Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > HAROLD EVANS, JORNALISTA

Os segredos do editor

Por Matías M. Molina em 02/02/2010 na edição 575

Quando as revistas British Journalism Review e Press Gazette fizeram, há alguns anos, uma pesquisa entre seus leitores para indicar o melhor editor de jornal de todos os tempos, o escolhido foi Harold Evans. A escolha pode ser discutida, eu não teria votado nele; o próprio Evans ficou surpreso.

Mas sua indicação é um reconhecimento da competência e coragem que demonstrou como editor do The Sunday Times de Londres durante 14 anos, de 1967 a 1981. Ele também dirigiu The Times durante um ano e depois se mudou para os Estados Unidos.

My Paper Chase são as memórias de Evans, publicadas ao completar 81 anos. Os detalhes sobre a origem de sua família, sua infância e educação podem não ser de grande interesse para o leitor brasileiro. Mas a capacidade de indignação sem rancor, a persistência para enfrentar uma estrutura que excluía os menos favorecidos e a tenacidade para subir no pau de sebo social são qualidades dignas de admiração em qualquer país e em qualquer época.

E qualquer jornalista pode aproveitar sua experiência. Ele percebeu que o que é apresentado ao público como verdade muitas vezes não coincide com o que um repórter apura. ‘Em tempos de guerra, a verdade deve ser protegida pelos guarda-costas da mentira’, dizia Winston Churchill. Mas esse hábito de mentir por quem está no poder é também muito cultivado em tempos de paz. Assim como o abuso do conceito de ‘interesse nacional’, para esconder incompetência. Outra coisa que ele aprendeu é que pessoas normais, de boa-fé, se ressentem dos fatos que contrariam suas crenças e convicções. E observa como agem os governos contra os jornalistas que não rezam por sua cartilha. Quando era presidente, George W. Bush acusava os repórteres que cobriram a invasão do Iraque de preguiçosos, estúpidos, covardes e sem patriotismo e, em outras ocasiões, de traidores.

Circulação incrementada

Evans é autor de cinco dos melhores livros sobre a prática do jornalismo. A leitura dessa série, ‘Writing & Design’, escrita há mais de 30 anos, ainda deveria ser fundamental em todas as redações em que haja preocupação em melhorar o desenho de uma página, escrever um texto claro e direto, fazer um título com impacto e escolher uma fotografia. Em My Paper Chase ele mostra como colocou tudo isso em prática.

Evans é de origem humilde. Nasceu na decadente região industrial do norte da Inglaterra. ‘Uma questão que tenho me perguntado com frequência sobre meus pais – escreve Evans – é o que eles poderiam ter feito se tivessem tido alguma chance. Como milhões de outros, foram condicionados, desde que nasceram, pela crença, entre as elites governantes, de que a educação não podia – nem deveria – fazer nada pelas classes trabalhadoras.’

Só em 1944 a educação secundária foi aberta para todos, mas a superior ainda continuava fechada para os pobres no tempo de Evans. Esse sentimento de injustiça contra os humildes – mas não de revolta – permeia o livro e todo o seu trabalho como jornalista.

Ele começou aos 16 anos no Ashton-under-Lyne Reporter, um semanário na grande Manchester, onde aprendeu a importância da informação local detalhada para os habitantes de uma comunidade. Deu um grande salto na redação do Manchester Evening News, o maior jornal provincial inglês. Aprendeu todas as técnicas do ofício. Escrever com rapidez, desenhar uma página atraente, fazer títulos com impacto, organizar coberturas, alinhavar editoriais. À noite, passou a lecionar para adultos. Aprendeu com eles o que a maioria dos jornalistas ignora: que transmitir informação é mais fácil do que criar compreensão. Daí sua preocupação, nos jornais que editou, em ser didático e explicar exaustivamente, não apenas informar.

Evans diz que o segredo do extraordinário sucesso do Evening News era a maneira como o editor, T.E. Henry, se identificava com os diversos tipos de leitores. Ele lia com cuidado todas as cartas que chegavam à redação e lhes dava um grande espaço. Foi um precursor, nos anos 1950, do ‘jornalismo cidadão’. Segundo Evans, ‘todos os editores que se orgulham de nunca olhar as cartas dos leitores invariavelmente dirigem jornais de segunda categoria’.

