Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
Menu

ARMAZéM LITERáRIO >

Os modelos ficcionais brasileiros

01/09/2009 na edição 553

A 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 7) tomou conta dos suplementos literários, revistas acadêmicas e revistas semanais, sem falar dos jornais e seus colunistas, que dela se ocuparam diariamente. É a globalização da literatura, pois hoje nossas grandes editoras dependem do capital estrangeiro. E cerca de 90% do que se publica é de autores alienígenas. Ora, como disse há pouco o jornalista e editor A.P. Quartim Moraes, se não ‘amarmos nossa literatura, quem o fará por nós?’ Os russos, os ianques, os europeus, os mulçumanos, os argentinos? Pois sim!

O que se constata é que o povo brasileiro, produto de péssima escola pública e particular, não gosta de ler. É aí que está a explicação para a pobreza da produção de bons livros no Brasil. Será sensato dizer que o que não vende não se publica? Os novos editores iletrados, ‘inovadores’ como tantos, andam dizendo há muitos anos que o leitor não gosta dos modelos ficcionais brasileiros. Não quer, em suma, histórias brasileiras.

Ora, que temos literatura da melhor qualidade, não há a menor dúvida. Quem nunca leu deve ler o conto Viagem aos seios de Duília, do mineiro Aníbal Machado. Ou até sugiro um dos nossos, muito mais novo do que eu, o conto Inimigo, do mineiro Jorge Fernando dos Santos. É um conto pequeno, menos de 900 linhas, mas que eu, por mim, considero o melhor miniconto brasileiro. Como Jorge Fernando dos Santos, que editava sete ou oito cadernos semanais do Estado de Minas, poderia citar dezenas de escritores mineiros e brasileiros, publicados ou não. Por que, então, os negociantes de livros continuam investindo em autores estrangeiros? São bons de venda ou são favorecidos pelo monopólio das editoras transnacionais, que estão comprando ou ‘alugando’ tudo no Brasil e preferem lançar edições em 50 ou 100 países, o que facilita a venda?

Política cultural mais consistente

Não me venham com Paulo Coelho e outros ‘bons’ de venda que não são escritores. Nem de celebridades, como Maitê Proença e outras do mesmo naipe, que ganham páginas inteiras nos jornais e programas de rádio e TV. O professor da USP Antônio Cândido afirma:

‘Comparada às grandes literaturas, a brasileira é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós.’

A frase está no prefácio à primeira edição da Formação de Literatura Brasileira (1957), de Antônio Cândido.

O Brasil precisa ter uma política cultural mais consistente, valorizando o que é nosso, seja divulgando os bons autores, seja financiando as pequenas e médias editoras. Todos sabem que a média de exemplares de livros editados no Brasil gira em torno de 3 mil volumes.

O livro de José Cleves

Temos agora o livro A Justiça dos Lobos – Por que a imprensa tomou meu lugar no banco dos réus (Gráfica e Editora Expressa Ltda, Belo Horizonte), que conta o crime praticado pela mídia contra o jornalista mineiro José Cleves da Silva. O caso levou oito anos para ser julgado e a sentença do STF é de outubro de 2008. Só agora (2009) o livro foi editado. Será que os estudantes de Jornalismo não podem comprar um volume (R$ 30,00) e ver que a imprensa vai muito pior do que a literatura? Quem se lembra do livro Abusos da imprensa – A escola base, de Alex Ribeiro?

Em tempo: a Lei 5.250/1967 (revogada pelo STF) precisa ser substituída por nova lei, mas uma lei de verdade, conforme defendi em parecer publicado (em parte) pelo Estado de Minas, em 29/12/1966. Vetei a lei totalmente, por ser uma legislação patronal. O que estão fazendo os sindicatos de jornalistas e outras organizações sociais, que surgiram em Minas Gerais e no Brasil, a partir de 1974, justamente pela resistência que nasceu na sede do SJPMG e Casa do Jornalista? Quem não se lembra que Lula começou a aprender aqui o ‘Novo Sindicalismo’, como disse recentemente Ricardo Kotscho, que durante muitos anos serviu na assessoria de imprensa de Lula até sair desesperançado, no final do primeiro governo lulista?

Espero que Alberto Dines, Eugênio Bucci, Ricardo Kotscho, Daniel Piza, Carlos Eduardo Lins e Silva e José Arbex, entre outros, façam a leitura do livro de José Cleves para saberem que o caso é tão grave ou mais do que o criminoso caso da Escola Base (SP).

******

Jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG) e do Dieese-MG, co-autor do Código de Ética do Jornalista Brasileiro (1985)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem