrangeiras. E mostra que 98% das reportagens sobre genética dizem que a resposta final do que somos, e do que poderemos ser ainda, está nos genes – o que o autor interpreta como ideologia. A tese básica do livro é que, como a meteorologia e como a economia, somos sistemas abertos. Portanto é uma falácia dizer que a resposta final está nos genes. Claudio Julio Tognolli deduz que nessa febre, em que gene vira chip e seres humanos viram sistemas fechados como computadores, o que se prepara é uma resposta final para fazer todos crerem que o gene é de fato o Santo Graal da existência humana. Segundo as pesquisas do autor, isto se trata de uma ideologia vendida pelas assessorias de imprensa dos grandes laboratórios, porque em dez anos quem vai dominar o mercado mundial de ações serão os papéis das empresas de biotecnologia e de implementos para laboratórios de biotecnologia.A falácia genética – a ideologia do DNA na imprensa traz entrevistas com dois dos maiores cientistas dos EUA, Michael J. Behe e Richard Lewontin, e com os jornalistas José Marques de Melo, José Neumanne Pinto, Clóvis Rossi, Rosental Calmon Alves, Leão Serva, João Batista Natali, Renato Pompeu, Marcelo Leite, Maurício Tuffani, José Arbex Junior, Ulisses Capozzoli e com o especialista em bioética, Marco Segre.

O autor

Claudio Julio Tognolli é mestre em psicanálise e doutor em ideologiadas ciências pela ECA-USP. É professor da ECA-USP, do Unifiam-Faam,repórter especial da rádio Jovem Pan, do site Consultor Jurídico,colaborador deste Observatorio e da revista Caros Amigos. É ainda diretor de ensino da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (www.abraji.org.br) e membro do ICIJ (www.icij.org).Escreveu também A sociedade dos chavões (Escrituras, 2001,prefácio de Alberto Dines), O século do crime (Boitempo,1996, prefácio de Caco Barcelos, Prêmio Jabuti, em co-autoria deJosé Arbex Jr.), O mundo pós-moderno (Scipione, 1997, comJosé Arbex Jr.)  

Uma genealogia da falsidade

Gildo Magalhães(*)

Prefácio de A falácia genética – a ideologia do DNA na imprensa, de Claudio Julio Tognolli, 340 pp., Editora Escrituras, São Paulo, 2004, ; R$ 14,50

