Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

Observar pessoas e textos

Por Ligia Martins de Almeida em 12/09/2011 na edição 659
Sirva o coração em bandeja de cristal líquido, de Lais de Castro, 160 pp., Editora Iluminuras, São Paulo, 2011; R$ 38

Tem jornalista que sonha virar escritor. E tem escritor que se esconde, por anos e anos, atrás de pautas, reportagens e textos sem revelar seu verdadeiro talento. Lais de Castro, autora de Entregue seu Coração Numa Bandeja de Cristal Líquido, está, seguramente, no segundo time. Seu livro de contos – o segundo – não é uma surpresa para quem conviveu de forma mais próxima com ela e já conhecia sua sensibilidade e criatividade. Mas é uma surpresa para quem apenas acompanhou, a alguma distância, as redações onde fazia seu trabalho com correção e brilho mas sem revelar o que realmente sabia fazer: criar personagens, escrever histórias e envolver o leitor com um texto rápido, quase contido, mas sempre ritmado.

Lais começou a carreira na revista Realidade, onde desenvolveu – respondendo cartas de leitores e lendo texto dos seus brilhantes colegas – a arte de conhecer pessoas e o talento de escrever. Em seus anos de revistas femininas, teve tempo para amadurecer essas duas habilidades: observação de pessoas e texto. É essa combinação que dá sabor a seus contos.

A essência em um parágrafo

É uma alegria descobrir que aquela colega de redação de tantos anos, divertida, mordaz e direta, era, na verdade, uma escritora de talento, com precisão de texto e conteúdo em que vai, com a mesma naturalidade, do papel de narradora-observadora para a primeira pessoa. Como escreveu Marta Goes, na orelha do livro:

“Pouco a pouco, pelo acúmulo de camadas tão finas quanto as dos bons mil-folhas, ouve-se a voz da autora. Com as rédeas da história bem seguras, ela brinca com as palavras e suas sonoridades, flerta com a música, trafega pelo arrebatamento sem escorregar para a grande eloquência e chega em alguns momentos à fronteira da poesia. Como diz o pedreiro de ‘Prumo, azulejo e conduíte’, ‘no mundo tem as pessoas que fabricam, as pessoas que escrevem e as que plantam e criam’. Não sabemos o que Lais de Castro fabrica, nem o que anda plantando, mas já está claro que ela pertence à categoria pequena e nobre dos bons escritores.”

Bons escritores são capazes de resumir num parágrafo – técnica conquistada com o exercício do velho e bom lead – a essência da história: “Eles me escolheram, se é que criança pobre e órfã tem escolha, tem nada, só tem pé com bolha, tampa de dedão arrancada em tropico, tênis grande e cobertor pequeno, além de surto de coqueluche.”

***

[Ligia Martins de Almeida é jornalista]

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