Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Os livros e a cidade que a mídia não viu

Por Deonisio da Silva em 17/10/2006 na edição 334

De algumas coisas, prezado internauta, você só ficará sabendo se alguém lhe contar, como faziam os viajantes que, no Brasil dos primeiros séculos, registravam o que viam e ouviam.

As já numerosas feiras de livro espalhadas por todo o Brasil, responsáveis por uma movimentação intensa de leitores, autores, livreiros e editores, permanecem surrupiadas da mídia. É claro: enquanto nas praças onde são realizadas houver apenas interessados nesses temas, não haverá escândalos; portanto a mídia não as pautará, certo? Certo! E triste!

Nem bem tinha escrito sobre a maior feira de livros do interior do Brasil, a de Ribeirão Preto, realizada em setembro passado, e eis que estou na Serra Gaúcha, para a 22ª Feira do Livro de Caxias do Sul, que, se repetir o sucesso da 21ª versão, receberá 150 mil pessoas – a cidade tem 400 mil habitantes – e venderá 30 mil livros.

Mas não são apenas os números que devem ser destacados. Nem eles são os dados mais significativos. O tema solar da Feira é que ela produz leitores desde 1975, quando foi realizada pela primeira vez, ao aproximar leitores dos livros. Faz isso achegando o público dos escritores convidados, mas o principal resultado é a leitura.

Além disso, homenageia, a cada ano, intelectuais de relevo. Este ano são dois: o patrono é Flávio Loureiro Chaves, professor universitário (aposentado da UFRGS e ativo na Universidade de Caxias do Sul), doutor em letras pela USP e crítico literário com obra de referência em muitos temas (é especialista em Machado de Assis e em Erico Verissimo). Seu livro mais recente, lançado na Feira, é Ponta de estoque (Editora da Universidade de Caxias do Sul), em que reúne ensaios muito pertinentes e bem-vindos, frutos de um pesquisador sério e altamente qualificado para o ofício.

Sei que intelectuais brasileiros praticam duas atividades preferenciais: o ocultamento do próximo, quando não a maledicência, e a confraria do elogio mútuo. O caso de FLC é outro: analista rigoroso da nossa e de outras literaturas, ao deixar a universidade, quando se aposentou, deu célebre entrevista à imprensa do Brasil meridional, em que revelou os bastidores de um nojento sistema de exclusões e apadrinhamentos confusos. Sua conversa clara teve o mérito de dizer as coisas como as coisas eram no ambiente hostil do campus em que ele ensinava no ano em que se aposentou.

O outro é Delmino Gritti, autor de vários livros, um deles preciosíssimo, frutos de anos de pesquisa sobre pensamentos extraídos de livros alheios. É Sobre o livro e o escrever, editado por Maneco Livraria e Editora Ltda. É só abri-lo em qualquer página e lá encontrar excertos deliciosos, imperdíveis, que ele destacou dos autores lidos, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Franz Kafka, Murilo Mendes e Ernesto Sábato.

Tema não pautado

Esta 22ª Feira de Livro de Caxias do Sul, que começou dia 6 e vai até 22 deste outubro, vem fazendo de tudo para produzir leitores. A programação inclui naturalmente palestras e mesas com escritores, autógrafos, contadores de histórias (como Helô Bacichette, também autora de Mirabolês e a chave dos sonhos, ilustrado por Vivi Pasqual), teatro de bonecos, jograis e, o que é mais importante, a leitura de vários livros ANTES de os autores irem à Feira, para melhor aproveitamento dos debates.

No sábado (14/10), tendo iniciado às 16h, por volta das18h a mesa que discutia o tema ‘Conto e romance: outros modos de narrar a História’, mediada por Flávio Loureiro Chaves e integrada por José Clemente Pozenato e pelo signatário, chegava a seu final, mas a prosa ia se alastrando em rodinhas que se formavam fora do auditório, em meio às barracas, enquanto leitores procuravam as obras dos escritores convidados.

Tudo certo? Não! Vários editores se encarregaram de adicionar um atrapalho essencial: faltaram até livros dos autores convidados. Lembrei do famoso humorista gaúcho, o Barão de Itararé: ‘De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada’.

Este tema a mídia ainda não pautou: por que os editores dão pouca atenção às Feiras, que vendem, numa semana, o que eles às vezes não vendem num ano inteiro?

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde dirige o Instituto da Palavra; www.deonisio.com.br

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