Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

O dicionário Bonner

Por Antonio Brasil em 15/09/2009 na edição 555

– Puta que pariu!

– William! – exclamou um Ali Kamel absolutamente desconcertado com minha interjeição. E eu, virando-me para a esposa do presidente eleito:

– No bom sentido, dona Marisa! Desculpe, por favor! Mas é que a primeira pergunta que eu faria era exatamente sobre qual dessas duas emoções havia sido maior. (William Bonner, Jornal Nacional – Modo de Fazer, Editora Globo, 2009)

Todo jornalista sabe que retirar frases ou citações de seus contextos originais é prática profissional comum, eficiente, porém, muito perigosa.

Ao editar fragmentos dos discursos de pessoas escolhidas como alvo de nosso interesse também podemos construir ou destruir suas imagens. Nem sempre essa ‘construção’ agrada, principalmente aos famosos e poderosos. Nessas ocasiões, somos acusados de manipular palavras, ocultar objetivos pessoais, interesses econômicos e até mesmo ideais políticos. Mas todo o jornalista também sabe que essas pequenas citações ou mostras do pensamento de pessoas importantes são recursos poderosos para revelarmos ao público como essas pessoas pensam… de verdade.

Na mão de jornalistas ambiciosos, experientes e competentes, nossas próprias palavras podem ser analisadas e interpretadas de formas diversas. Dependendo de como são editadas, podemos ser vítimas de nossas próprias palavras.

É impossível deixar de comparar Jornal Nacional – Modo de Fazer, de William Bonner, com a última obra do seu chefe Ali Kamel, diretor da Central Globo de Jornalismo, o Dicionário Lula – Um presidente exposto por suas próprias palavras. De formas diversas, os livros ‘expõem’ como pessoas tão cativantes, simples e simpáticas, como pensam, agem e alcançam seus objetivos.

Para ‘construir’ uma determinada imagem do presidente Lula, segundo a divulgação da editora, Ali Kamel utilizou ‘método inédito de análise que traça o perfil do presidente e revela as suas principais idéias em 347 verbetes’. Ele avaliou os discursos de improviso e entrevistas de Lula transcritos no site da Presidência da República. ‘Lula merece ter o seu pensamento esquadrinhado, medido, avaliado’, diz Kamel. O resultado seria ‘um Lula que vai surpreender tanto aqueles que o apóiam como aqueles que lhe fazem oposição’, complementa a divulgação do livro.

Propósito político

Neste artigo, procuro traçar breve perfil e destacar algumas idéias do editor-chefe do JN, William Bonner, por meio da seleção de alguns verbetes relevantes. Se o método serve para expor o presidente Lula, por suas próprias palavras, talvez também sirva para entender os mistérios do Jornal Nacional.

‘Mas o que é que Homer Simpson teria a ver com isso, afinal?’, pergunta Bonner no intrigante capítulo ‘Ser entendido por todos os espectadores’. Para minha surpresa e espanto, essa questão teve grande destaque no livro sobre os 40 anos do JN.

Talvez preocupado com a História, com o futuro, o editor-chefe do mais antigo telejornal da TV brasileira divulga sua versão sobre o famigerado ‘evento Homer’. A comparação do telespectador médio do JN com o antiherói dos desenhos americanos causou enorme polêmica no meio jornalístico e acadêmico.

Pelo jeito a repercussão causada pela comparação impensada e ingênua ainda incomoda. Esse talvez seja um dos problemas de pessoas simples e espontâneas como Lula e Bonner.

Mais uma vez – uma só não parece ter sido suficiente – Bonner recorre a um personagem de televisão, dessa vez é a Jeannie do seriado de TV norte-americano, Jeannie é um gênio para tentar explicar o inexplicável.

Com a palavra, William Bonner:

‘Ironicamente, esse cuidado com a utilidade social do nosso trabalho, no JN, foi usado politicamente num ataque de que fui alvo. Partiu de Laurindo Leal, um dos professores da Universidade de São Paulo convidado a acompanhar uma reunião de caixa do JN…’

‘Os exemplos de Homer e o do personagem Lineu, de A Grande Família, de Oduvaldo Vianna Filho, foram usados por mim inúmeras vezes, diante de centenas de estudantes e de professores de jornalismo, sempre para ilustrar…: um chefe de família trabalhador, protetor, classe média, nível intermediário de instrução, cansado, ao fim do dia.

‘Mas nosso convidado preferiu retratar Homer Simpson como um `comedor de rosquinhas´, `bebedor de cerveja´, `obtuso´.

