Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ARMAZéM LITERáRIO > TEORIAS DO RÁDIO

O segundo volume de uma coletânea plural

Por Eduardo Meditsch em 02/09/2008 na edição 501

Três anos após o lançamento do primeiro volume deste Teorias do Rádio: textos e contextos, o prometido segundo volume chega a suas mãos, graças ao empenho da sempre animada comunidade de pesquisadores que se reúne em torno do Núcleo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora da Intercom, e da obstinação da Editora Insular de Florianópolis que, mesmo sem apoio, navegando contra o vento e a maré, vai se consolidando como uma das casas que mais publica textos acadêmicos sobre Jornalismo e Mídia neste país.


Três anos não é muito tempo para a continuação de uma obra que vem preenchendo uma lacuna de bibliografia teórica de muitas décadas, através da recuperação de textos sobre rádio bem pouco acessíveis e pela tradução de outros ainda inéditos em Língua Portuguesa. Amadurecida por esta espera, pretende ser uma obra de referência e consulta para profissionais, pesquisadores, professores e estudantes de rádio nas já quase mil escolas de comunicação do país, onde a teoria, na prática, quase sempre continua sendo outra, num casamento de aparência bastante prejudicial para o futuro de seus alunos e da radiodifusão brasileira. Quem sabe este livro venha auxiliar nos esforços dos que vem tentando mudar este quadro.


Como no volume anterior, os vários capítulos refletem os percursos e interesses teóricos dos pesquisadores do Núcleo e dos demais autores convidados, que concordaram em contribuir com a obra fazendo a contextualização de cada texto. Resulta disso uma coletânea bastante plural e rica em perspectivas sobre o nosso objeto de estudo.


Usos da critividade


No primeiro volume, optamos por um ordenamento cronológico dos textos lá publicados. Neste segundo, pensando em tornar mais fluída a leitura, fizemos um primeiro agrupamento pela origem geográfico-cultural dos textos, dividindo o livro em duas partes: a primeira com os autores do Sul (brasileiros e latino-americanos), a segunda com os do Norte (da Europa, América do Norte e Ásia). Dentro de cada parte, procuramos dar seqüência ao livro através da proximidade de temas, como faríamos também num programa de rádio.


A primeira parte começa com a recuperação de uma raridade: um texto de Roquette Pinto, considerado o fundador do rádio no Brasil e um dos primeiros pensadores do seu potencial educativo, contextualizado por Luiz Artur Ferraretto, atual coordenador do NP da Intercom. Em seguida, publicamos o texto de Walter Sampaio, o autor que fora escolhido para o primeiro volume por Gisela Ortriwano, e que não pôde aparecer lá devido ao falecimento precoce da professora da USP durante a elaboração do livro. Mas a vontade de Gisela foi realizada neste segundo volume por sua ex-orientanda Luciane do Valle, que aceitou o desafio de contextualizar a obra de Sampaio. A própria Gisela Ortriwano aparece como autora seguinte, com a disponibilização aqui de trechos da sua tese de doutorado que segue sem publicação integral. A contextualização da tese da mestra ficou a cargo de outra ex-orientanda, Lígia Maria Trigo, e de Ricardo Peruchi. A autora brasileira que fecha esta parte é Maria Immacolata Lopes, um dos principais nomes da Comunicologia brasileira contemporânea, através da recuperação do texto de sua dissertação de mestrado sobre o Rádio dos Pobres, contextualizado aqui por sua também ex-orientanda Maria Isabel Orofino.


Complementam esta primeira parte os latino-americanos Mário Kaplún e Reynaldo González, inéditos em português, o primeiro traduzido por Valci Zuculoto e o segundo por Lia Calabre, que também contextualiza o texto. Kaplún, referência de uma geração de estudiosos do rádio no Brasil e na América Latina, é contextualizado aqui por Juliana Gobbi Betti e por mim. O conjunto destes textos do Sul fala muito das esperanças e dos sonhos vividos nesta parte do mundo, e da luta dos pesquisadores de rádio para ver este fantástico meio de comunicação a serviço de sua realização.


Na segunda parte, o Norte, partimos da recuperação do texto mais famoso de Walter Benjamin pelos pesquisadores Mozahir Salomão e Graziela Vianna, que destacam a sua importância para os estudos de rádio. Na mesma esteira, Sérgio Endler recupera um texto clássico de outro alemão, Theodor Adorno, sobre a música e a mídia. As lutas políticas e de concepções estéticas que marcaram a segunda metade do Século XX estão presentes nos textos seguintes do inglês Julian Hale, traduzido e contextualizado por Luciano Klockner; do canadense Murray Schafer, que ficou a cargo de Marcos Julio Sergl e Carmen Lucia José; e do japonês Tetsuo Kogawa, traduzido e apresentado por Lílian Zaremba.


