Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ARMAZéM LITERáRIO >

Olho torto e outros olhos

Por Deonisio da Silva em 28/10/2008 na edição 509

O novo romance de Plínio Cabral, Recordações de um olho torto (Novo Século, 223 páginas), é mais uma prova de como Pedro Paulo de Sena Madureira tem olho clínico de editor atento à literatura brasileira para enriquecer os catálogos das editoras por onde passa. Fez isso em todas as casas onde pontificou como editor, de que são exemplos os autores que reuniu na Nova Fronteira, na Salamandra, na Guanabara, no grupo Siciliano (Siciliano, Mandarim, Caramelo, Futura, Berkeley), na Girafa e agora na Novo Século.

Esse editor tem de nossas letras o conceito que Antonio Cândido resumiu com a habitual proficiência e capacidade de síntese: a literatura brasileira não é a maior nem a melhor do mundo, mas é a única que nos expressa no que temos de brasileiros. Este conceito, na verdade, desdobra o que Machado de Assis denominou ‘instinto de nacionalidade’, quando a pedido de uma revista de Nova York escreveu o ensaio que depois se tornaria clássico.

Ao lado de Salim Miguel, que igualmente na casa dos 80 anos vem de lançar um romance e um livro de memórias (ver ‘Memórias encantadas‘, neste Observatório), Plínio Cabral é um dos mais importantes escritores em atividade. Os dois arrebataram com livros anteriores alguns dos mais prestigiosos prêmios nacionais, como os da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Passo Fundo de Literatura, o maior do país em dinheiro, concedido pela Universidade de Passo Fundo (RS) e pelo Supermercado Zaffari-Bourbon.

Várias expressões

Ao longo de uma prosa distribuída em 35 capítulos, o leitor vê desenrolar-se a vida de Almerindo, quarto filho de uma família. Sem ser efetivamente cego, tem dificuldades de ver as coisas. O protagonista vê tudo torto a seu redor. A criatividade está em que muito do que é contado é obra de partes autônomas do corpo, como se elas fossem também personagens.

O humor começa já na abertura: ‘Chamava-se Almerindo e era do sexo masculino – vejam só! – coisa que não se distingue facilmente, pois nessa matéria, muitas vezes, quando se descobre a verdade já é tarde.’

Sem que estraguemos o prazer dos leitores, vejamos como, de engano em engano, na vida de Almerindo, ele acaba sendo enterrado em cova errada por desencontros de dois coveiros gêmeos, Zico Zarolho e Zeca Perneta. Seu corpo vai parar num túmulo em que no dia seguinte é posta, consolidando o equívoco, a seguinte inscrição: ‘Aqui jaz Maria Josefa do Amor Conceição. Viveu santa, morreu virgem. Saudade eterna de seus pais’.

O olho e o ato de olhar prestam-se a várias expressões em todos os idiomas e na língua portuguesa temos ‘olho grande’, ‘olho comprido’, ‘olho gordo’, ‘olho maior que a barriga’, ‘olho-de-secar-pimenta’ ou ‘olho-de-secar-pimenteira’, todas designando a inveja e a cobiça, mas as duas últimas com uma curiosidade: a pimenta e a pimenteira têm o condão de proteger a casa, mas há olhos que secam as duas!

Contribuição para a lexicografia

Temos ainda ‘olho de peixe morto’, ‘olho de cabra morta’, ‘olho de gata morta’, ‘olho de vaca laçada’ e ‘olho de mormaço’, designando tristeza nos quatro primeiros casos e ares de sedução no último.

Já ‘custar os olhos da cara’ designa preço exagerado por alguma coisa. ‘Ficar de olho’ é vigiar, precaver-se. ‘De encher os olhos’ tem o significado de fenômeno que nos causa muita admiração. ‘Fechar os olhos’ para alguma coisa é optar por deixar de ver, de vigiar, de prestar atenção. ‘Passar os olhos’ é ver rapidamente.

E ainda temos ‘olho d’água’, designando fonte natural; ‘olho-de-boi’ e ‘olho-de-cabra’, nossos primeiros selos, emitidos em 1843 e em 1845; ‘olho-de-gato’, ausente dos dicionários no sentido de indicar as luminosidades fosforescentes das rodovias; ‘olho-de-sogra’ é um doce delicioso, de ameixa ou tâmara, com calda caramelada, redimindo certas maldades atribuídas às sogras; ‘olho-de-fogo’ e ‘olho-vermelho’ são nomes de peixes, e ‘olho-roxo’ designa um tipo de mandioca de raiz comprida.

Gaúcho de São Pedro do Sul, Plínio Cabral, formado em Jornalismo e em Direito, tem vivido as últimas décadas em São Paulo, destacando-se também como uma de nossas vozes mais claras sobre direito autoral, assunto em que é autor de obras de referência.

Com este romance, além de todas as contribuições literárias, trouxe uma para a lexicografia: doravante os dicionários terão que acrescentar ‘olho torto’ ou ‘olho-torto’ (dependendo de o hífen ser ou não mantido no novo Acordo Ortográfico) às já numerosas expressões em que o olho é tema, mas jamais com o significado que o romancista conferiu ao verbete neste romance, que é um dos pontos altos de sua carreira literária, tão sóbria em títulos de ficção.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

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