‘O que o professor fez com Homer Simpson foi eliminar, do personagem, qualquer característica positiva, toda e qualquer virtude.

‘A rigor, isso pode ser feito com qualquer personagem. Jeannie (de Jannie é um Gênio, série clássica de minha infância) poderia ser qualificada como `uma mulher linda e sensual, dotada de poderes mágicos, cuja única meta é agradar ao seu amo´…

‘Para quem conhece esta série maravilhosa da TV, a desqualificação de Jeannie não faz sentido.

‘A desclassificação do personagem Homer Simpson foi uma ação com propósito evidentemente político.’

Origens humildes

‘Propósito político’ de professor universitário em visita à TV Globo? Pelo jeito, também corro o risco de ser acusado de ter ‘propósito político’ ao escrever este texto. Afinal, citar trechos do discurso de pessoas que falam o que pensam é realmente muito perigoso. Assim como deve ser perigoso buscar intenções políticas ocultas para desacreditar discordâncias e contrariedades.

Em uma longa história de erros e acertos, os profissionais da Globo conhecem muito bem o poder da edição de palavras e imagens ‘com propósitos evidentemente políticos’ para construir ou destruir a imagem de políticos ou pessoas consideradas ‘inimigas’ dos interesses da empresa. Mas isso é uma outra história.

Lula, Bonner e Homer (o personagem) têm realmente muitas coisas em comum. As características pessoais e as trajetórias profissionais do jornalista do interior de São Paulo e do líder sindicalista – pelo menos – coincidem. Eles costumam ser descritos como pessoas simpáticas e competentes.

Não conheço pessoalmente o Homer Simpson. Pena! Mas tive o privilégio de conhecer pessoalmente o presidente Lula e William Bonner. No início dos anos 1980, ao produzir um documentário para a TV britânica, passei alguns dias na companhia do líder sindical que se tornaria presidente do Brasil. Foi uma viagem muito proveitosa e instrutiva. Já naquela época, fiquei impressionado com a capacidade de Lula adaptar seu discurso, sua linguagem, para se comunicar com públicos diversos.

Entre os jornalistas, principalmente com os correspondentes internacionais, se esmerava na escolha de palavras mais complexas e difíceis. No alto dos palanques, na conturbada região do ABC que ainda enfrentava os últimos dias da ditadura militar, Lula discursava para os operários com a linguagem inflamada dos trabalhadores. O resto é História.

Também estive com William Bonner quando ele ainda iniciava sua carreira de sucesso no Rio de Janeiro. Ele participou do curso da Alice Maria para jornalistas de TV. Recém chegado de São Paulo, Bonner representava um novo tipo de apresentador de telejornais: muito jovem, inteligente, boa pinta e bom de papo.

Para quem não sabe, Bonner é um grande contador de causos e histórias. Ficou ainda mais famoso com a divulgação do vídeo em que entrevista Cid Moreira na bancada do JN e imita o falecido costureiro e deputado Clodovil. Hilário. Outro momento marcante rumo ao sucesso é o choro de William Bonner ao vivo e em cores, na bancada do JN, ao anunciar a morte do ‘nosso pai’ Roberto Marinho. Imperdível.

Problemas

Como correspondente da WTN, estive com o presidente Lula em diversas ocasiões oficiais. Ele mudou muito, mas continua muito bom de discurso. Há algumas semanas, em visita organizada para professores de jornalismo pela TV Globo e pela Intercom, Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação, pude novamente encontrar o apresentador e editor-chefe do JN. Naquela ocasião, ele descreveu com muito humor, irreverência e alguma indignação alguns dos trechos que viriam a ser publicados no novo livro, Jornal Nacional – Modo de Fazer.

Tanto Lula como Bonner tiveram origens diversas e distantes. Mas em muitos aspectos foram origens humildes, ou pelo menos simples, e ambos enfrentaram dificuldades para alcançar seus objetivos. Mas o ponto em comum mais importante entre as duas personalidades é a maneira atípica e às vezes polêmica de se expressarem. Lula e Bonner ‘falam o que pensam’. Não parecem se importar com as interpretações e as conseqüências de suas metáforas ou comparações esdrúxulas. Tanto Lula como Bonner não se intimidam com as críticas dos jornalistas e dos intelectuais.

