Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ARMAZéM LITERáRIO > BRASIL

Papagaio entrevista presidente

04/03/2011 na edição 631


Folha de S. Paulo, 2/3


Fernando de Barros e Silva


Dá o pé, Dilma


‘O nosso objetivo é fazer com que a economia continue crescendo de forma estável, sem que a inflação volte. Olha, acho que está muito baixo esse fogo’. Dilma Rousseff não se referia ao fogo baixo da economia, mas da frigideira. A presidente falava enquanto fazia uma omelete ao lado de Ana Maria Braga, no programa ‘Mais Você’.


Dilma já falou ao ‘Washington Post’ e aos jornais argentinos. Merece registro que sua primeira entrevista à imprensa brasileira tenha sido concedida ao louro José. A rigor, nem se deve chamar de entrevista a papagaiada que foi ao ar ontem pela manhã. Nunca antes neste país se viu um louro tão puxa-saco. Sua voz ecoa um certo clima geral.


‘Mais Você’ é um programa de variedades domésticas e autoajuda, com uma pitada de jornalismo light. Está mais perto da cozinha que da República. Nos trechos ‘sérios’ do papo, a apresentadora usava perguntas só para paparicar o governo. O que prevaleceu no ar foi o tom comemorativo, o fru-fru sentimental, o caldeirão culinário onde borbulhavam ‘tantas emoções’.


Uma música triunfal acompanhou a chegada de Dilma ao Projac, de helicóptero. Na despedida, a trilha sonora sugeria algo no estilo ‘Nova Era’. Depoimentos de populares encantados, testemunhos de velhos amigos, cenas da intimidade do poder -tudo foi arquitetado para idolatrar a mulher-presidente.


Quanto mais Dilma dizia ser uma ‘pessoa comum’, ‘como outra qualquer’, mais o programa fazia disso um mote do culto à sua personalidade. Nas disposições e no formato, havia muito de propaganda eleitoral neste matutino da Globo.


Dilma, em certos instantes, não escondeu seu constrangimento. Mas há no Planalto grande preocupação com sua imagem no marco simbólico dos cem dias. A boa impressão que ela causa hoje entre as elites é diferente de aprovação popular. É preciso popularizar Dilma. É preciso explicar direitinho, para o louro entender, que não se faz omelete sem quebrar ovos.

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