A linguagem radiofônica é tratada ainda em textos inéditos do espanhol Moragas Spa, traduzido e apresentado por Magda Cunha; do francês Roland Barthes, contextualizado por Valci Zuculoto; e do norte-americano Erving Goffman, traduzido por Kátia Modesto com contextualização a cargo de Sônia Pessoa. Os espanhóis Kety Betés, traduzido e contextualizado por Clóvis Reis; e Cebrián Herreros, traduzido e apresentado por Claudia Quadros, também inéditos em português, trazem um panorama sobre os diversos usos da criatividade no rádio deste novo século.


Trabalho de equipe


Além da pluralidade de perspectivas internacionais, é de se destacar a multiplicidade de origens dos pesquisadores brasileiros que fizeram a tradução e a contextualização dos textos. Neste âmbito, autores e tradutores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais colaboraram na empreitada. Dois textos previstos para este volume, o de Luiz Maranhão Filho sobre o venezuelano Angel Ara, e o de Mauro Costa sobre o italiano Franco Berardi, acabaram ficando de fora, por razões técnicas e, quem sabe, aparecerão, dentro de mais alguns anos, numa sonhada terceira etapa.


O segundo volume de Teorias do Rádio: textos e contextos, não teria vindo à luz sem que a professora Valci Zuculoto tivesse se juntado a nós na trabalhosa tarefa de organização do livro. A editoração foi feita pela equipe da Editora Insular, a partir do projeto gráfico desenvolvido para o primeiro volume pelos então estudantes do Curso de Jornalismo da UFSC Ana Paula Fehrlen e Thiago Macedo. A nova capa também atualiza o trabalho anterior dos ex-alunos Rafael Emerin Alves e Ginny Carla Moraes de Carvalho. A atual estagiária Laura Toledo Dauden colaborou com a professora Valci Zuculoto na revisão dos originais. A todos os que contribuíram para a concretização de mais esta obra coletiva do Núcleo de Rádio e Mídia Sonora da Intercom, expresso o meu mais profundo reconhecimento.



***


Prefácio


Luiz Artur Ferraretto (*)


Esforço individual e esforço coletivo – atitudes aqui redundantes – constroem, página a página, esta versão em papel e tinta do trabalho dos integrantes do Núcleo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). No plano individual, há que destacar, em especial, o professor Eduardo Meditsch, dedicado pesquisador, que colocou a este fórum de estudiosos o desafio de sistematizar de forma mais efetiva o pensamento teórico neste campo de estudo. A ele, junta-se a pesquisadora Valci Zuculoto na organização deste segundo volume, livro que é uma nova resposta coletiva àquele desafio de já cinco ou seis anos. Aliás, quem conhece a trajetória deste grupo sabe da seriedade e da convergência de esforços, cada parte procurando construir o todo em obras que, transcendendo o ambiente universitário, fazem da sua existência uma contribuição ao desenvolvimento da sociedade em um país subdesenvolvido e com tantas dificuldades como o Brasil.


É uma trajetória de várias publicações em grupo, marcando não só relações profissionais e científicas, mas de afeto. É um caminho de camaradagem entre colegas e dedicação, de início, ao grande meio de comunicação representado pelo rádio, que, com o tempo, foi se ampliando, englobando outras manifestações sonoras. Na origem, o sonho e a visão de futuro de pessoas como Doris Fagundes Haussen e Sonia Virgínia Moreira. Agregados e se agregando a elas, outros como o próprio Eduardo ou as professoras Nélia Del Bianco, da UnB e Mágda Cunha, da PUCRS. Todos estes foram passando pela coordenação do antigo Grupo de Trabalho Rádio da Intercom, hoje Núcleo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora. Foram deixando suas marcas e criando uma tradição. Juntos, em estreita ligação, aparecem os colegas Ana Baum, Luciano Klockner e Nair Prata que coordenaram e coordenam o GT História da Mídia Sonora da Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória da Imprensa e a Construção da História da Mídia no Brasil. No entorno, uma centena de pesquisadores em todas as regiões do país, planejando, testando hipóteses, indo a campo e produzindo ciência.


