Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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ARMAZéM LITERáRIO >

Os padrões de referência do jornalismo cultural

Por José Luiz Braga em 06/10/2009 na edição 558

Sabemos que uma visão radicalmente objetivista foi superada no jornalismo, mesmo nos âmbitos em que o acontecimento de atualidade é o foco principal – a política, a violência, os desastres, os processos econômicos, as ocorrências derivadas da força da natureza: fatos. Entretanto, apesar da inevitabilidade da interpretação e do envolvimento jornalístico (da empresa ou dos profissionais) com o fato social, que nos concerne a todos e portanto também aos jornalistas, a referência geral da notícia continua sendo a deontologia da isenção, da objetividade a ser buscada mesmo que inalcançável.

Quando se trata do jornalismo cultural, porém, os padrões de referência se modificam. Em nenhum momento o texto jornalístico pode se pretender externo ao ‘acontecimento’. Ele não só relata, mas interpreta, comenta, é estruturalmente solicitado a se manifestar em termos de valor. Mais que tudo, faz diretamente parte da processualidade cultural – abre ou fecha caminhos, aprecia, apreende (ou não consegue apreender). O jornalismo cultural não está nas arquibancadas acompanhando de modo neutro um jogo distante, para informar ao público sobre seus lances e detalhes. Encontra-se diretamente em liça, mesmo desenvolvendo processos próprios.

A própria idéia de ‘acontecimento’ tem que ser posta assim, entre aspas, pois evidentemente a ocorrência das coisas da cultura não se dá nos mesmos moldes do acontecimento político, econômico ou natural, em termos de ‘fatos como coisas’. A ‘validade’ (noticiabilidade?) do cultural é menos objetiva em si, mais dependente de valores simbólicos às vezes imponderáveis, em todo caso, menos previsíveis. O esforço de gerar previsibilidade (comum a toda atividade jornalística) é um dos âmbitos em que o fato cultural se debate – ou em que o jornalista se debate com o fato cultural. Talvez melhor: não é o fato em si que gera a possibilidade de análises e interpretações, mas são as decisões interpretativas que geram ou não o ‘fato’.

Assim, as decisões de noticiabilidade são de natureza singular. A ‘construção’ do fato se faz por outros processos. O texto jornalístico cultural, em sua variedade de visadas, mesmo quando assume a postura fria de ‘serviço informativo’, entra no âmbito mesmo dos processos culturais em que se enquadram os objetos de sua atenção: torna-se também ‘fato da cultura’.

Na nossa área, de estudos da Comunicação, não se pode pensar a cultura apenas como o conjunto de práticas que caracterizam um grupo humano, que lhe dão identidade. Com a criação expressa de processos de interação com o mundo – obras e ações para apreendê-lo – não só se exerce a cultura, mas faz-se, intencionadamente, produtos e processos que entram em circulação social. É isso que interessa ao jornalismo cultural, quer isso ocorra como obra de arte, como experiência estética, como entretenimento, como espetáculo; ou, por sua circulação em sociedade capitalista, como âmbito especial do mercado.

O relevante, aí, é que o gesto de informar, interpretar, criticar, divulgar – que encontra no jornal seu espaço privilegiado de exercício – é também um desses espaços em que ‘se faz cultura’.

É sobre esse processo jornalístico complexo, desafiante, que a presente obra se volta, com um olhar agudo, às vezes inclemente, com uma preocupação constante de exaustividade, de abrangência, de profundidade e de rigor que fazem deste livro, desde já, uma referência necessária para quem se interessa por essa especialidade jornalística – mas também para os profissionais e estudiosos do jornalismo em geral e, mais ainda, para todo o campo da Comunicação.