Depois de dois anos nos EUA com uma bolsa de estudos, Evans passou a editar um jornal de província, The Northern Echo, de Darlington. As campanhas que o tornaram famoso não começaram como um plano deliberado; foram circunstanciais – causadas pelas frustrações e pelo descaso da vida pública –, e sempre ligadas às necessidades da comunidade. Mas evitou qualquer filtro político e decidiu não iniciar nenhuma campanha sem antes fazer uma investigação completa, definir qual seria o objetivo e oferecer amplo espaço às opiniões contrárias.

A primeira começou quando Evans mudou de casa e percebeu um intenso cheiro como de peixe podre, acompanhado de uma neblina. Era causado pelas instalações da Imperial Chemical Industries, na época a maior empresa inglesa, que atribuía o fedor a causas naturais. Ele mandou fotografar a fumaça e publicou no jornal ‘a foto do cheiro’. A empresa reconheceu que havia um vazamento da unidade de amônia e tomou medidas para evitá-lo. Depois, muito antes de estar na moda, o jornal combateu a poluição ambiental.

Lutou para obter o perdão póstumo de Timothy Evans, um inocente executado pelo crime cometido por um policial, e para que seu corpo fosse entregue à família. Pressionou também para obrigar o Serviço Nacional de Saúde a fazer exames simples que detectam, nos primeiros estágios, o câncer cervical, que estava matando milhares de mulheres inglesas. ‘Quantas mulheres mais têm que morrer para que o ministro comece a agir?’, perguntava o Echo. Depois que, finalmente, o ministério agiu, o jornal calculou que tinham morrido 25 mil mulheres.

Quando os jornalistas ficam cansados de uma campanha é quando o público começa a percebê-la, dizia. A circulação do jornal aumentou em 14% e o lucro triplicou.

Causa ganha

Num programa de televisão, ele criticou o Financial Times por não informar que um executivo judeu fora demitido de uma grande seguradora por pressão de interesses árabes. O FT pertencia ao mesmo grupo do jornal editado por Evans.

O prestígio conseguido no The Northern Echo lhe valeu um convite do The Sunday Times, o jornal dominical de maior circulação de Londres, controlado por Lorde Thomson, empresário de origem canadense. Em poucos meses, Evans era nomeado editor, depois de convencer o conselho de administração da Times Newspapers Ltd. de que não orientaria o jornal de acordo com os interesses comerciais de Thomson. Como a única orientação que recebeu foi não atacar a rainha, entendeu que isso lhe dava liberdade, que foi exercida, para criticar os negócios de petróleo de Thomson no Mar do Norte.

The Sunday Times passou a incomodar o governo e uma grande variedade de interesses. Evans tornou-se um assíduo visitante involuntário dos tribunais de Londres.

O jornal tinha que romper as barreiras levantadas pelo establishment. Era um ambiente em que os tribunais davam ao direito à propriedade prioridade sobre os direitos das pessoas. Mas Evans afirma que o espírito do jornal não era de hostilidade nem ao governo nem ao mundo dos negócios, mas de independência. Ele via o que uma imprensa realmente livre era capaz de fazer e, ao mesmo tempo, ficava chocado pela sua passividade em assegurar igual proteção para os mais vulneráveis. The Sunday Times passou a ser considerado o mais efetivo flagelo do poder de toda a imprensa britânica.

Talvez sua campanha de maior impacto tenha sido a série de reportagens sobre a talidomida, o remédio para reduzir a ansiedade e o enjoo das mulheres grávidas que, no mundo inteiro, ocasionou o nascimento de milhares de crianças aleijadas e deformadas. Quando começou a publicar informações sobre a talidomida, inicialmente no Echo, leitores escreveram protestando que não era assunto para um ‘jornal de família’; era o equivalente a ‘não queremos saber’.

