Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

Oito repórteres, oito personagens

28/11/2006 na edição 409

[do release da editora]

Oito repórteres diante de oito grandes personagens: uma prova de que o livro é o espaço nobre para a grande reportagem hoje no Brasil

Quem disse que já não há espaço – nem leitores – para relatos de fôlego sobre grandes personagens?

‘Há anos fala-se que ‘a grande reportagem morreu’. Chega dessa ladainha maldita! Em vez de participar do velório, repórteres que nunca deixaram de acreditar que a reportagem é a matéria-prima do jornalismo arregaçaram as mangas para fazer, no Livro das grandes reportagens, aquilo que o jornalista deveria ser obrigado, por lei, a fazer: escrever da melhor maneira possível tudo o que viu e ouviu de interessante e relevante’, diz o repórter Geneton Moraes Neto, editor do Livro das grandes reportagens e autor de um dos capítulos do livro.

Desafiar repórteres experientes a escrever suas memórias sobre personagens inesquecíveis, que encontraram ao longo da carreira jornalística, a partir de reportagens levadas ao ar no Fantástico, programa exibido pela Rede Globo.

Essa é a concepção do primeiro volume de O livro das grandes reportagens, que traz textos inéditos, escritos em primeira pessoa, sobre bastidores de encontros de jornalistas com tipos memoráveis, em cenas que não caberiam na TV.

O novo título da coleção Fantástico é uma prova de que o livro se transformou, no Brasil, em espaço nobre para a grande reportagem.

Revelações históricas

No texto de William Waack, o leitor é transportado para o ano de 1979, o local é o Irã, palco da revolução conduzida pelo aiatolá Khomeini. O relato contribui para o entendimento do que acontece hoje naquele país, que continua ocupando local de destaque nos noticiários internacionais. Waack explica o cenário pré-revolução, as origens e formação religiosa de Khomeini. Na análise do jornalista, a revolução conduzida por Khomeini é o ponto de partida de uma revolta que, em determinada vertente, acabou se transformando nos atentados de 11 de setembro.

André Luiz Azevedo enfoca outra figura política: o general-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo e sua relação ‘tempestuosa’ com a imprensa. Numa tarde, em 1999, Figueiredo dá a sua versão para fatos e frases que viraram folclóricos e fala sobre como via a guerra particular que travou contra os repórteres.

A sabedoria popular do anônimo personificada em Zé Bilico, um produtor rural de Itapecerica, Minas Gerais, é o tipo inesquecível de José Hamilton Ribeiro. ‘Eu encanei no Zé Bilico porque ele é uma das poucas pessoas – talvez a única, talvez a última – a manter numa fazenda o costume de capar o galo!’

Luiz Carlos Azenha narra encontro com o astronauta Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na lua. ‘Neil pode ter sido o primeiro homem a pisar na Lua, mas eu fui o primeiro a fazer xixi’. O texto remonta aos tempos da guerra fria, da disputa entre EUA e a então URSS pela corrida espacial. Azenha aborda desde quando Buzz era piloto da base aérea na Alemanha Ocidental até a aposentadoria precoce aos 41 anos, devido à depressão e ao alcoolismo. Na conversa, há espaço para o futuro da exploração espacial e para o desejo do astronauta de conhecer Fernando de Noronha.

Em tempos de análises filosóficas para a cabeçada do craque francês Zidane na final da Copa do Mundo da Alemanha, os leitores são agraciados com curiosidades e confissões de Pelé em um depoimento a Geneton Moraes Neto, também organizador da publicação. O Rei do Futebol descreve pressões sofridas para disputar a Copa do Mundo de 1974, qual o melhor parceiro em campo, o gol mais bonito. E ainda confessa uma pequena frustração: não conseguir ganhar de Rivelino no tênis.

Edney Silvestre faz um relato emocionante das últimas palavras ditas para a TV pelo poeta Allen Ginsberg, grande rebelde romântico do século 20. O escritor morreu de um câncer no fígado, em 5 de abril de 1997, logo depois da entrevista. Ginsberg revela, entre outras coisas, como construiu o poema ‘Kaddish’, considerado um dos seus melhores e como foi apresentado a Paul McCartney por Bob Dylan, em 1965.

As memórias de Joel Silveira remontam ao ano de 1944. A entrevista que fez com Monteiro Lobato provocou o fechamento da revista Diretrizes. Era a época da ditadura do Estado Novo, que pusera o criador do Sítio do Picapau Amarelo na prisão. Monteiro Lobato revela que arquivava e catalogava todas as cartas que recebia das crianças.

Num momento de disputa eleitoral, o retrato de Leonel Brizola escrito por Fernando Molica, encarregado de seguir os passos do candidato do PDT durante a campanha presidencial de 1994, conduz o leitor aos meandros da política brasileira. O repórter fez uma viagem ao universo brizolista, o que lhe valeu não só revelações históricas sobre Jango, cunhado de Brizola, mas algumas inusitadas relacionadas com a esposa Neusa.

Destaques

‘O presidente me recebeu na sala de visitas. Ficamos os dois no sofá: Figueiredo já sofria com problemas de visão e dificuldade para caminhar. O que ouvi às vezes era de estarrecer.’ (André Luiz Azevedo sobre o general João Figueiredo)

‘Pelé estava nu quando finalmente consegui vê-lo. Jornalistas entediados espalharam a versão de que Pelé derrapa quando fala. É mentira.’ ( Geneton Moraes Neto sobre Pelé)

‘Brizola sorriu, balançou a cabeça para os lados, disse que ia pensar, mas deixou escapar uma negativa, cheia de pausas: ‘Ah, esse negócio de livro de memórias… Ainda não é a hora’. Um enfarte, apenas 21 dias depois, decretaria a aposentadoria compulsória de Brizola.’ ( Fernando Molica sobre Leonel Brizola)

‘Era hora de vencer um antigo desafio: fazer uma entrevista aprofundada e reveladora da intimidade de um personagem histórico.’ (Luiz Carlos Azenha sobre o astronauta Edwin Aldrin)

‘Vi Khomeini pessoalmente: ele estava sentado de pernas cruzadas no canto de um salão absolutamente repleto de seguidores fanáticos, que o veneravam como a uma divindade.’ (William Waack sobre o aiatolá Khomeini)

‘Bem que eu poderia fazer de Jânio Quadros o meu tipo inesquecível. Poderia. Mas vou ficar mesmo com Zé Bilico, um singelo produtor rural de Itapecerica, Minas Gerais.’ (José Hamilton Ribeiro sobre o fazendeiro José Bilico)

‘Fui ouvinte das últimas palavras ditas para a televisão por um outro tipo de mestre – um grande poeta. O homem que começou uma revolução que sacode o mundo até hoje.’ (Edney Silvestre sobre o poeta Allen Ginsberg)

‘A solução, portanto, era bater na casa do escritor sem aviso prévio – o que fiz. O próprio Lobato, no fim de uma tarde friorenta mas translúcida, me recebeu na porta de casa: baixinho, calças cinza e paletó de pijama (com alamares).’ ( Joel Silveira sobre o escritor Monteiro Lobato)

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