A ciência, assim como a arte, permite ao ser humano abrir as janelas de sua mente para a realidade do infinito. Na história, em especial desde o Renascimento, os cientistas acabaram criando uma forma de trabalho que aos poucos foi-se impondo com regras próprias. Mas ao contrário do que pensam muitos, a regra principal não diz respeito a questões de verificação, ou do seu contrário, de falsificação. É claro que tudo isto pode descrever o método e faz parte importante das tarefas científicas, porém nada equivale em importância à formação de hipóteses, que por sua vez geram teorias a serem testadas e experiências a serem levadas a cabo. Nesse sentido, a hipótese que se faz de uma hipótese representa ó ápice desta expressão de nossa capacidade intelectual, e isto foi corretamente expresso por Platão e seus seguidores. A filosofia da ciência nada alcança de fundamental para explicar se esquece deste ponto de partida e a história da ciência pouco nos instrui sobre os processos das descobertas caso se torne apenas um repositório de fatos, sem a iluminação representada pelo surgimento das hipóteses, ainda quando falhas ou superadas. A formação de hipóteses é a essência da epistemologia, ou de como se adquire conhecimento –por este motivo, a epistemologia deveria ser sempre objeto de nossas pedagogias.Por outro lado as ideologias científicas não são quimeras, elas existem, e o curioso é que se pode dar ao termo ‘ideologia’ muitas acepções, desde o extremo pejorativo de falsa consciência da realidade até o mais ameno de uma visão de mundo, sem que esta afirmação perca o sentido. Entender como vicejam as ideologias no âmbito da ciência é uma tarefa dupla da sua história e filosofia, que vêm construindo com sucesso uma tradição de problematizar a construção das teorias. A já aludida formação de hipóteses desempenha também nisto um papel fundamental, uma vez que em geral os cientistas não têm consciência dos determinantes sociais, econômicos e culturais que estão entranhados em suas teorias e, não obstante, é aí que os pesquisadores do tema podem investigar com maiores benefícios o que subjaz às idéias científicas.É claro que admitir essa abordagem da ciência implica em não se aceitar como ‘verdades’ as conclusões dos cientistas, por mais espetaculares que sejam, ao menos não como verdades absolutas, e sim como contingentes para uma dada realidade correspondente a um determinado estágio de conhecimentos e investigando os contextos sócio-econômicos pertinentes, Isto não deve entretanto levar ao ceticismo e às atitudes decorrentes do que se tem chamado de ‘pós-modernismo’, em que a tônica recai sobre a irracionalidade do conhecimento científico, uma verdadeira contradição. O cientista corretamente acredita naquilo que usa, só que o cientista mais aberto, e freqüentemente mais criativo, o faz com uma espécie de ‘dedos cruzados’ ou ‘de pé atrás’. Não é esta doutrina que se aprende nas universidades, fruto de anos de tradição da visão positivista das ciências. O que nelas se ensina é a adoção de paradigmas, que se por um lado têm a vantagem de levar por uma trilha segura e conhecida, acabam por outro freando a atividade epistemológica da criação de novas hipóteses.Um bom exemplo da ideologia científica dominante é o darwinismo, certamente a mais conhecida das teorias evolutivas da vida. Nascida no seio do liberalismo econômico e na linhagem do empiricismo britânico, a teoria darwinista é hoje amplamente ensinada como um paradigma, após as adaptações advindas dos crescentes conhecimentos da genética. Uma das aplicações atuais mais notórias dela é a sociobiologia, que mais recentemente vem cumprindo o papel antes desempenhado pelo darwinismo social. Os comportamentos explicados dessa forma tendem a ser considerados como provenientes basicamente de uma carga genética herdade pelos indivíduos e populações, embora se reserve algum papel ao meio ambiente, mas isto não alivia o peso da informação da base genética para essa teoria biológica, que tem se espraiado também pela economia política, antropologia e tantos outros ramos do conhecimento.Com as investigações da estrutura e constituição do ácido desóxi-ribonucléico, o DNA, cada vez mais o paradigma da biologia se deslocou para a busca da explicação das doenças e daí para a dos comportamentos, na decifração das seqüências de pares de base do chamado ‘código genético’. Houve muito conhecimento assim adquirido, com aplicações importantes para a saúde, a criminologia ou a agricultura, por exemplo, mas instalou-se com isto uma ideologia científica que acredita ser possível a decifração do que é o complexo mental e social do homem a partir da associação de pedaços do genoma humano e de sua contrapartida funcional, o proteoma, dado que o DNA tem o comando da formação de proteínas que representam as ações básicas da vida no nível molecular. A crença nessa ideologia tem parentesco com a dos que acreditam na possibilidade de se criar inteligência artificial a partir de máquinas tais como os computadores.É neste entorno que se situa o trabalho de Claudio Tognolli, que em boa hora vem a se tornar conhecido de um público mais amplo do que o acadêmico que o viu nascer. Um dos seus méritos , e não o menor, é mostrar que a comunidade científica não se apresenta de forma monolítica em relação à ideologia genômica. Comparando alguns dos principais pensadores da biologia por ele abordados, como Lewontin, Dawkins e Atlan, é fácil perceber que há choques ideológicos, pois alguns defendem ferozmente o paradigma dos gens determinantes, enquanto que outros dele duvidam com maior ou menor ênfase. Alguns filósofos da ciência mais conhecidos, como Kuhn e Feyerabend são também convocados, para chegar enfim à discussão mais importante para a sociedade, que é a dos valores. Surgem as questões de bioética e de moral, que estão na base tanto formação das hipóteses genômicas do DNA enquanto determinante comportamental, quanto nas conseqüências desse conhecimento para a população em geral.Note-se porém que Claudio é também e essencialmente um jornalista, e seu trabalho vai por uma outra vertente das ideologias: como o jornalista apresenta esses temas de ciência para o grande público? O problema da divulgação científica se depara com o despreparo da grande parcela dos jornalistas, não tanto para com os conhecimentos específicos envolvidos, que não são sua obrigação, mas principalmente para com o desconhecimento do que é a natureza da atividade científica. É como se houvesse um solene desprezo para com a problematização inicialmente referida das teorias e respectivas hipóteses, e meios de comunicação resolvessem entronizar como verdades absolutas aquelas que são historicamente transitórias, fazendo dos cientistas a imagem positivista do herói. Neste sentido, algumas das pessoas dos meios de comunicação entrevistadas por Claudio dão depoimentos de suma importância, por mais patéticos e discrepantes que sejam com relação à verdadeira epistemologia. Há também a grata surpresa da antítese: jornalistas que não desconhecem a função ideológica da produção de notícias. No geral, vê-se que a atitude ideológica dos meios de comunicação em relação à ciência não é afinal muito diferente da sua atitude com relação aos outros temas jornalísticos, da política à economia e à cultura.Por tudo isto, este trabalho é pioneiro e fundamental para desmistificar falácias, tanto as científicas quando as jornalísticas. Na trilha aberta por sua dissertação de mestrado, que lhe rendeu livro sobre os chavões do jornalismo, a tese de doutorado e Claudio na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo sobre a cobertura dos temas genéticos na imprensa tem condições de ajudar a desconstrução daquilo a que o público foi sujeito de forma velada. Trata-se de, ironicamente, remontar a genealogia das falsidades que têm sido apresentadas como fatos científicos irretorquíveis, às sua origens –digamos- demasiadamente humanas. O ancestral mais remoto dessas ideologias é o ‘pai’ Darwin, mas poderíamos ir mais atrás no estabelecimento dessa linhagem, passando por várias correntes anti-platônicas desde a Antiguidade, ou mais além.Conhecemos Claudio Tognolli como jornalista investigativo, acostumado a lidar com a lógica do trabalho policial enquanto matéria de cobertura, e com a sensibilidade que o fez passar por episódios dos mais formadores para sua carreira, como ameaças à sua vida no Haiti e o enfrentamento das montagens pseudo-científicas da medicina legal que se destinavam a encobrir os assassinos dos sem-terras no Pará, numa chacina de repercussões internacionais. Mas Claudio pôde unir a essa paixão profissional seu lado de professor universitário, de apaixonado pela filosofia e pela música, cujos ecos se fazem sentir no livro que agora o leitor tem em mãos. Pode parecer uma metáfora irônica, mas o que Claudio fez foi dar um passo importante para analisar o DNA da cobertura jornalística.

(*) Professor de História da Ciência na USP

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