Familiaridade e distanciamento

No período de 2000 a 2003, Sérgio Gadini participou de meu grupo de pesquisa no doutorado em Comunicação da Unisinos. Nesse período, acompanhei o desenvolvimento de sua tese sobre jornalismo cultural observando o trabalho de articulação que o autor fazia entre os elementos que sustentam uma boa pesquisa: uma experiência concreta da realidade social e profissional enfocada; uma reflexão fundamentada nas teorias estabelecidas, buscando ainda desenvolvê-las a serviço de seu objeto; e um trabalho sistemático e detalhista na observação exigente de um corpus empírico representativo da coisa examinada.

Tal articulação, entre materiais e processos de natureza diferenciada, exige do pesquisador uma decisão de tensionamento mútuo. A teoria não apenas ‘explica’ a realidade, mas sobretudo oferece bases para interrogá-la. A experiência material permite realizar seleções de relevância no cerne mesmo da teoria e dos materiais empíricos. A observação sistematizada, além de iluminar a percepção dos fatos, permite perceber os pontos em que a teoria (necessariamente abstrata e mais abrangente) não consegue explicar satisfatoriamente, exigindo então do pesquisador sua própria teorização ‘sob medida’. É o que este livro mostra, realizado. Sérgio Gadini vai tecendo seu texto, cada capítulo abrindo um novo ângulo, que é depois iluminado pelas perspectivas que se agregam, vindo de outras perspectivas. O objeto final restituído ao leitor é uma apreensão complexa – e crítica – da atividade e dos produtos estudados.

Em um determinado momento de sua reflexão, na adaptação da tese para o livro, o autor parece se preocupar com a atualidade dos dados específicos observados – materiais publicados em 2002. Tendo lido a tese e lendo agora o livro, posso constatar que não só o texto mantém toda sua atualidade como, mais que isso, a reflexão crítica que acompanha os levantamentos historicamente marcados justamente assegura sua passagem para um nível interpretativo de muito mais longo alcance, não-datado, em que se estabelecem percepções, critérios, conhecimento de processos para apreender o que se passou antes e o que se passará ainda, conforme as tendências evidenciadas.

Como sabem os antropólogos, um processo formador relevante para o pesquisador é desenvolver técnicas de trabalho para lidar com os dois riscos antitéticos, da familiaridade e do distanciamento. Gadini passou um período, durante seu doutoramento, em estágio de estudos em Portugal, observando outro ambiente jornalístico – o que lhe forneceu, como o livro mostra, um elemento de contraste e distanciamento para seu objeto de investigação.

Um ritmo excelente

Apesar da atitude de entusiasmo pelo processo e pelo valor interacional da atividade que é o jornalismo cultural (ou talvez exatamente na medida dessa apreciação) o autor mantém um olhar atento para as insuficiências e lacunas – a percepção crítica é constantemente acionada contra os equívocos, pontuais ou estruturais. A epígrafe que Gadini adota para suas ‘Considerações finais’ poderia servir de emblema para o livro – a crítica severa é o melhor apoio para os bons objetivos de um processo jornalístico.

Essa perspectiva crítica é fundamental, também, para quem participa do trabalho formador de futuros jornalistas que possam vir a trabalhar nas editorias de cultura.

Contrariamente a alguns estudos que, para elucidar seu objeto, o separam de seus contextos de existência, a tática, aqui, é outra, mais árdua e mais produtiva de conhecimento. O livro inscreve seu objeto nas perspectivas mais amplas do jornalismo – em suas perspectivas dadas pelas teorias da notícia e pelas práticas profissionais. Essa inserção do objeto faz o leitor compreendê-lo através das raízes que o articulam com o mundo – na sua historicidade; na preocupação profissional da notícia, da deontologia, das rotinas e do valor social; no conhecimento teórico; e sobretudo, no ambiente plural da criação e da circulação das coisas da cultura. Mas, em meio a tais inserções, o tema não perde sua particularidade. Dentro dessas mesmas inscrições, o texto dá conta das especificidades e características constituidoras do objeto ‘jornalismo cultural‘.

