Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > DRUMMOND & JOÃO CABRAL

Os mestres e a imprensa

Por Fabio Lucas em 10/02/2004 na edição 263

Este livro visa primordialmente retratar a relação de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto com a imprensa. Ambos produziram poemas que mencionam o jornal como objeto indispensável do seu cotidiano. E como veículo de comunicação com o público ou, em muitos casos, como primeira experiência de publicação de seus textos. Além disso, o jornal serviu-lhes de instrumento para disseminar sua obra e suas idéias estéticas e políticas.

Desse modo, estabeleceu-se inusitado convívio de ambos com os agentes do noticiário literário. Procurados pela tendência natural de comunicação, de se exporem – já que a obra é um apelo para a leitura –, nem sempre os jornalistas se lhes revelaram oportunos. Daí, por exemplo, a reserva de Drummond em aparecer, durante muito tempo, nos jornais como depoente ou entrevistado. João Cabral, metido na carreira diplomática, muitas vezes perdeu a consonância vivencial com o meio intelectual brasileiro, expondo, em várias ocasiões, seu estranhamento quanto a certa produção literária do país.

Carlos Drummond de Andrade começou sua carreira de escritor como jornalista. Chegou a chefe de redação, exigente, conforme Afonso Arinos veio a manifestar, como seu subordinado. Com o tempo, Drummond se tornou colunista, fato de que se orgulhava. Disse, em entrevista a Gilberto Mansur: ‘Me deram esse título de poeta, quando, na verdade, eu sou é jornalista’. E utilizou o pretexto para escapar às investidas de jornalistas inexperientes, à cata de notícias explosivas ou comprometedoras.

João Cabral concedeu inúmeras entrevistas, mas chegou a ironizar, em diálogo com Ferreira Gullar, os desvios que os noticiaristas faziam de suas declarações. Em carta a Clarice Lispector, chega a dizer: ‘No Brasil, só se entende escrever no jornal’.

Bem se sabe que o jornalista emprega as letras para divulgar notícias ou para dar opinião. Modernamente está sujeito, em larga escala, aos manuais de redação, que acabam por homogeneizar-lhe o texto e, conseqüentemente, o estilo. Já o escritor usa as letras para o exercício da criação, na qual a inventividade é a essência e a comunicação com o público o objetivo. Para o escritor a atividade da escrita é, em grande parcela, de natureza não utilitária, desinteressada. A profissionalização vem em segundo plano.

O nosso trabalho, à guisa de ilustração, utiliza também trechos de cartas de ambos os poetas, pois são documentos no mais das vezes confidenciais, em que o policiamento defensivo das palavras baixa a guarda, e as cartas, assim, deixam expostas mais claramente opiniões e objetivos dos escritores. Algumas revelações constantes deste livro são inéditas.

Cumpre salientar, além do aspecto documental, o tratamento crítico que emprestamos a vários episódios, assim como os exercícios de análise e de interpretação que fizemos em torno da obra dos dois grandes poetas brasileiros. Tudo isso completa o propósito do estudo, que é aprofundar o lado humano dos poetas em sua exposição ao público, como, também, deve-se considerar o intento de definir a relação das obras com os veículos periódicos, especialmente os jornais e as revistas.

O livro se organiza em três sucessivos patamares: no primeiro, estudamos a inter-relação do jornal com a literatura, agregando exemplos extraídos dos dois poetas; no segundo, apanhamos a obra e a pessoa de Carlos Drummond de Andrade como construção da imagem do poeta; no terceiro, tomamos João Cabral de Melo Neto como exemplo de uma obstinação estética.

Algumas circunstâncias de aproximação dos dois e de posterior distanciamento são mencionadas. E certos episódios críticos são incluídos para maior abrangência do texto e maior conforto do leitor.

Durante trinta anos acumulamos material jornalístico sobre Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Ao se nos apresentar o projeto deste livro, acudiram-nos, com gentilíssima ajuda, dois amigos, a quem deixamos consignado o nosso agradecimento: José Domingos Brito e Eduardo Dall’Alba.

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(*) Professor, tradutor e crítico literário

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