Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ARMAZéM LITERáRIO >

Os livros essenciais. Mesmo?

Por Deonisio da Silva em 28/07/2009 na edição 548

A revista Bravo! fez uma lista dos cem livros essenciais de nossas letras. Na linha de trabalhos similares, como fez Harold Bloom, o rol traz sérias complicações, mas em princípio é bem-vindo, por ensejar discussões e estudos.


Como pode uma lista de autores brasileiros excluir Adelino Magalhães, Affonso Romano de Sant´Anna, Carlos Nejar, Nélida Piñon e Salim Miguel, e no lugar deles pôr Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Fernando Gabeira e o Visconde de Taunay entre os autores das cem obras mais representativas da literatura brasileira?


Não está em questão a qualidade dos citados, mas a classificação, já que todo mundo sabe o quanto aprecio a obra documental do Visconde de Taunay, personagem importante de meu romance Avante, Soldados: Para Trás, e as restrições que faço à sua prosa de ficção.


Euclides incluído


Há uma meia dúzia de instâncias que, na mídia, com freqüência avaliam sem as credenciais necessárias a nossa produção literária. Se é para fazer uma lista de cem obras referenciais de nossas letras, tomem-se vinte autores e cinco livros de cada um deles e está feito o trabalho. Da relação nãopodem ser excluídos Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira, Lima Barreto, Geraldo Ferraz, Benito Barreto, Otávio de Faria, Esdras do Nascimento, Mário Chamie, Josué Guimarães, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar e Raimundo Carrero – quase todos ausentes da lista da Bravo!.


Um dos méritos da lista, pois ela os tem, é incluir o padre Antonio Vieira, que veio de Portugal para o Brasil aos seis anos, e Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, que emigrou para cá por volta dos sete anos.


Convém chamar a atenção para os autores que devem ter servido de referências bibliográficas, indexados na última página da revista. Dos citados, nenhum tem uma obra que contemple as nossas letras nos últimos quarenta anos, pelo menos. É como se, por ocasião da Guerra do Paraguai, fosse feita lista semelhante e dela fizessem parte quase que exclusivamente autores do século 18!


Ai da literatura que depender de um livro como O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, expressão documental nascida da urgência da práxis política, que de forma alguma pode substituir a obra bem cuidada. Se o critério apontar para interpretações do Brasil feitas fora de gêneros clássicos como o romance, o conto e narrativas curtas como a nossa riquíssima literatura infanto juvenil (outra ausência clamorosa na lista), então precisamos lembrar a obra de Gilberto Freyre, de Carlos Guilherme Mota, de Augusto Meyer. Penso que foi o que motivou a inclusão de Euclides da Cunha, que nem romancista nem contista ou poeta é, mas que não pode ter Os Sertões excluído.


Para evitar injustiças


A lista acerta alguns autores, mas erra na indicação dos livros. Seminário dos Ratos não é a obra solar de Lygia Fagundes Telles. A pressa na elaboração deixou outros vestígios. De Paulo Leminski é citado o romance Catatau, quando ele é referência, sim, mas em poesia. Muitos livros de Rubem Fonseca têm qualidade acima de seu livro de estréia, A Coleira do Cão, o mesmo ocorrendo com João Ubaldo Ribeiro, pois Sargento Getúlio é superior a Viva o povo brasileiro.


Em resumo, a lista não serve de referência para as cem obras referenciais de nossas letras. Talvez ela deva ser feita por gêneros e assim evitaremos as injustiças e os equívocos já habituais nesse tipo de trabalho.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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