Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ARMAZéM LITERáRIO > RYSZARD KAPUSCINSKI

Os cinco sentidos do jornalista

Por Wladir Dupont, da Cidade do México em 03/02/2004 na edição 262

Há cinqüenta anos, quando a imprensa escrita era o principal meio de comunicação no mundo, o jornalista era uma figura importante na comunidade, admirada e cumprimentada com respeito na rua. Hoje, quando é maior o número de profissionais, sobretudo de televisão, esse media worker é uma pessoa anônima e seu trabalho apenas uma parte do processo de construir as notícias, de elaborar a informação.

Nessa correria frenética, perdeu-se o orgulho do trabalho individual, pessoal. Naquele então, quem assinava sua matéria era responsável pelo que escrevia. Agora, essa responsabilidade diminuiu muito, quase sumiu, pois tudo se dilui no chamado trabalho de equipe, principalmente nos veículos audiovisuais, hoje predominantes pois atraem mais a atenção e o interesse do público em geral.

Como podem então os profissionais de jornais e revistas, onde o texto ainda é fundamental, enfrentar e sobreviver a essas mudanças, acompanhadas, de forma perturbadora, pelo avanço da informática e da eletrônica, da crescente banalização e comercialização do material informativo?

Respostas aproximadas a essas questões e reflexões paralelas constam do livro Los cinco sentidos del periodista (estar, ver, oír, compartir, pensar)‘, do famoso repórter polonês Ryszard Kapuscinski, volume inaugural da coleção ‘Nuevo Periodismo’, dirigida pelo escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martinez – numa iniciativa conjunta da editora mexicana Fondo de Cultura Económica e a Fundación para un Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), criada em 1994 pelo escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez. O volume é composto de conferências de Kapuscinski a jornalistas jovens e veteranos, nos últimos dois anos, nas oficinas de jornalismo da FNPI em Buenos Aires, Bogotá e Cidade do México.

Outra ética

Depois deste primeiro volume, de distribuição gratuita e exclusiva entre estudantes e professores de jornalismo, repórteres, editores e líderes de opinião em todo o continente, a coleção prosseguirá ao longo deste ano e, voltada para um público mais amplo, poderá ser encontrada nas livrarias. Segundo Tomás Eloy Martínez, os próximos tomos da coleção serão de autoria de outros ‘grandes mestres do ofício falando sobre seus segredos, recursos técnicos, as histórias por trás de suas matérias’.

Num projeto muito bem cuidado em termos gráficos-visuais, e uma competente tradução ao espanhol das suas conferências, o escritor e jornalista polonês de 71 anos, autor de 21 livros, de longa trajetória na reportagem ao redor do mundo (cobriu 17 revoluções em doze países africanos, Ásia e América Latina), fala, com clareza e objetividade, com tranqüila e nada pomposa sabedoria, sobre o ofício, os modernos meios de comunicação, o chamado Novo Jornalismo e os efeitos da globalização no dia-a-dia da profissão. Graças a sua longa trajetória profissional, Kapuscinski pode descrever as grandes mudanças na profissão no último meio século – como conseqüência, entre outros fatores, da revolução tecnológica. Assim, ele lembra, ‘hoje é mais fácil transmitir uma notícia de forma imediata, de um lugar a outro do mundo, ao contrário de antes, quando, se a notícia chegava, e bem, ao seu destino final – uma redação –, isso em si já era tema para uma boa matéria. Com o avanço da tecnologia, esse tema não mais existe’.

Além dessas enormes facilidades técnicas dos dias de hoje,outra mudança importante no ramo foi a transformaçãoda notícia em negócio, um bom negócio. ‘Normalmente,o jornalismo se fazia por ambição e ideais, mas de repentepercebeu-se que com esse negócio, o da informação,era possível ganhar dinheiro rápido e em grandes quantidades.

Isso mudou totalmente nosso ambiente de trabalho’, diz Kapuscinski. ‘Criou-se assim uma brecha entre os donos e gerentes dos meiosde comunicação, e nós, jornalistas, porque eles perseguemoutros interesses e objetivos. Hoje, quando o repórter chega darua com uma matéria, seu chefe não lhe pergunta se a notíciaé verdadeira, quer é saber se é interessante, sepode vender bem. Esta é a mudança mais profunda no mundoda comunicação: a troca de uma ética por outra…’

O espelho embaçado

Em suas reflexões, o eterno repórter Kapuscinski mistura, de forma inteligente e envolvente, os aspectos negativos e positivos do mundo da comunicação moderna, dando às vezes um certo tom relativista às suas opiniões, como se estivesse na frente de um espelho embaçado: vejo mal as coisas, sim, mas sempre há esperanças de melhora. Como se pode constatar nos excertos de Los cinco sentidos del periodista reproduzidos a seguir:

** ‘As notícias internacionais perdem cada vez mais lugar para a informação local, as fofocas, as matérias de serviço. Ou seja, quando a tecnologia torna possível a construção de uma aldeia global, os meios de comunicação refletem o mundo de forma superficial e fragmentada, enfocados apenas nas visitas de presidentes e os atentados terroristas.’