Em um país que valoriza tanto as ‘meias palavras’ e os ‘duplos sentidos’, essa característica comum – falar o que pensa – pode causar sérios problemas. Pois então vejamos alguns exemplos de verbetes selecionados do ‘Dicionário William Bonner’:

** Furo, obviedade e idiossincrasias

‘Como eu já disse, todo mundo conhece, todo mundo sabe o que é o Jornal Nacional. Mas eu preciso começar o livro de algum jeito – e é recomendável que seja do começo… Prometo ser sucinto.

‘Você sabe: o Jornal Nacional é visto por muitos milhões de pessoas – e as pessoas são muito diferentes entre si.

‘O Jornal Nacional é um programa jornalístico de televisão.

‘O furo é o alimento da alma dos jornalistas.

‘Perdoe-me a obviedade, mas é preciso lembrar: jornais impressos são escritos para que as pessoas os leiam. Telejornais são vistos e ouvidos.

‘Portanto, o JN não é o lugar para teimosias de quem quer que seja. Porque o Jornal Nacional é grande demais para se subordinar a idiossincrasias.’

** Medo e memória

‘Não, este não é um livro precocemente autobiográfico. Cito essas duas passagens só para mostrar que o Jornal Nacional está em minha memória emocional, como na de milhões de brasileiros, porque são 40 anos…’

‘…me lembro da estréia do Jornal Nacional…. Éramos cinco à mesa, refeição noturna, meus pais conversavam sobre ‘o jornal ‘que iria começar’. Que ‘o jornal’ seria diferente, porque seria exibido no Brasil todo ao mesmo tempo. Fiquei intrigado. Mas tive vergonha de perguntar por que alguém gostaria de ler um jornal que fosse ‘filmado’ e mostrado na televisão, com suas letrinhas minúsculas, sua páginas carrancudas e tristes…

‘Da casa atrás da fábrica, nós nos mudamos para um apartamento de aluguel em Higienópolis. E não me bastassem todos os problemas de adaptação dessa mudança de endereço, de escola, de amigos, o JN ainda foi veículo de um pavor que passou a me acompanhar em 1972: o de incêndios como o do edifício Andraus, em São Paulo.

‘Lembro que, na hora de dormir, eu calculava se seria possível saltar da janela da sala, no primeiro andar do número 43 da Rua Maranhão para a árvore fincada no jardim do prédio.’

** Física, filosofia e ‘reportariado’

‘A filosofia que norteia a estruturação da Rede Globo explica em grande parte a capilaridade abrangente do nosso jornalismo – e do Jornal Nacional.

‘A física chama de matéria aquilo que ocupa espaço, que tem massa. Numa perspectiva mais, digamos filosófica, o mundo da matéria pode ser o oposto do mundo das idéias. O concreto versus o abstrato. Mas jornalistas dão o nome de ‘matéria’ a reportagens.

‘Ao tratar de ‘reportariado’, procurei economizar tinta de impressão ao me referir genericamente a repórteres e correspondentes quando estiver falando tanto daquele profissional que aparece na sua TV relatando acontecimentos in loco quanto do colega dele que lhe apontou a câmera e que captou as imagens (o repórter cinematográfico).’

** Livre-arbítrio

‘Para o bem-estar de todos e a felicidade geral dos povos, o ato de assistir à televisão é decisão do indivíduo – postar-se diante de um aparelho receptor ligado, para a imensa maioria das pessoas, é apenas isso: um corpo humano diante de um aparelho eletrônico.

Temos, assim, um ser humano diante de um equipamento eletrônico. E a beleza filosófica do livre-arbítrio.’

** Sucesso, biscoitos e camaleão

‘O JN faz sucesso porque está há 40 anos no ar? Ou completa 40 anos porque faz sucesso?

‘O sucesso e a longevidade do Jornal Nacional me lembram um comercial de biscoito da década de 1980. O locutor propunha que se descobrisse o segredo do produto: o biscoito estava sempre fresquinho porque era mais vendido do que os concorrentes? Ou era mais vendido do que os concorrentes porque estava sempre fresquinho? O que era causa? O que era conseqüência?

‘O JN só é ‘quarentão’ porque tem um quê de camaleão.

‘Mas esse quarentão só tem a longevidade que tem porque procurar sempre não frustrar a expectativa do público. Num dia comum, ele será produzido, editado e apresentado desse jeito. E, em dias incomuns, ganhara outros formatos para cumprir seu compromisso de mostrar o que de mais importante se deu.’

** Moisés, cajado e Bozó

‘Daquele jeito, então, num italianês macarrônico e espaguetoso pedi autorização a um guarda para que me permitisse passar por cima da barreira e caminhar em direção ao Colégio.