Esforço e organização


Apenas citando a produção coletiva ao longo deste século 21, lá estão vários livros como este nas estantes de alunos, de pesquisadores, de bibliotecas universitárias e – o mais importante de tudo – dos curiosos, dos interessados, dos aficcionados pela radiodifusão sonora. São obras como Desafios do rádio no século XXI (2001), organizado por Sonia Virgínia Moreira e Nélia Del Bianco; Rádio brasileiro: episódios e personagens (2003), organizado por Doris Haussen e Mágda Cunha; Vargas, agosto de 54: a história contada pelas ondas do rádio (2004), organizado por Ana Baun; o primeiro volume de Teorias do rádio: textos e contextos (2005), organizado por Eduardo Meditsch; e Batalha sonora: o rádio e a Segunda Guerra Mundial (2006), organizado por Cida Golin e João Batista de Abreu.


Você, então, leitor atento, talvez se pergunte agora o porquê do uso freqüente da palavra ‘esforço’ ou da expressão ‘organizado por’ ao longo deste prefácio, logo no prefácio de um livro sobre rádio, meio tão avesso a repetições de vocábulos, mas, no qual, por contraditório que possa parecer ao leigo, há a necessidade de certo grau de redundância. Afinal, trata-se de uma mídia na qual a mensagem vai sendo transmitida e se esvanecendo ao mesmo tempo. É que, no âmbito deste núcleo, não há como definir melhor ou de forma mais precisa o trabalho de seus integrantes. Só mesmo falando em esforço e organização. Ah, e sempre no âmbito do coletivo, da convergência de objetivos, dentro do núcleo e deste em relação à sociedade.


(*) Coordenador do Núcleo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora da Intercom



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Novos diálogos com as fontes


Sonia Virgínia Moreira (*)


Três anos depois da publicação do primeiro volume com 15 textos originais devidamente contextualizados por pesquisadores brasileiros de rádio, os interessados por este campo de estudo da comunicação são presenteados com o segundo volume organizado com a dedicação de sempre do professor Eduardo Meditsch, agora em parceria coma a professora Valci Zuculoto.


Se a anterior revelava a importância do meio para os investigadores, esta edição confirma a maturidade de uma área na qual a produção sistemática tem resultado em trabalhos ao mesmo tempo originais e instigantes. O diálogo com fontes nacionais é um dos aspectos interessantes a destacar aqui. A primeira alusão não poderia deixar de ser aos originais de Gisela Swetlana Ortriwano, referência maior para toda uma geração de pesquisadores que se formaram na Universidade de São Paulo, a quem tive a sorte e o privilégio de conhecer e de desfrutar o conhecimento sobre a mídia eletrônica brasileira, o rádio em especial. Outro resgate importante é o texto de Maria Immacolata Vassalo de Lopes, cuja origem está no livro O rádio dos pobres: estudo sobre a comunicação de massa, ideologia e marginalidade social, publicado no final da década de 1980, que também se transformou em fonte obrigatória de consulta para os estudiosos do meio. Igualmente formidável é a recuperação do texto de Walter Sampaio sobre o jornalismo radiofônico, um dos primeiros autores a publicar entre nós considerações teóricas e práticas sobre o audiovisual, ainda na década de 1970. Finalmente, dentre os autores nacionais, o que dizer do texto professor Edgard Roquette-Pinto, esse pioneiro do rádio que vislumbrou as possibilidades de uma nova forma de comunicação no coração do país, como integrante da Comissão Rondon em 1912, cujo objetivo era instalar linhas de telégrafo entre os estados de Mato Grosso e Amazonas? Foi ali, no contato direto com o ‘Brasil profundo’, que Roquette anteviu uma particularidade técnica que mais tarde reconheceria no rádio: a de fantástico instrumento para a disseminação da educação à distância.


E este segundo volume de Teorias do Rádio vai muito mais além. Recupera trabalhos igualmente preciosos de autores voltados para temáticas distintas como Theodor Adorno, Roland Barthes, Mario Kaplún, Walter Benjamin, Mariano Cebrían Herreros, Erving Goffman, Julian Hale, Kety Rodríguez, Miguel de Moragas Spa, R. Murray Schafer e Tetsuo Kogawa. Frente a tanta riqueza de fontes – e de diálogos – só resta desejar vida longa aos estudos sobre rádio entre nós. Que venham outros volumes!


(*) Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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Coordenador do mestrado em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

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