Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > VIDA DE JORNALISTA

Ossos do ofício

Por Rodrigo Rodrigues em 25/10/2005 na edição 273

Mais uma segunda-feira e a luta continua, ou melhor a caça. Não estou falando sobre nenhum passeio de férias no Pantanal – mesmo porque estaria sendo ecologicamente incorreto. Na atual conjuntura, cometer erros pode ser letal.


A preparação começa no dia anterior. Um leitura apurada nos classificados e, logo de cara, encontro a minha rês, pronta para o abate: ‘Jornalista – free lance, c/experiência em infor. sindical. (…)’. Por questões óbvias, preservarei o restante do anúncio que menciona o endereço. Penso, logo, não desisto: vou lá. Tenho tudo para conseguir a vaga (eu e mais mil…)


Acordo cedo, faço a barba, o tradicional gel no cabelo, o famoso perfume (saio sem dinheiro, mas nunca sem um bom cheiro) e uma roupa apresentável. O restante da armadura é composto pelo famigerado currículo, carteira de trabalho e uma pasta com os ‘grandes feitos’ que a profissão proporciona.


Para minha sorte, preciso andar apenas três ou quatro quarteirões para chegar ao local. Mas, mesmo assim, não o encontro. Desconfiado e (des)confiante, finjo telefonar de um daqueles aparelhos públicos espalhados pelas calçadas, para sondar melhor o ambiente. Ao terminar o ‘telefonema’ decido entrar. Um mal-humorado indivíduo provecto me (mal)recebe e indica o local procurado.


Na porta, leio: ‘FAVOR ENTRAR SEM BATER’. Mas, por via das dúvidas, prefiro o contrário. Como disse no início, qualquer falha pode colocar tudo a perder.


Após o toc-toc-toc na madeira resolvo espiar por um buraco que tem na porta, onde parece ter existido um ‘olho mágico’. Não vejo ninguém, mas resolvo esperar. Absorto no meu desejo, tenho uma idéia: como não tem ninguém e estou perto de casa, volto depois. Mas antes de fazê-lo ‘jogo’ o meu currículo pela fresta da porta, afinal, tenho de ganhar tempo.


Ao reencontrar-me com o porteiro, pergunto se os responsáveis pelo setor ainda não chegaram:


– ‘Um já chegou, mas o outro, que é o chefe, está atrasado’, balbucia o digníssimo.


Até aí, tudo normal: chefe atrasado e recepcionista/porteiro/proprietário mal-educado (guardadas as devidas exceções). Volto ao local e, dessa feita, bato com mais vigor e alguém vem me receber. Identifico-me e sou convidado a entrar, quando encontro mais dois parceiros.


Conversadinho que sou, ensaio um bate-papo, mas apenas um dos rapazes tem boa vontade para que o processo comunicacional se torne efetivo.


Muito simpático, o distinto mancebo revela suas aventuras como ‘caçador’, a maioria delas mal-sucedidas, diga-se de passagem. Com a atenção difusa, ouço e, obliquamente, mantenho os olhos cautos ao ambiente que me cerca.


Computadores aparentemente desmontados, cadeiras quebradas, chão sujo, entre outros. Passam-se 10 minutos e o ‘chefe’ chega. ‘Vocês vieram por causa do anúncio?’ Após a resposta positiva, o ‘enternado’ senhor nos presenteia com uma daquelas fichas de solicitação de emprego.


Quando tudo parecia bem, eis que surge o imponderável: uma jovem senhora se apresenta, armada como eu, para pleitear a ‘minha’ vaga (os outros rapazes estavam interessados em outra oferta). A ‘entrevista’ não dura três minutos e a concorrente vai-se embora, desiludida. Penso, mais uma vez, não desisto: a vaga é minha.


Ao iniciar o bate-papo com o ‘chefe’ para falar sobre os meus dotes e habilidades sou interrompido:


– Esse telefone celular que está no currículo é seu?


– Sim.


– Você está sempre com ele?


– Sim.


– Mas, quando te ligam, você atende? Estou perguntando, porque tem gente que tem celular, mas não atende ninguém.


Respondo que não me enquadro na referida situação.


Neste momento, o jornalista-chefe dá por encerrada a nossa ‘entrevista’ da seguinte forma:


– ‘Hoje, estou muito ocupado. Vou ler o seu currículo e, depois, te ligo’.


Até então, continuava tudo normal. Afinal, tenho vasta experiência em processos seletivos dessa estirpe. O pior mesmo estava reservado para o fim, como numa partida decisiva de futebol, dependendo para qual time você torça.


Ao sair da sala do jornalista-chefe, deparo-me com a cena mais triste do dia. Pior mesmo do que a miséria, consuetudinária, que encontrei no traslado e de mais uma negativa, na ‘caça’ inglória por uma colocação no mercado de trabalho.


Grafado em papel A4, fonte arial, corpo 120, o epitáfio do vernáculo tupiniquim preceituava:


‘Sejam benvindos!!!’

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