‘E as freirinhas da frente iam, agora alegres, pedindo licença aos peregrinos. E os peregrinos iam se espremendo para abrir passagem. E eu ia trilhando o rastro que elas deixavam. Por alguns instantes, a via Paolo VI foi o mar vermelho de gente. Eu era Moisés. As freirinhas, meu cajado.

‘Naquele momento, minutos depois de ser Moisés, eu era o Bozó (aquele personagem dentuço do Chico Anysio que tentava se dar bem em qualquer lugar com a arrogância dos desimportantes e o bordão ‘eu trabalho na Globo’.)

** Cheirosinhos, esquizofrenia e sudorese

‘…esse editor que chegou às duas da tarde tem uma vantagem definitiva sobre o que desembarcou na redação às dez. Ele está muito mais cheiroso. E, no Jornal Nacional, o time dos ‘cheirosinhos’ costuma ‘atualizar’ o autor do espelho, na reunião em que são todos apresentados ao JN daquele dia.

‘A ‘esquizofrenia’ da reunião de pauta reside no fato de que ninguém depende mais da aprovação de pautas do que o próprio editor-chefe. E ninguém recusa mais pautas do que ele.

‘…Porque pautas boas, de verdade, são as que afetam a vida das pessoas. E somos todos pessoas ali naquela sala, ora bolas.

‘Na televisão, quem não quiser saber a opinião do telejornal ou de seu editor-chefe não terá mais que três opções: ou desligar a TV, ou trocar de canal ou emudecer o aparelho até que o comentário termine. Pessoalmente, como profissional de telejornalismo há quase 25 anos, devo confessar que essas três situações me provocam alteração no ritmo cardíaco, dor no baço e uma sudorese constrangedora.

** Futuro

‘Em seus 40 anos de história, o Jornal Nacional deve ter errado muitas vezes. Mas pouquíssimas, se o número for comparado ao total de edições, e, mesmo, ao número de furos certeiros que levou ao conhecimento dos brasileiros. Como qualquer produto jornalístico que se preze, o JN almeja simplesmente não errar.’

Cem anos

Ainda em seu livro, William Bonner pergunta: ‘Daqui a 50 anos, o que é que um pesquisador buscará na edição do JN que estamos exibindo hoje?’

Daqui a 50 anos eu não sei. Mas hoje posso dizer que ainda buscamos um telejornal mais independente, menos arrogante e com maior participação do público. Um jornal com mais transparência em suas decisões editoriais e principalmente com acesso mais livre e democrático aos seus arquivos, com acesso mais livre à sua própria história. Ainda hoje, fazer pesquisas independentes sobre o passado, o presente e principalmente sobre o futuro dos nossos telejornais é tarefa difícil, inglória, quase impossível.

Seria muito importante fazer pesquisa nos arquivos do Jornal Nacional utilizando o ‘método inédito’ de análise aplicado pelo jornalista Ali Kamel nos arquivos do presidente Lula. Quem sabe, antes do JN completar 60 ou 100 anos. Seria uma pesquisa muito útil para compreendermos a verdadeira história recente do Brasil.

William Bonner repete inúmeras vezes em diversas páginas do livro que ‘o Jornal Nacional tem por objetivo mostrar aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia, com isenção, pluralidade, clareza e correção’. Ele se repete tantas vezes porque assim como tantos outros jornalistas que o precederam no JN, Bonner precisa se convencer e nos convencer desse sonho, dessa utopia jornalística.

Precisamos acreditar que não somos culpados ou beneficiários de erros cometidos no passado. Precisamos crer que somos responsáveis apenas pelo sucesso de hoje e que não temos nenhuma responsabilidade pelos erros do passado.

Seria melhor dizer e repetir que ‘o JN mostrou e ainda mostra somente aquilo que seus editores, diretores e proprietários da empresa consideram mais importante que aconteceu no Brasil e no mundo’. E que isso é feito para que o público tenha a impressão de saber tudo o que aconteceu no Brasil e no mundo.

Esta é uma constatação mais apropriada, realista e honesta. Mas talvez tudo isso só aconteça quando ou se o JN completar 100 anos. Quem sabe? Até lá, a verdadeira história do Jornal Nacional – aquela que todos nós devemos e precisamos conhecer – ainda está para ser contada. Por enquanto, divirtam-se com a leitura de Jornal Nacional – Modo de Fazer, o ‘Dicionário William Bonner’. O livro tem a cara do JN. É bem escrito, tem boas imagens, mas não diz nada novo.

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Jornalista, doutor em Ciência da Informação, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

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