No que se refere ao manejo da teoria, mostra-se no texto um bom apoio em autores – com os quais o pesquisador dialoga munido de conhecimento próprio. Isso nos oferece a satisfação de encontrar um autor que efetivamente conhece seu assunto – nos detalhes, nas nuances, nas lacunas processuais, nas armadilhas e na riqueza de sua potencialidade, mesmo quando esta seja raramente realizada. Os raciocínios de fundamentação são coerentes com a visada analítica – e são fornecidos ao leitor através de interpretações e propostas especificadas pelo seu objeto, e não como abstrações estéreis.

O estudo sabe, assim, articular a reflexão mais abstrata com a ação profissional – os embates práticos para assegurar o fechamento do caderno cultural, as pressões do aparato ‘produtor de cultura’, as incidências econômicas na circulação e nos resultados que viabilizam e condicionam o funcionamento do processo.

Finalmente, articulando essa variedade, o texto ultrapassa o nível das descrições empíricas e o manejo dos dados – para desenvolver inferências que evidenciam, em nível estrutural, ultrapassando o episódico, as lógicas do funcionamento do jornalismo cultural no país.

A multiplicidade de ângulos pelos quais o objeto é examinado fornece uma visada abrangente, que evita a atribuição de poderes determinantes a uma única lógica que aparecesse como inexorável. A atividade é exposta em toda sua complexidade – ao mesmo tempo evidenciando que se coloca como desafio. Nesse contexto reflexivo, as críticas, severas ou irônicas, desenvolvidas pelo autor não se resolvem como desgosto ou recusa da especialidade – antes como um espaço em que a reivindicação de enfrentamento se propõe viável e produtiva. O texto se completa e encontra seu ponto de organicidade no estudo das ‘lógicas’ que marcam o processo jornalístico cultural no país, hoje. Essas lógicas expressam a especialidade – e desenham ao mesmo tempo o quadro a ser enfrentado pelo processo formador de futuros jornalistas e pelo trabalho continuado de superar as insuficiências que se evidenciam.

Um aspecto que não deve ser descuidado, na apreciação de um texto acadêmico é o prazer da leitura. Essa questão não é um complemento secundário – entendo que a passagem das idéias e perspectivas depende também de um nível interacional entre autor e obra, entre obra e leitor, que só consegue boa realização quando consegue capturar a atenção sem sacrifícios. O livro apresenta um ritmo excelente proporcionando, a cada ponto, estimulação para o trecho seguinte.

Esclarecimentos, pedagogia e valor simbólico

Assim como os processos culturais da sociedade – das artes, dos eventos, do entretenimento – não existem sem as falas que sobre elas se desenvolvem pelo jornalismo – crítico ou não – o jornalismo cultural não se aprimora ou sequer existe sem a crítica com que a sociedade esteja disposta a esquadrinhar os modos segundo os quais é informada e formada, em seus jornais.

Nossas práticas de crítica social da informação, no Brasil, são geralmente pobres e canhestras. Ora, a produção mediática de um país não poderá ser melhor do que a vontade crítica de sociedade, disposta a esquadrinhá-la para, agonisticamente, estimular melhores soluções. Entre a produção e a recepção, o sistema interacional da sociedade, acionando dispositivos críticos – nas conversações, nos debates, nos estudos críticos, nas conversas de bar, na mídia mesmo (quando viabiliza seu próprio exame) – deve ser crescentemente percebido como um processo de controle difuso pela sociedade e, mais que isso, de qualificação da própria mídia.

Em um país no qual instâncias efetivamente críticas são escassas, o livro de Sérgio Gadini se apresenta como peça preciosa – de informação, de conhecimento articulado, de crítica proativa. Torna-se, assim, um acontecimento, no melhor sentido das práticas da produção cultural – pelos esclarecimentos que oferece, pela produtividade pedagógica que promete, pelo valor simbólico que agrega à especialidade jornalística que analisa.

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Doutor em Comunicação pela Universidade de Paris e professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos

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