Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

O jornalismo, a crônica e a literatura em diálogo

Por Cecília Almeida Salles em 27/11/2007 na edição 461

Esta publicação apresenta uma pesquisa bastante original de Sandra Moura no campo do jornalismo. É feito o acompanhamento do processo de produção do livro-reportagem Rota 66: a história da polícia que mata, de Caco Barcellos. O leitor vai encontrar a densidade das diversas camadas de pesquisas que sustentam a construção dessa grave e imprescindível denúncia.

Num primeiro momento, fiel a uma hipótese, o jornalista desenvolveu uma longa investigação em busca de informações. Os assustadores dados obtidos foram tantos que exigiram o encontro de modos de organização, de onde saíram os primeiros resultados. É interessante observar que nessa fase da reportagem investigativa de qualidade, os métodos de pesquisa científica e do jornalismo se cruzam. Tudo isso acontece em um clima de dúvidas sobre os possíveis resultados e, naturalmente, de coragem ao enfrentá-los. Já durante a construção do relato, que se tornou livro, assistimos a um longo processo que envolveu escolhas de determinados recursos narrativos; esse atento e criterioso manuseio da palavra coloca, de algum modo, o jornalismo, a crônica e a literatura em diálogo.

Um texto ágil e instigante

Sandra Moura, por sua vez, fez o caminho inverso desenvolvendo seu método de pesquisa: como leitora do livro Rota 66, foi profundamente marcada pelo efeito do relato e como a investigação havia sido desenvolvida. Ao conseguir ter acesso à vasta documentação, gentilmente cedida por Caco Barcellos, mergulhou nesses registros: ‘Fichas, caderno de anotações, fotografias, recortes de jornais e revistas, cópias de processos judiciais, laudos de exame de cadáver, inúmeros papéis soltos com transcrição de entrevistas, pedaços de folhas com anotações de depoimentos, desenhos, livros, monografias, registros de consultas de antecedentes criminais’. A pesquisadora passou muitos meses procurando por algumas chaves para a compreensão dos procedimentos investigativos do jornalista. Tirava da tenaz observação desses documentos suas próprias anotações, que lhe ofereciam pistas sobre o modo como esse pensamento jornalístico se construiu.

Agora, os leitores de Caco Barcellos: o repórter e o método vão ter o privilégio de conhecer os interessantes resultados de seu estudo. Vale lembrar que esta publicação traz ainda uma interessante reportagem sobre o jornalista estudado, que nos auxilia a contextualizar o surgimento de Rota 66. Tudo é apresentado em um texto ágil e instigante.

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Professora titular do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

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