Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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ARMAZéM LITERáRIO >

Os curtas-metragens de Jean Manzon e o golpe de 1964

Por Tiago Eloy Zaidan em 02/06/2009 na edição 540

Em certidão emitida pelo 4º Registro de Títulos e Documentos, sediado em São Paulo, uma nova entidade, cujos estatutos estavam sendo inscritos em cartório, é descrita como ‘sociedade civil sem fins lucrativos com tempo indeterminado, de caráter filantrópico e intuito educacional, e tendo por finalidade a educação cultural, moral e cívica dos indivíduos’ (2001, p.21). Surgia o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes), propugnador das causas intelectuais orgânicas às classes dominantes. Lançado oficialmente no dia 29 de novembro de 1961, o Ipes foi uma das principais organizações geridas pela ala intelectual conservadora a utilizar, com eficiência, técnicas científicas de comunicação no intento de desarticular a sustentação de João Goulart na presidência e pavimentar um golpe de direita no país.

Agindo em meio a um complexo que envolvia outras instituições coordenadas pelo bloco modernizante-conservador, como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e a Campanha da mulher pela Democracia (Camde), o Ipes efetuou a aproximação do bloco modernizante-conservador aos profissionais da mídia, especialmente da televisão, como produtores, atores e diretores.

Também foram lançados e divulgados livros considerados oportunos pelo Ipes, precisamente em função de seus teores convergentes à política defendida pelo bloco modernizante-conservador, que se opunha ao reformismo de Goulart. Entre os títulos trabalhados pelo Ipes constam os exemplos citados por Denise de Assis (2001, p.23): Continuísmo e comunismo, de Glycon de Paiva; Como os vermelhos preparam uma arruaça, de Eugene H. Metherin; As defesas da democracia, de Gustavo Corção, e o clássico 1984, de George Orwell.

‘Utilize as armas do inimigo’

Por outro lado, os intelectuais orgânicos da burguesia encetaram ações de pressão e perseguição, engendrada contra aqueles profissionais da comunicação que não compartilhavam, ao menos no tanto que o Ipes ansiava, com a causa antirreformista e anticomunista do estrato burguês hegemônico. Inserto nesse bojo esteve o jornal Última Hora que, vítima de boicote, chegou ‘… a circular naqueles tempos com minguadas quatro páginas’ (2001, p.60).

Por sua atuação, convergente com interesses multinacionais e associados, diretoras da Camde foram, inclusive, convidadas pelos partidos Republicano e Democrata a conhecerem os Estados Unidos e algumas das suas instituições. Ainda foram protagonistas de uma edição especial da revista Reader´s Digest (2001, p.60), tradicional aliada da política exterior estadunidense.

Contudo, a despeito da importância de tais ações estratégicas, foi no campo do cinema, através de filmes de curta-metragem, que os intelectuais orgânicos à burguesia, ligados ao Ipes, apostaram as maiores fichas. Em um dos filmes de curta metragem divulgados pelo Ipes, intitulado Conceito de empresa, é recomendado: ‘Utilize as armas do inimigo. Lance mão de palestras de esclarecimento, gravações, o rádio, a televisão e a força mais eficiente e direta de propaganda moderna: o cinema’ (2001, p.26).

A disputa entre blocos distintos

Bem aceitos nos meios urbanos e altamente eficientes perante espectadores analfabetos das áreas menos favorecidas do país, os filmes de curta-metragem difundidos pelo Ipes somaram de modo decisivo forças às atividades de mobilização de setores da classe média e da burguesia e de doutrinação no seio dos demais segmentos sociais. Seus qualificados roteiros, atribuídos ao escritor José Rubem Fonseca, tinham como tônica a defesa do engajamento do empresariado e da modernização das empresas e a crítica ao comunismo e aos comunistas – os quais, aliados aos movimentos sociais, supostamente prejudicavam os investimentos no país, impedindo a ‘evolução da nação’.

É especialmente no uso da mídia cinema pelo Ipes que a jornalista Denise de Assis foca seu estudo na obra Propaganda e cinema a serviço do golpe (1962/1964), projeto nascido ‘… da curiosidade natural de uma repórter que quis conhecer melhor um assunto do seu interesse: o Ipes’ (2001, p.15), segundo conta a autora, na introdução do livro.

Orientada pelo professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisa pode ser considerada uma espécie de reportagem ampliada de uma matéria produzida pela própria Denise Assis para o Jornal do Brasil de 28 de fevereiro de 1999, ocasião em que investigou os arquivos do general Golbery do Couto e Silva. Como não podia deixar de ser, também é fruto de conversas com o PhD em Ciência Política e professor René Armand Dreifuss, autor do definitivo 1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe, referência para qualquer estudo sobre a disputa de posições entre blocos históricos distintos envolvidos no episódio da tomada do poder engendrada em 1º de abril de 1964.

Títulos dos filmes produzidos

Apesar do rigor acadêmico abarcado, a empreitada da jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, é marcada por uma linguagem leve, acessível e recomendada ao grande público. Seu texto conta, ainda, com as colaborações pertinentes da repórter Marion Monteiro e de José Louzeiro, autor de roteiros antológicos como Pixote. A participação de Louzeiro ocorre por meio do artigo O Ipes faz cinema e cabeças, para o qual o conteúdo dos curtas – permeados por conselhos e ameaças –, teriam como objetivo: ‘… fazer cabeças, despolitizar. Induzir os mais humildes (…) a entender que não é nada difícil passar do estado de miséria ao estágio das riquezas, desde que os infelizes tenham sorte, ganhem na loteria ou consigam bons casamentos’ (2001, p.31).

Bem produzidos, com ‘… imagens que são de bom nível ainda hoje’ (LOUZEIRO In ASSIS, 2001, p.34), os filmetes de 8 a 10 minutos e meio contaram com a assinatura do reputado cineasta e fotógrafo Jean Manzon e de Carlinhos Niemayer, embora este último tenha negado o seu envolvimento com o Ipes (ASSIS, 2002, p.25).

Tão notável quanto a qualidade da incursão dos intelectuais modernizantes-conservadores ao cinema foi o alcance da exibição dos curtas, que contou com o suporte de caminhões adaptados para projetar as produções de Jean Manzon em favelas, bairros de periferia e grêmios estudantis. Sessões de exibição foram organizadas por empresários para seus funcionários, com o fulcro da Mesbla S.A., doadoras dos equipamentos de projeção necessários. A divulgação dos filmetes contou ainda com o empenho do Sesi e do Senac, além dos demais integrantes do sistema ‘5S’, que visavam a alunos e trabalhadores.

Espaços mais sofisticados também foram contemplados com a projeção dos curtas, possibilitando a audiência das classes mais providas. Aqui figuram os clubes de serviços, como Lyons e Rotary, e clubes sociais, como o Monte Líbano, situado em São Paulo (2001, p.42-43).

Os títulos produzidos pela Jean Manzon Films S.A. para o Ipes foram: O Brasil precisa de você; Nordeste, problema Nº 1; História de um maquinista; A vida marítima; Depende de mim; A boa empresa; Uma economia estrangulada; O Ipes é o seguinte; Portos paralíticos; O que é o Ipes?; Criando homens livres; Deixem o estudante estudar; Que é a democracia? e Conceito de empresa (LOUZEIRO In ASSIS, 2001, p.36-39).

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Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas; mestrando do programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco; pesquisador do Grupo de Pesquisa Comulti – Ufal/COS/CNPq, no grupo de estudo Mídias, Processos Sociais e Economia Política da Comunicação

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