O remédio, lançado como a droga da ‘felicidade’, tinha sido produzido por uma subsidiária da Distillers, conhecida pelas suas marcas de uísque famosas. No início dos anos 1970, Evans voltou ao tema no The Sunday Times, com o objetivo de conseguir uma ‘compensação decente’ para as vítimas. O Ministério da Saúde recusou-se a abrir um inquérito para investigar a origem do desastre e até mesmo a dar um alerta para evitar o consumo da talidomida que ainda estava no mercado. Segundo o ministério, apoiado pela imprensa, a Distillers tinha feito os testes do remédio de acordo com os padrões da época. O que, o jornal provou, não era verdade.

Para as famílias, a única saída foi ir à Justiça. Como o caso estava nos tribunais, era ilegal informar ou comentar sobre a questão. Tentou-se apurar como o desastre tinha acontecido; o fabricante recusou-se a colaborar. Os advogados do jornal aconselharam a nada publicar, para evitar um processo, mas foram publicadas várias reportagens de grande repercussão e mais famílias entraram com ações na Justiça.

A Distillers ofereceu pagar uma indenização que o jornal achou insuficiente, posição que publicou em editorial. Um juiz, ao estipular um pagamento, se recusou a considerar o impacto da inflação, aceitando o argumento do advogado do fabricante de que o governo tinha prometido acabar com ela.

Denis Hamilton, diretor editorial da Times Newspapers, disse a Evans que a Distillers era o maior anunciante do jornal: ‘Mas eu sei que isso não vai parar você, nem deveria’. Alguns leitores ficaram ofendidos pelas fotografias de crianças sem braços. O jornal foi atacado pelo resto da imprensa. O presidente da Distillers dizia que, legalmente, as vítimas talvez não tivessem direito a nada e que ele tinha obrigações para com seus acionistas. Mas, como resultado da campanha, os acionistas passaram a pressionar a Distillers e muitos clientes deixaram de comprar seus produtos. Era uma aritmética que a empresa entendia. No fim, ofereceu pagar 28 milhões de libras esterlinas às vítimas. O jornal ganhou uma causa na Corte Europeia de Direitos Humanos contra o governo, por ter impedido a publicação de informações sobre a origem da tragédia. A lei inglesa foi mudada. E a Distillers teve que incluir a inflação – pois o governo não cumprira sua promessa de acabar com ela – na compensação das vítimas, o que lhe custou 160 milhões de libras em trinta anos, em lugar dos 3,25 milhões oferecidos inicialmente.

Anúncios cancelados

The Sunday Times revelou massacres em Uganda e no Paquistão e desagradou o governo com notícias exclusivas sobre o conflito na Irlanda do Norte. Apesar de ser um jornal conservador, Evans disse a Lorde Thomson que apoiaria os trabalhistas nas eleições seguintes. ‘Você decide, Harold’, foi a reação. O jornal publicou uma reportagem mostrando o envolvimento da CIA nas eleições da Guiana, um dia antes do encontro de uma equipe de Thomson para comprar uma emissora de televisão do governo desse país: tiveram que sair imediatamente.

Essa independência da redação tinha sido uma das condições para Evans aceitar o cargo. Mas ele achava igualmente importante impedir que o espírito de corpo encobrisse os erros dos jornalistas. Confirmar os fatos não era suficiente se não estivessem no contexto certo. Na narrativa, a emoção e a lógica tinham que estar equilibradas.

Evans afirma que um governo não pode governar bem sem a informação e as críticas de uma imprensa independente. Nenhum sistema de inteligência, nenhuma burocracia estatal pode oferecer a informação proporcionada por uma imprensa livre e competitiva. Mas o comentário crítico não é suficiente; é necessária a reportagem que apura os fatos para dar suporte ao comentário.

Apesar de sua agressividade – ou talvez por causa dela – The Sunday Times era um jornal extremamente rentável, com uma circulação que superava a dos seus dois concorrentes somados. Ele atribui esse sucesso à decisão de Denis Hamilton, seu superior hierárquico, e de Lorde Thomson, o dono, de investir no longo prazo.

Em 1981, Rupert Murdoch convenceu Evans a assumir a direção do The Times, que ele tinha comprado junto com The Sunday Times. Foi um erro. Um ano depois, tinha perdido o emprego. No livro Good Times, Bad Times e no atual, ele diz que foi demitido por criticar a política econômica de Margaret Thatcher. Há quem discorde. No início, ele foi bem recebido pela redação, mas causou surpresa ao contratar novos jornalistas com salários muito altos e encostar outros de qualidade talvez superior. Com frequência, mostrava indecisão ao trocar repetidas vezes a primeira página, atrasando a impressão. Evans cometeu o supremo erro de não apenas indispor-se com o dono, mas de alienar também uma grande parte da equipe, que passou a conspirar contra ele.

Pouco depois, Evans mudou-se para os EUA. Diz ter ficado fascinado pelas oportunidades e contradições do país, pela liberdade e por encontrar uma sociedade aberta, onde era fácil franquear as portas do ensino superior – tão diferente das dificuldades que ele encontrara na Inglaterra, onde o acesso estava reservado para uma elite.

Iniciou uma nova etapa de sua carreira, bem-sucedida, mas sem o brilho e impacto dos anos em Fleet Street, a antiga rua dos jornais de Londres. Quando escreveu um editorial para a revista US News & World Report criticando o uso de estatísticas falsas pela National Rifle Association, um executivo disse que não podia publicá-lo, pois tinha vendido anúncios no valor de 35 mil dólares. O editorial foi publicado. Os anúncios foram cancelados.

Sua segunda mulher, Tina Brown, 25 anos mais jovem, teve um desempenho ainda mais brilhante: editou as revistas Vanity Fair, The New Yorker e agora dirige o site The Daily Beast.

Homenagem do reino

Evans diz que não guardou nenhum resíduo de hostilidade emocional contra Murdoch e que encontra muitas coisas boas para admirar nele, como sua eficiência, seu amor pelos jornais, sua coragem para desafiar as três cadeias de TV nos Estados Unidos e lançar uma quarta, e diz que The Wall Street Journal, que Murdoch comprou há dois anos, é hoje um jornal melhor que sob a administração anterior. Quando uma emissora de televisão quis um comentário sobre Murdoch em relação aos sindicatos gráficos ingleses, Evans disse que ele estava certo. A entrevista foi cancelada. Mas Evans alerta: ‘Não estou falando de suas ideias políticas. Estou falando da gestão dos negócios’.

Ele admira as fantásticas oportunidades do jornalismo na internet. A questão, diz, não é se ele será dominante, mas se manterá as qualidades do melhor jornalismo impresso. Afirma que, no fim, não é o sistema de entrega que conta, mas o que ele entrega. Conclui dizendo que, se for encontrado o modelo financeiro certo, entraremos numa era de ouro do jornalismo. Mas não diz como encontrar esse modelo.

Nos anos 1970, a época áurea de Evans, seus contemporâneos na Fleet Street gostavam de expor seus defeitos. Ambicioso, era considerado educado, porém irascível. Hábil em detectar e atrair talentos, pagando altos salários, mas lento em demitir, com o que a redação ficava inchada. Alguns críticos diziam, com pouco fundamento, que ele era melhor na técnica da apresentação do que na geração de conteúdo. Outros que, com frequência, ele parecia uma criança hiperativa e insegura, que se distraía com facilidade. Sensível às críticas, e não sem vaidade, era um dos alvos prediletos da revista satírica Private Eye, que se referia a ele como ‘dame’ Evans, por achar certa semelhança em suas atitudes com as da conhecida artista de teatro ‘dame’ Edith Evans. Numa atitude contrária ao seu estilo de jornalismo, ele processou várias vezes a revista. Mas, segundo um jornalista que trabalhou com ele, ‘nenhum de seus defeitos diminuía nosso afeto por ele – pelo menos, não por muito tempo’.

Curiosamente, Evans passou a fazer parte da elite que olha com tanta reserva. Em 2004, recebeu da rainha Elizabeth o título de cavalheiro. Tornou-se Sir Harold Evans.