** ‘Felizmente, na diversidade e no paradoxo que é hoje o nosso planeta e nosso tempo, existe espaço para muito bons jornais, emissoras de rádio e programas de televisão. O jornalista consciente de seu trabalho enfrenta uma competição dramaticamente maior que antes, é verdade, mas acredito – e defendo este ponto de vista com vigor – que um homem ambicioso e esforçado, capaz de tratar aos outros como seus amigos e não como seus inimigos, pode se desenvolver e conhecer o sucesso profissional.’

** ‘O jornalista está hoje sob pressão dos chefes que lhe dizem que se não trouxer matéria de capa ou primeira página, está demitido. Sou contra esse tipo de jornalismo sensacionalista que passa por cima do fato de que um jornalista é um cidadão como qualquer outro, com a diferença – vital – de que deve velar pelo bem comum. Não devemos deixar-nos levar somente pela responsabilidade profissional, mas também pelo sentido de cidadania que nos faz perguntar sempre: o que fazemos é bom para a comunidade, para a nação?’

** ‘O problema hoje é que se trivializou o valor da palavra. Não é que a comunicação moderna escamoteie a palavra, mas sim que a palavra não mais tem o peso de antes… Hoje se pode escrever sobre qualquer coisa e, num contexto de super-abundância e entretenimento como o atual, ninguém se importa com coisa alguma. No meu país, a Polônia, a imprensa escreve que um ministro é mentiroso e não acontece nada; o ministro continua fazendo o que quer, firme em seu posto.’

** ‘Nesta nossa profissão nunca acabamos de estudar… Enquanto o mundo progride e roda, nós estamos dentro dessas mudanças porque a sociedade espera que a ela cheguemos para, em seguida, contar tudo o que passa, para interpretarmos o que significa a novidade. Isso nos impõe a obrigação de estudar, de forma permanente, de tudo. O jornalista é um caçador furtivo em todos os ramos das ciências humanas.’

** ‘O texto jornalístico depende, como nenhum outro, de seu contexto. Funciona em seu pleno valor em determinado lugar e em determinado momento: em outros, perde automaticamente muito de seus valores. Antes de tudo, existe o contexto da revista ou do jornal para os quais foi escrito. Cada veículo tem seus princípios e filosofias; também tem características formais que permitem que seja melhor compreendido à luz de um editorial ou de outros textos que expliquem antecedentes, informações complementares ou interpretações que acabam ficando fora, pois não é possível dizer tudo em um artigo.’

** ‘Para os jornalistas, é importante entender o fenômeno da globalização, pois compreendê-lo nos permitirá enfrentar melhor o que está acontecendo em nossas sociedades contemporâneas. (…) Trata-se de um fenômeno contraditório, que mostra duas caras distintas: é um rio de integração de toda a tecnologia, do mundo financeiro, dos meios de comunicação, mas simultaneamente é outro rio em direção contrária, que leva a desintegração com conflitos étnicos, com ambições regionais, com tendências particulares, numa grande corrente que vive e se desenvolve contra a própria globalização.’

** ‘Não tenho receitas fixas ou técnicas de trabalho preestabelecidas, pois isso não existe no campo da criação, onde se inscreve o jornalismo escrito. Este trabalho, em suas manifestações mais ambiciosas, requer uma atitude individual criativa, das próprias formas de contar e fazer as coisas. Essa é a riqueza do nosso ofício: cada um tem que desenvolver suas próprias maneiras de encontrar os temas e as maneiras de expressá-los.’

** ‘Em nossa profissão, o sucesso se baseia em manter duas frentes de trabalho. Quer dizer, uma vida dupla, vivida em estado de esquizofrenia: ser um redator ou repórter de jornal, que cumpre ordens, e guardar, em algum pequeno lugar do coração e da mente, alguma coisa para si, para a própria identidade, para as ambições pessoais, como é o caso de escrever seus próprios livros.’

******

Jornalista e escritor brasileiro radicado no México

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem