Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > PESQUISAS ELEITORAIS

Os falsários

Por Demétrio Magnoli em 15/10/2010 na edição 611

Carlos Augusto Montenegro, o presidente do Ibope, profetizou há muitos meses uma vitória folgada de José Serra no primeiro turno. A campanha não havia começado e o Ibope não tinha pesquisas relevantes. O Oráculo falou para bajular aquele que, presumia sua sabedoria política, seria o próximo presidente. Mais tarde, durante a campanha, de posse de inúmeras pesquisas, o Oráculo asseverou com a mesma convicção que Dilma Rousseff venceria no primeiro turno. A bajulação aos poderosos de turno obedece a uma lógica inflexível. Na mesma entrevista, ele sugeriu que a oposição atentava contra a democracia ao repercutir os escândalos no governo. Cada um fala o que quer, nos limites da lei, mas o Oráculo de araque não se limita a isso: ele vende um produto falsificado.


Pesquisas de opinião declaram uma margem de erro e um intervalo de confiança. A margem de erro expressa a variação admissível em relação aos resultados divulgados. O intervalo de confiança expressa a confiabilidade da pesquisa – ou seja, a probabilidade de que ela fique dentro da margem de erro. Na noite de 3 de outubro, o Ibope divulgou as pesquisas de boca de urna para a eleição nacional e para 16 Estados, registradas com margem de erro de 2% e intervalo de confiança de 99%. Das 17 pesquisas, 12 ficaram fora da margem de erro. O intervalo de confiança real é inferior a 30%. Um cenário similar, catastrófico, emerge das pesquisas para o Senado. Há tanta diferença assim entre isso e vender automóveis com defeitos nos freios?


Legião chapa-branca


O Ibope não está só. Datafolha, Sensus e Vox Populi não fizeram pesquisas de boca de urna, mas suas pesquisas imediatamente anteriores também não resistem ao cotejo com as apurações. Todos os grandes institutos brasileiros cometem um mesmo erro metodológico, bem conhecido pelos especialistas. Eles usam o sistema de amostragem por cotas, que tenta produzir uma miniatura do universo pesquisado. A amostra é montada com base em variáveis como sexo, idade, escolaridade e renda. Isso significa que a escolha dos indivíduos da amostra não é aleatória, oscilando ao sabor de variáveis arbitrárias e contrariando os princípios teóricos da amostragem estatística.


O Gallup aprendeu a lição depois de errar na previsão de triunfo de Thomas Dewey nas eleições americanas de 1948. Venceu Harry Truman e o instituto mudou sua metodologia, adotando um plano de amostragem probabilística, que gera amostras aleatórias. Quase meio século depois, os institutos britânicos finalmente renunciaram à amostragem por cotas. O copo entornou em 1992, quando as pesquisas baseadas na metodologia furada previram a vitória trabalhista, mas triunfou o conservador John Major. Na sequência, uma equipe de especialistas identificou o problema e apresentou a solução. Os institutos brasileiros conhecem toda essa história. Não mudam porque a metodologia atual é mais prática e barata. Vendem gato por lebre.


A amostragem por cotas não permite calcular a margem de erro. Os institutos ‘resolvem’ a dificuldade chutando uma margem de erro, que exibem como fruto de cálculo rigoroso. Como as eleições brasileiras costumam ter nítidos favoritos, eles iludem deliberadamente a opinião pública, cantando acertos onde existem, sobretudo, equívocos. Não é um fenômeno novo. Jorge de Souza, no seu Pesquisa Eleitoral: Críticas e Técnicas (Editora do Senado, 1990), já registrava que 16 das 23 pesquisas Ibope referentes às eleições estaduais de 1986 se situaram fora da margem de erro – o mesmo desastroso intervalo de confiança, em torno de 30%, verificado neste 3 de outubro.


Nem todos os institutos são iguais. O Datafolha conserva notável isenção partidária, embora também utilize o indefensável sistema de amostragem por cotas. O Oráculo do Ibope anda ao redor dos poderosos, sem discriminar partidos ou candidatos, farejando oportunidades em todos os lados. Marcos Coimbra, seu congênere do Vox Populi, pratica uma subserviência mais intensa, porém serve apenas a um senhor. Durante toda a campanha, o Militante assinou panfletos políticos governistas fantasiados como análises técnicas de tendências eleitorais. Dia após dia, sem descanso, sugeriu a inevitabilidade do triunfo da candidata palaciana no primeiro turno. Sua pesquisa da véspera do primeiro turno, publicada com fanfarra por uma legião de blogueiros chapa-branca, cravou 53,4% dos votos válidos para Dilma Rousseff. Errou em 6,5 pontos porcentuais, quase três vezes a margem de erro proclamada, de 2,2%.