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Jornalista, autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo

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PRIMEIRAS EDIçõES > MEMÓRIAS DAS TREVAS

Os segredos do editor

Por Luiz Egypto em 07/02/2001 na edição 107

Antes de ser lançado na semana de 20-28 de janeiro, o livro Memórias das Trevas – uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, de João Carlos Teixeira Gomes, percorreu uma via-crúcis por diversas editoras – iniciada em setembro de 1999 e encerrada no segundo semestre de 2000, quando os originais foram aceitos pela Geração Editorial e finalmente publicados no início deste ano. A resistência em editar o livro tem um motivo óbvio: personagem cujos métodos e ação política são dissecados do catatau de 766 páginas, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) é useiro e vezeiro da truculência no trato com seus críticos. Ademais, quando comandou o Ministério das Comunicações no governo Sarney, e dali por diante, ACM vem aprimorando uma bem azeitada rede de relações com empresas de mídia e com profissionais do jornalismo que lhe garante um pacto de silêncio em torno de fatos desabonadores em sua trajetória como ex-prefeito de Salvador, ex-governador da Bahia e atual senador da República.
O editor Luiz Fernando Emedito, contudo, não aceita participar desse pacto. Publicou Memórias das Trevas com as precauções que julgou necessárias e não se arrepende de ter investido no livro. Sustenta que sua editora, a Geração Editorial, é "eclética, polêmica, pluralista e independente". Com cerca de 100 títulos em catálogo, a Geração publicou livros como Mil Dias de Solidão, de Cláudio Humberto Rosa e Silva; O Paraíso Perdido, de Frei Betto; A Conquista da Modernidade, de Luiz Antonio de Medeiros; Sérgio Motta, um Trator em Ação, de José Prata e Nirlando Beirão, além de romances, poesia e biografias. "Publico o que quero, do jeito que quero, quando quero, pensando unicamente no leitor, sem dever nada a ninguém", diz o editor.
Luiz Fernando Emediato, 49 anos, é jornalista e escritor com 8 livros publicados. Trabalhou no Jornal do Brasil e no Estado de S. Paulo – neste, como repórter especial e editor, tendo liderado a equipe que criou o Caderno 2. Com o jornalista Marcos Wilson, dirigiu o jornalismo do SBT quando da contratação do âncora Boris Casoy. Em 1991, deixou as redações para montar sua empresa e "ser dono do próprio nariz". Nesta entrevista, Emediato revela o que esteve por trás do lançamento de Memórias das Trevas, livro comentado na edição nº 106 deste Observatório [veja remissões abaixo].

Por que você deixou as redações para tornar-se editor de livros?

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

Luiz Fernando Emediato – Em 1992, depois de cinco anos no Jornal do Brasil, onde fui repórter especial; dez anos no Estado de S.Paulo, onde fui editor de quase tudo, além de criador e primeiro editor do Caderno 2; e de dois anos e meio dirigindo o jornalismo do SBT, onde contratei o Boris Casoy, eu estava entediado do jornalismo. Eu já tinha ganhado o Prêmio Esso, em 1982, e o Prêmio Rei de Espanha de Jornalismo Internacional, em 1981. Tinha viajado quase o mundo inteiro, escrito sobre quase tudo e galgado todos os postos. Não queria mais ser empregado, mas dono de alguma coisa. Como não tinha dinheiro para comprar um grande jornal, abandonei o jornalismo, se é que se pode abandonar o jornalismo, e criei uma empresa chamada Geração de Comunicação. Era uma agência de propaganda especializada em marketing político. Fiz duas campanhas eleitorais, tomei nojo desse negócio e criei a Geração Editorial, um sonho que tinha desde os anos 80, quando fui dono da EMW Editores, um projeto amador que não vingou – até porque, como eu vivia nas redações, não tinha como cuidar dela. Nesse meio tempo uma tragédia na família matou meu irmão, que era empresário, e herdamos dele, eu e meus irmãos, uma empresa na área financeira. Meus irmãos tocam esse negócio, que dá um bom dinheiro, e me dá independência para ser talvez o único editor deste país que não precisa de um banco para financiar seu ideal. Não preciso de dinheiro e posso fazer o que eu quero. É por isso também que, por puro gosto, eu sou assessor da Força Sindical. Aos 49 anos, sou uma pessoa muito feliz. Consegui aquilo com que todo profissional sonha: ser independente, ser dono do próprio nariz. Às vezes até acho que não mereço isso.

