Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ARMAZéM LITERáRIO > RAIMUNDO MAGALHÃES (1907-1981)

O agente da ditadura

Por Fernando Jorge em 27/08/2013 na edição 761

Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 95, julho de 2013; título original “Raimundo Magalhães, agente de uma ditadura de modelo fascista”, intertítulo do OI

Na seção Mistifório, d’O TREM de junho deste ano, meu colega Marcos Caldeira Mendonça informou que a historiadora Mariza Guerra de Andrade lançou, pela editora Autêntica, o livro Anel Encarnado, Biografia e História em Raimundo Magalhães Junior. Todos os ensaios devem ser bem-vindos, se estão documentados com firmes, inabaláveis alicerces fincados no solo da verdade. A colega Mariza, brilhante colaboradora deste mensário, possui credenciais para realizar o seu trabalho sobre biografias e história, mas vou descrever aqui episódios desconhecidos da vida do Magalhães. Lamentáveis.

Em 1963, o meu livro Vida e Poesia de Olavo Bilac permanecia na lista dos mais vendidos, como se viu por uma pesquisa do jornal O Globo, divulgada na edição de 18 de outubro desse matutino, no citado ano. Devido a tal fato e a algumas revelações do livro que geraram escândalo, polêmicas, o jornalista Justino Martins, diretor da revista Manchete, quis publicar uma reportagem sobre a obra, pois pela primeira vez no Brasil uma biografia se tornara best-seller. Convidado, fui à redação da revista e lá, enquanto falava com o secretário Arnaldo Niskier, ouvi gritos, um berreiro, o barulho forte de uma briga, de uma discussão feroz. Surpreso, indaguei ao Niskier:

– Diga-me, está havendo aqui uma briga?

Arnaldo Niskier, futuro presidente da Academia Brasileira de Letras, confirmou a minha impressão:

– Sim, está havendo uma briga. É o Raimundo Magalhães Junior que discute com o Justino Martins, porque este quer mandar fazer uma reportagem sobre o seu livro e o Magalhães não quer. Ele alega que a documentação da sua obra é suspeita.

Vermelho de cólera, eu reagi:

– Suspeita? Pois então quero que ele prove isso!

Sorridente, o Arnaldo Niskier bateu com a mão direita no cotovelo do seu braço esquerdo e me acalmou:

– Não se irrite, Fernando, o Raimundo está com dor-de-cotovelo, com uma bruta inveja do sucesso do seu livro, porque as biografias dele não são muito vendidas, ficam encalhadas nas livrarias…

A reportagem sobre a minha obra, apesar da oposição do Magalhães, saiu na edição de 23 de novembro de 1963 da Manchete, a revista mais importante do Brasil, naquela época. Ela foi feita pelo jornalista Esdras Passaes, ocupa três páginas e recebeu o seguinte título: “Olavo Bilac passado a limpo”. Eis o início da reportagem:

“Um homem magro [eu, Fernando Jorge], meio místico, ar de profeta oriental, surge no cenáculo literário com um livro-bomba na mão, causando uma das maiores celeumas dos últimos tempos entre os homens de letras”.

Fulo de ódio, devorado pela inveja, o Magalhães publicou no Diário Carioca, em 24 de novembro de 1963, logo depois do aparecimento da reportagem, um extenso artigo contra o meu livro. O texto exibia este título: “Um biógrafo de Olavo Bilac”. E no fim da lengalenga, o autor defecou esta cretinice:

“… podendo incidir num anátema de Fernando Jorge, direi francamente: ainda prefiro um bom chute do Pelé”.

Entrevistado por Flávio Cavalcanti, no seu programa de televisão, ele quis saber de mim:

– O que você achou da frase do Raimundo Magalhães Junior sobre o seu livro, ao afirmar que prefere, em vez de sua obra, um bom chute do Pelé?

