Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ARMAZéM LITERáRIO > ELEIÇÕES 2010

Palanque da TV é mais eficaz que comício digital

Por Alberto Dines em 17/08/2010 na edição 603

A TV retoma a sua função de grande arena política. E reafirma a velha hegemonia: vale o que aparece na telinha. Começa nesta terça o horário eleitoral na TV depois de uma semana marcada pelas excelentes entrevistas dos principais candidatos na bancada do Jornal Nacional da Rede Globo.


Apesar dos vaticínios dos futurólogos, comunicólogos e politólogos, apesar dos micros, celulares, i-Phones, i-Pods ou i-qualquer-coisa e apesar das gigantescas redes sociais, seus monitores não conseguiram substituir a realidade – ou pseudo-realidade – que se impõe através da TV. Teoricamente, a televisão nada decide, mas em determinadas situações, as situações-limite, é decisiva. A TV conta, conta muito porque doravante comandará o espetáculo eleitoral.


Fabricação de empatia


O rosto do candidato (a) em close, bonito (a) ou feio (a), com botox ou sem botox, com cabelos para cima, amarrados em coque ou sem cabelos, suas vozes e, sobretudo, suas convicções, continuarão chegando ao eleitor via TV. O pulverizado mundo digital, não obstante seu gigantismo e seus propalados poderes, não transmite o calor presencial oferecido pela TV. E talvez jamais conseguirá. Sua função é formar atitudes. A fabricação de empatias ocorre na TV.


A internet funcionou esplendidamente na eleição de Obama para destruir os preconceitos da sociedade americana e tornar palatável a hipótese de um negro na Casa Branca. Mas a figura, a voz, as palavras e o gestual de Barack Obama transmitidos através da TV foram os responsáveis pelo seu espetacular triunfo.


O debate sem debates da Band há duas semanas teve audiência insignificante, mas funcionou como aperitivo e ensaio geral. Foi mal planejado, mal estruturado, não repercutiu porque o resto da mídia não apostou nele. Com um pouco mais de confiança no poder da mídia convencional, a audiência teria sido bem maior. Acontece que a mídia está atarantada, ainda não decidiu se quer viver ou desaparecer.


Maravilhosa armadilha


Nas últimas eleições inglesas, a mídia mostrava-se inapetente, cansada, resignada com a perspectiva de entregar a batuta à Internet. Então veio a TV com a sua incrível capacidade de humanizar a figura focalizada e o fleumático eleitor inglês, ao invés de entregar-se à despersonalização digital, entregou-se com prazer ao antiquado e caloroso modelo de debate eleitoral.


A TV é uma maravilha. E uma perigosa armadilha – impossível enganá-la. O maquiador, o marqueteiro, a fonoaudióloga e o media trainer podem disfarçar uma ruga, a gotinha de suor no rosto, um bordão empobrecedor, um timbre desagradável na voz, a incapacidade de seduzir. Mas o tropeço numa frase, a gaguejada, o olhar assustado ou perdido em busca de uma palavra salvadora podem arruinar uma campanha impecável. Quem duvida deve rever a reconstrução ficcionalizada da famosa entrevista do ex-presidente Richard Nixon com o jornalista David Frost.


A potencialidade da TV como testemunha é infinita. Ela tem atrás de si mais de um século de história do cinema somado ao meio século da sua própria história de sucessos como veículo essencialmente jornalístico.


Contenção de riscos


Não é por casualidade ou capricho que os marqueteiros da candidata do governo empenham-se em atrair o eleitor internauta. Não querem correr riscos: uma mancada na rede de computadores pode ser rapidamente desfeita, corrigida, neutralizada, deletada. Instantânea e definitiva, a TV não perdoa, é fatal.


Eugênio Bucci reuniu no último domingo um admirável conjunto de informações e percepções extremamente oportunas a respeito da rentrée da TV em nosso espetáculo eleitoral (‘William Bonner para presidente?‘, caderno ‘Aliás’, Estadão).


Estas mal-traçadas pretendem apenas retomar o tema e lembrar que a história não é instantânea e, sendo assim, suas lições levam tempo para sedimentar. A internet é capaz de produzir ‘milagres’ em determinadas condições, não em todas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/08/2010 Herman Fulfaro

    Perfeito o comentário da Dra. Cristiana. O esperado escândalo, a baixaria, o fato novo capaz de dar uma reviravolta na situação não só é esperado com insólita naturalidade aqui no Brasil como no exterior:
    “Ms Rousseff’s lead is not yet unassailable. If Mr Serra can deny her outright victory, he might have a chance in a run-off. And in Brazil there is always the possibility of a scandal or blunder.” –
    http://www.economist.com/node/16792753?story_id=16792753 – Em outras palavras, os demo-tucanos em concluio com o PIG podem se orgulhar do jeitinho estúpido de fazer política, colocando o país como alvo de chacota no mundo inteiro, pois como bem disse o The Economist a eleição não está ganha (correto!), o Serra ainda tem chance de levar a disputa para um segundo turno (perfeito!), e no Brasil sempre existe a possibilidade de um escândalo ou vexame de última hora (what a shame!)

  2. Comentou em 21/08/2010 Herman Fulfaro

    Perfeito o comentário da Dra. Cristiana. O esperado escândalo, a baixaria, o fato novo capaz de dar uma reviravolta na situação não só é esperado com insólita naturalidade aqui no Brasil como no exterior:
    “Ms Rousseff’s lead is not yet unassailable. If Mr Serra can deny her outright victory, he might have a chance in a run-off. And in Brazil there is always the possibility of a scandal or blunder.” –
    http://www.economist.com/node/16792753?story_id=16792753 – Em outras palavras, os demo-tucanos em concluio com o PIG podem se orgulhar do jeitinho estúpido de fazer política, colocando o país como alvo de chacota no mundo inteiro, pois como bem disse o The Economist a eleição não está ganha (correto!), o Serra ainda tem chance de levar a disputa para um segundo turno (perfeito!), e no Brasil sempre existe a possibilidade de um escândalo ou vexame de última hora (what a shame!)

  3. Comentou em 17/08/2010 Miro Junior

    O Dines está desenvolvendo uma fixação pelo Bonner, entrevistou o mesmo na TV para o OI e não teve pudores em dizer que o que se o fato não sai na Globo então ele não acontece, esta semana já produziu um outro artigo ‘Os pesos e as medidas’ elogiando a Globo e o Bonner, agora volta novamente no assunto e para não ficar só chama o Bucci para afagar o Bonner……O que pensa o Dines de seus leitores?…..Será que os acha os ‘Homer Simpsons’ igual ao seu colega Bonner?

  4. Comentou em 17/08/2010 francisco neves junior

    Diante de toda esta parafernália tecnológica que tentam submeter a nossa sociedade já tão mal informada, manipulada e sem memória é que me pergunto: Onde e em que momento a população poderá obter um mínimo da verdade de cada candidato? Pelo jeito, com o desenvolvimento da tecnologia, daqui a alguns anos, os candidatos serão apresentados através de holografias perfeitamente programados, ou seja, sem defeitos, sem atos falhos e também sem coração.

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