Como você conheceu Memórias das Trevas – uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães? Por que decidiu publicá-lo?

L.F.E. – O livro chegou pelo correio, por volta de agosto ou setembro do ano passado, recebeu o número 526 e eu tinha pelo menos uns 40 livros para examinar antes de chegar nele. Mas o João Carlos Teixeira Gomes, que tinha sido recusado por uma dezena de grandes editoras, ligava todo dia e falava com minha assistente, Solange, que eu precisava ver aquele livro, que, se eu desse uma olhada, tirava-o da fila e lia logo. Foi o que aconteceu. Não precisei ler o livro todo para decidir pela publicação. Na verdade, só terminei de ler o livro quando tirei 10 dias de férias. Quanto terminei de ler, fora do Brasil, ele já estava impresso e sendo distribuído. Não me arrependi de ter publicado sem ler por inteiro. O livro vale o que pesa, um quilo e trezentos gramas. É a primeira vez que se reúne em um só volume, num texto quase romanceado, toda a história da vida de um dos políticos mais autoritários e atrasados deste país, que sem dúvida causou muitos prejuízos aos cidadãos de bem.

Como avalia a recusa dos originais de João Carlos Teixeira Gomes por parte de várias editoras? O que a sua editora tem de diferente das outras?

L.F.E. – Não quero comentar o que levou as outras editoras a recusar o livro. Uma delas sei que recusou porque não tinha dinheiro para investir. Outra, porque preferia um livro que tratasse só do senador Antonio Carlos, e o livro é mais amplo, é na verdade a autobiografia do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes, cuja vida, infelizmente para ele, girou durante muitos anos em torno da perseguição a ele movida pelo coronel baiano. Outras podem ter recusado porque não gostaram do livro. E outras, claro, por medo. O que minha editora tem de diferente das outras acho que é apenas o fato de ser dirigida por um jornalista que gosta de polêmica, não tem medo de ter prejuízo, e é, como já disse, 100% independente, além de pluralista. Publiquei livros de Cláudio Humberto, ex-assessor de Collor, de Frei Betto, de Cristovam Buarque, de Luiz Antonio de Medeiros, de José Prata, ex-sócio de Sérgio Motta. Publico o que eu quero, não devo nada a ninguém. Todos os impostos estão em dia, posso ser fiscalizado a qualquer momento. Isso não é pouco num país em que muitos empresários não pagam todos os impostos.

A decisão de publicar o livro, e bater de frente com o trator ACM, implicou algum cuidado contra eventuais represálias do senador?

L.F.E. – Só tomamos o cuidado de distribuir o livro primeiro, antes de anunciar que ele existia. Ao contrário do que sempre fazemos, não enviamos provas para jornalistas e críticos. A revista IstoÉ teve o privilégio de receber uma cópia dois dias antes de nossa campanha publicitária, com o livro já distribuído. Confiei no empresário Domingo Alzugaray, que se comprometeu a guardar sigilo até o início da campanha, e não me arrependi, ele cumpriu o trato. Eu queria distribuir cópias do livro para meus colegas jornalistas, mas como já tive três livros apreendidos, e a justiça só libera – sempre libera – meses depois, fui obrigado a tomar essas precauções. Valeu a pena, pois soube que o pessoal do ACM desistiu logo de alguma medida judicial. Era impossível apreender todos os exemplares, que foram pulverizados pelo país inteiro. O desgaste seria maior. Quanto a outro tipo de represália, não acredito. Se eu morasse na Bahia e fosse sonegador de impostos, certamente teria que enfrentar os fiscais do Estado. Como não moro na Bahia e, como já disse, pago os impostos em dia, não tenho o que temer.

ACM afirma que o livro não fere a sua honorabilidade e que a edição foi patrocinada pelo PMDB. O que o editor tem a dizer sobre isso?