Respondi, de forma natural:

– Eu também prefiro um bom chute do Pelé, mas com uma condição: desde que a bola seja a cabeça horrorosa do Raimundo Magalhães Junior…

Indo depois à casa do meu amigo Vianna Moog, membro da Academia Brasileira de Letras (casa 23 da rua Marquês de Pinedo, no bairro carioca de Laranjeiras), o ensaísta de Heróis da Decadência me esclareceu:

– Fernando, o Magalhães tem atacado o seu livro porque você cortou a asa dele. Antes do lançamento do seu livro, ele vivia dizendo lá na academia que ia publicar a biografia definitiva do Olavo Bilac, mas aí apareceu a sua e o Raimundinho se sentiu frustrado.

Lembro-me de apenas ter respondido isto ao escritor gaúcho:

– Que inveja a desse sujeito, hem? Na minha opinião, ele não devia se chamar Magalhães e sim Cagalhães, já que bosteja até pela boca.

Ainda ouço, transcorridos tantos anos, a gargalhada retumbante do inesquecível Vianna Moog…

Para fora

Agora mostrarei como Magalhães Junior, evocado por Mariza Guerra de Andrade, era agente de uma ditadura de modelo fascista. Desculpe-me, Mariza, se vou desiludi-la.

O meu amigo Carlos Heitor Cony me contou, em 1975, no decorrer de um almoço na sede da Manchete, que quando o Magalhães trabalhava com ele nessa revista, uma noite o cearense nascido em Ubajara se excedeu na bebida e meio alto, porém lúcido, resolveu confessar:

– Sabe de uma coisa, Cony? A maior ambição da minha vida era ser diplomata, eu queria ser cônsul ou embaixador, entrar para o Itamaraty. Fui então procurar, em 1927, o Otávio Mangabeira, ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Washington Luís. Expus a ele o meu desejo e o Mangabeira, friamente, afirmou que eu nunca poderia ser diplomata, porque sou vesgo, muito feio, e a minha estatura é bem baixa, quase a de um anão!

Perguntei ao Carlos Heitor Cony:

– E depois, ele se abriu ainda mais?

– Abriu-se. Soltou estas palavras: mas me vinguei, Cony, me vinguei do Otávio Mangabeira, porque quando ele, como inimigo do Getulio, estava exilado em Nova York, eu me dirigi à sede do Reader’s Digest, onde o Otávio fazia traduções do inglês para o português, e declarei aos diretores dessa revista, na minha função de agente do Estado Novo, que se eles continuassem a lhe dar trabalho, o ditador Getulio Vargas, meu chefe, não iria permitir a circulação do Reader’s Digest no Brasil. E por causa disso o Mangabeira foi demitido de modo sumário.

Não pude deixar de comentar:

– Que baixeza, que ato torpe!           

Contei ao Cony, em seguida, que fui confidente do jornalista Paulo Duarte. Este me disse que também estando exilado em Nova York, como inimigo da ditadura do Getulio, onde produzia na grande cidade uma crônica diária para a National Broadcasting, o Raimundo foi até a sede dessa emissora e pediu, em nome do ditador do Brasil e da Política da Boa Vizinhança, o imediato afastamento do “perigoso” Duarte. Consequência: o jornalista perdeu o emprego na hora.

Depois o Magalhães se apressou a ir até o Museu de Arte Moderna de Nova York, situado na West 53rd Street, no qual o Paulo Duarte, para sobreviver, incumbido pelo museu, executava inocentes trabalhos de pesquisa. O dedo-duro compareceu diante do senhor Philips Goodwin, diretor do estabelecimento, e começou a explicar:

– Vim à sua presença a fim de informá-lo, com autorização do governo do meu país, que o presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, e o ditador Getulio Vargas, do Brasil, ligados por uma aliança política, militar e econômica, não querem que o subversivo Paulo Duarte trabalhe no seu museu.

Imperturbável, o senhor Philips Goodwin levantou-se da sua cadeira e todo rígido, empinado, pronunciou estas duas frases:

– Fique o senhor sabendo que o presidente Roosevelt e o ditador Getulio Vargas não mandam nada aqui, no Museu de Arte Moderna de Nova York. E por favor, queria retirar-se.

Foi assim, conforme me narrou o próprio Paulo Duarte, que o senhor Philips Goodwin “botou para fora o Raimundo Magalhães Junior, sujeito sem predicados”, agente de uma ditadura de modelo fascista num país da América do Sul…

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Fernando Jorge é jornalista e escritor

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