Gesto oportunista


Pesquisas, obviamente, não decidem eleições. Mas elas têm um impacto que não é desprezível. Sob a influência dos humores cambiantes do eleitorado, supostamente captados com precisão decimal pelas pesquisas, consolidam-se ou se dissolvem alianças estaduais, aumentam ou diminuem as doações de campanha, emergem ou desaparecem argumentos utilizados na propaganda eleitoral, modifica-se a percepção pública sobre os candidatos. Os institutos comercializam um produto rotulado como informação. Se fosse leite, intoxicaria os consumidores. Sendo o que é, envenena a democracia.


Beto Richa, o governador eleito em primeiro turno no Paraná, obteve da Justiça Eleitoral a proibição da divulgação de pesquisas eleitorais que não o favoreciam. A censura é intolerável, principalmente quando solicitada por alguém que se comprazia em dar publicidade a pesquisas anteriores, nas quais figurava à frente. Ele poderia ter usado o horário eleitoral para expor a incúria metodológica dos institutos e o lamentável papel desempenhado por alguns de seus responsáveis, como o Oráculo e o Militante. A opinião pública, ludibriada a cada eleição, encontra-se no limiar da saturação. Mais um pouco, aplaudirá o gesto oportunista de Richa e clamará pela censura. Que tal os institutos agirem antes disso, mesmo se tão depois do Gallup?


Ah, por sinal, qual é mesmo a taxa de aprovação do governo Lula?

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Sociólogo, doutor em Geografia Humana pela USP

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/10/2010 FELLIPE KNOPP

    É… o processo eleitoral aparatado por técnicas de mensuração induzida inventou um novo instrumento de marketing: a ‘publicidade científica’ (rsrs), de tal modo que jornal foi sempre uma espécie de indústria ideológica, publicidade travestida de informação, estratégia de ocupação cultural disfarçada de esclarecimento, uma logística morfossintática altamente racionalizada. Como meio mais profícuo leva qualquer método a se negar em sua base confundindo-se como meio e fim último numa mediação socialmente absoluta. Esse fim em si mesmo não se apresenta assim. O prob. é como se discutir uma qst tão áspera como metodologia de pesquisa quando a própria proposição é refém da técnica reducionista do jornal numa enorme ambivalência que desmantela seu objeto e neutraliza sua formulação? Devemos entender já que não há diálogo num jornal. Dissimula-se mudanças de posições e momentos que reduzem sua proposição na presunção da forma lógica de constituição de seu discurso retórico. É tão retórico quanto um palanque na própria estrutura de composição que assenta e assente sua discursividade. O esclarecimento se anula como força contrária de sua própria clarevidência, pseudoantítese que se soma em favor do mesmo. Plasticidade inflamável.

  2. Comentou em 15/10/2010 MARCOS BICALHO

    A maioria das pesquisas acertam. Somente os erros e os crimes são notícia. É assim na vida pública e na privada. Paranóias existem. Entre 5 e 50 % são paranóicos com visão prejudicada do mundo. Boa margem de erro. Esse pessoal, de esquerda, de direita e ambidestro, começa bonzinho e fica arrogante com o tempo e com a falta de palmadas. Pessoas com muitos títulos acadêmicos podem ser esquizofrênicas. Os ‘nóias’ não perdem a pose e seu espaço está garantido no serviço público aparelhado dos outros. Quando Lula, o apedeuta dos pobres, ( o outro grupo é eleito com os votos dos 20 % de sábios e abastados ) subiu a rampa do palácio, os manjados grupos contrários à sua posse, convocaram e promoveram todo tipo de especialistas para contradizer qualquer ato do presidente eleito. No afã de cumprir seus contratos e convites, esses acadêmicos esqueceram as ciências, vestiram a camisa do contratante e monocordicamente desqualificavam empiricamente qualquer ato, proposta ou discurso do governo iletrado. O cidadão via uma imagem de dia e ouvia a negação da imagem de noite. Oportunistas ganharam fama e dinheiro quando o presidente virou anta, o Brasil perdeu o racismo, o lullismo censurou a imprensa, o pobre virou o mais corrupto, etc. Deu no que deu. Agora ninguém acredita na imprensa, nos políticos, nos professores, nas pesquisas e nem nos açougueiros. O Brasil precisa ter fé nas ciências.

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