L.F.E. – O livro realmente não traz nada, sobre a vida de Antonio Carlos Magalhães, que não tenha sido publicado ao longo dos últimos 40 anos. Mas quando se lê tudo aquilo, reunido, é impossível não ficar horrorizado. Só quem aceita o autoritarismo, a violência, a arbitrariedade, pode considerar aquilo normal.

E quanto à afirmação de que a edição foi patrocinada pelo PMDB?

L.F.E. – Não se sustenta. Como já disse, a Geração Editorial não depende de ninguém para publicar seus livros. Aliás, sempre recusamos editar os livros "patrocinados" que nos aparecem. Refiro-me ao patrocínio legal, via legislação de incentivo cultural, com base em renúncia fiscal. Sou contra, acho que o Estado deve patrocinar é museus, patrimônio hístórico, esse tipo de coisa. Cinema, música, teatro, livro, isso é coisa do mercado. O melhor patrocínio para isso é o povo enfiando a mão no bolso para comprar livros ou ingressos para ver filmes. Tenho horror de patrocínio. Quanto ao PMDB, só posso rir. Costumo votar no PT. Meu modelo de senador se chama Eduardo Suplicy. Acho o senador Antonio Carlos Magalhães uma figura prejudicial para a democracia e os bons costumes. Não admiro o senador Jader Barbalho. Acho o senador Pedro Simon um grande maluco, apesar de honesto. Mas até entendo que Antonio Carlos Magalhães afirme isso. Sendo ele quem é, não pode mesmo passar pela cabeça dele que o livro foi publicado em virtude de seus próprios méritos, e que um editor decidiu investir nele unicamente por causa de sua qualidade. Coincidentemente, o livro saiu no contexto de uma disputa pelo poder no Congresso. Isso foi muito bom para vender o livro, mas prejudica uma análise profunda da obra. Até agora ninguém avaliou o livro pelo que ele realmente é. E como saíram outros "livros", que na verdade são dossiês malfeitos sobre corrupção, nosso livro ficou no meio dessa podridão toda. Isso eu acho que foi ruim.

Como avalia a cobertura que Memórias das Trevas mereceu da mídia? Concorda que há uma espécie de "pacto do silêncio" em torno das denúncias envolvendo ACM?

L.F.E. – Como a editora não distribuiu o livro previamente, também não posso reclamar da cobertura da imprensa. É preciso dar tempo para que as pessoas leiam o livro. Se dentro de uns 15 dias nada sair de mais profundo sobre o livro, alguma crítica, mesmo que negativa, aí sim, poderemos afirmar que há um "pacto de silêncio", como você diz, em torno de denúncias envolvendo o senador. Mas nós, que somos jornalistas, já podemos dizer, mesmo antes disso, que pelo menos uma revista de São Paulo e um jornal do Rio foram muito cautelosos e não deram nem mesmo uma notinha, um registro, dizendo que o livro existe.

Como explica a ascendência de ACM sobre parte da mídia? E como avalia as relações às vezes muito próximas do senador com profissionais de imprensa?

L.F.E. – Vou dizer algo que talvez decepcione alguns colegas jornalistas, mas é o que penso. Relações íntimas entre o poder e jornalistas sempre foram e sempre serão comuns. Samuel Wainer foi o que foi porque Getúlio Vargas o apoiou. Chateaubriand cresceu chantageando políticos e empresários e relacionando-se com eles. Naqueles tempos as relações eram menos refinadas do que hoje, quando jornalistas trocam favores com políticos traficando informações (ou sonegando informações) e donos de publicações em dificuldades trocam apoio ou silêncio por cotas de publicidade do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e da Petrobras. Isso é inevitável, faz parte do jogo. Um ministro, um senador, um deputado influente, toda essa gente se aproxima de jornalistas e de empresários do ramo. Eles "ganham" a simpatia do jornalista ou do órgão de imprensa muitas vezes apenas sendo simpáticos. Mas muitas vezes entra é mesmo o jogo bruto do dinheiro e do poder. Estive nas redações ao longo de 18 anos e nunca recebi nenhuma proposta indecente, ninguém teve coragem de oferecer nada – mas tenho certeza de que seu eu tivesse pedido eu seria atendido. O que o sr. Antonio Carlos Magalhães faz não é diferente do que outros fazem. Talvez a única diferença seja que ele foi ministro das Comunicações numa época em que a democracia era incipiente e usou como ninguém o poder que tinha de comprar políticos, com concessões de rádio e TV, e de "comprar" jornalistas, com informações.

O fato de lançar o livro no calor da batalha pela renovação da Mesa do Senado, e às vésperas da saída de ACM da presidência da Casa, foi uma jogada de marketing ou um estratagema político?

L.F.E. – Por incrível que pareça, foi apenas coincidência. Se o autor tivesse encaminhado o livro primeiro para a Geração Editorial, em setembro de 1999, ele teria saído no início do ano 2000 e talvez não tivesse tanta repercussão. Mas quis o destino que o livro andasse de editora em editora e só chegasse à nossa já quase no final do ano passado. Foi um tremendo azar para o sr. Antonio Carlos Magalhães e talvez tenha ajudado o senador Jader Barbalho. Mas a editora não tem nada a ver com isso, acredite ou não o senador baiano. Mas se eu estivesse no lugar dele também não acreditaria.

ACM reagiu de forma branda à publicação e praticamente não falou sobre o livro. Mas na imprensa têm aparecido notas que desqualificam o trabalho de João Carlos Teixeira Gomes, sob o argumento de que o livro não traz novidade alguma e todos os fatos que revela já são sobejamente conhecidos. Por que o senador não reagiu com a truculência habitual a essa devassa em sua vida? E qual é, afinal, a originalidade do livro?

L.F.E. – Essas notas são uma tentativa desesperada de levar as pessoas a não comprar o livro, que é de leitura realmente difícil, tanto pelo tamanho, quase 800 páginas, quanto pelo estilo, que não faz concessões. A novidade que o livro traz é o relato do jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes, que, em linguagem serena, erudita, sem ressentimento, conta a história de sua vida, que é exemplar, e a história de seu conflito com um personagem nada exemplar, que é o sr. Antonio Carlos Magalhães. Realmente, para um político ou assessor iletrado deve ser difícil ler o livro. Quanto a não trazer "novidades", façam-me o favor! O que se relembra, com documentação comprobatória, já é um escândalo! Quanto à reação do senador, ele primeiro anunciou que iria entrar com uma ação judicial contra o livro, até porque a editora usou uma foto dele na capa. Se recuou depois, é sem dúvida porque a ação seria pior. Primeiro, porque não fica bem para um senador da República espancar a Constituição que ele próprio ajudou a elaborar, e que garante a liberdade de expressão. Depois, porque ele fatalmente perderia na Justiça. Ele sabe que a Geração já foi acionada pelo ex-ministro Bernardo Cabral, por causa do livro Mil Dias de Solidão, do Cláudio Humberto; por um bandido, estuprador, um tal Vilmar Nascimento, condenado a 250 anos de prisão, que afirmou ter sido sua "imagem" comprometida pelo livro Psicopata, do jornalista Luiz Carlos Tavares; e pela Igreja Universal do Reino de Deus, por causa do livro Nos Bastidores do Reino, do ex-pastor Mário Justino. A editora ganhou todas! Desistir da ação e ficar mais ou menos quieto foi uma atitude inteligente do senador pefelista. Mas o jornal dele em Salvador, o Correio da Bahia, tem insultado minha editora e minha própria pessoa, inclusive publicando entrevistas de bandidos condenados por calúnia. Nosso advogado está avaliando a necessidade de acionarmos o Correio da Bahia por isso.

Quem tem medo de Antonio Carlos Magalhães?

L.F.E. – Acho que só tem medo de Antonio Carlos Magalhães quem é covarde e pusilânime, quem vive na Bahia e não paga impostos (porque ele manda mesmo os fiscais devassar a contabilidade) e quem tem a consciência pesada, pois se o homem insulta, acusa e vilipendia até quem não deve nada a ninguém, imagine quando deve. Quanto a mim e à minha editora, pode vir que não tem problema. Estamos limpos. O livro de João Carlos Teixeira Gomes, que vive na Bahia, é um exemplo de que ninguém honesto deve ter medo de Antonio Carlos Magalhães.

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