Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > SISTEMAS DE BUSCA

Para achar agulha no palheiro

Por Alexander Halavais em 01/03/2011 na edição 631

O empiricismo se baseia na capacidade dos observadores concordarem a respeito de uma representação de suas experiências, ou seja, de suas percepções do mundo. Mesmo quando não existem múltiplos observadores, o empiricismo requer que se assuma que alguém outro, em nosso lugar, faria os mesmos tipos de observação e os representaria de modo semelhante. Mesmo nas ciências naturais advêm daí algumas questões complicadas sobre o que pode ser observado e, ainda, se qualquer observação pode, de fato, ser generalizada. Com algumas exceções relativamente simples – embora nem sempre triviais –, as observações da sociedade são muito mais difíceis de reproduzir com exatidão. Não apenas as experiências sociais são sempre vinculadas a um momento histórico particular e complexo, mas, num certo sentido, elas não são parte do mundo natural, material. Estruturas sociais são imaginadas coletivamente, embora nem por isso sejam menos reais.

Interações sociais em ambientes online acrescentam outra camada de virtualidade ao objeto da observação ou, mais exatamente, tornam mais óbvio o quanto as interações sociais são efêmeras. A interação social online, particularmente nas primeiras pesquisas na internet, era uma coisa fora do ‘espaço da carne’ e a rede era vista como um reino angélico para o discurso e para a sociedade mediada. Nos anos seguintes, algumas das melhores pesquisas sobre a internet e a sociedade reconheceram que as interações online raramente são exclusivas do mundo online. Mesmo assim, dado que, quando se trata de relações sociais, muito pouco divide o ‘virtual’ e o ‘real’, a ideia de que nós podemos ser observadores e intérpretes neutros dos comportamentos sociais permanece um desafio.

Construção colaborativa

E é mesmo um desafio. Ninguém jamais disse que a ciência social é fácil. Porém, as recompensas do envolvimento em pesquisas de base empírica e metodologicamente consistentes fazem com que esse desafio valha a pena. Em uma passagem famosa, Bernard Baruch notou que ‘todo homem tem direito à sua própria opinião, mas nenhum homem tem direito de estar errado em seus fatos’.

Realmente, a definição poderia ter agradado Durkheim, para quem o estudo da sociologia era o estudo dos faits sociaux, entendidos como aqueles elementos da estrutura social que são, em certo sentido, generalizáveis ou dominantes em relação a peculiaridades individuais. Nós não temos liberdade para criar nossos próprios fatos sociais, nossa única esperança é descobri-los.

Vamos evitar a armadilha de essencializar a investigação empírica, ou de assumir que ela requer adesão a modelos epistemológicos positivistas ou hipotético-dedutivos. O empiricismo define um conjunto de instrumentos e modos de usá-los. Eles são as ferramentas favoritas dos cientistas sociais, mas isso não significa que eles permaneçam apenas em nossas mãos. Nada impede um flânneur de assumir uma perspectiva que reconhece comportamento e estrutura para além do indivíduo, por exemplo.

O empiricismo é mais techné que episteme – não que esses dois possam alguma vez ser totalmente separados. O empiricismo representa um modus operandi que permite construção colaborativa em prol de compreensão compartilhada – compreensão que vai além tanto do indivíduo que observa quanto do que é observado. Ele nos permite mudar de perspectiva e, ao mesmo tempo, ajuda a fazer com que os outros enxerguem as coisas como nós as vemos.

‘Clima’ e ‘tempo’ social

Os primeiros cientistas naturais desenvolveram instrumentos de medição que lhes permitiram ter certeza que suas experiências não eram exclusivas ou individuais. Eles fizeram isso através da criação de comparações entre observações do mundo natural – métricas que viabilizaram alguma consistência nas observações por diferentes observadores. Talvez uma das narrativas mais emblemáticas da Renascença seja a de Galileu aprendendo a fabricar as lentes para construir seu próprio telescópio. O telescópio e o microscópio representam instrumentos para a compreensão de aspectos do mundo natural que, sem eles, não são visíveis. Eles permitem novas visões, nas quais a medição se dá conforme um sistema de referência distanciado do indivíduo. Essa extensão dos sentidos também é necessária nas ciências sociais. A internet constitui uma representação de nossas práticas sociais e demanda novas formas de observação, que requerem que os cientistas sociais voltem a fabricar suas próprias lentes, procurando instrumentos e métodos que viabilizem novas maneiras de enxergar.

Novas perspectivas são necessárias, particularmente porque a interação social em ampla escala é muito difícil de observar, o que torna a percepção da estrutura social especialmente difícil. Há quem considere que a habilidade de fazer previsões seja o teste mais seguro da boa teoria. A previsão em ciência social é particularmente rara, mas a mesma dificuldade acontece em relação aos problemas interessantes das ciências naturais. Quando os sistemas se tornam suficientemente complexos, eles se tornam inerentemente imprevisíveis.

Nós podemos ser capazes de dizer – abstratamente – como a chuva cai, mas isso não significa que somos capazes de prever o tempo no final de semana. Os processos sociais são muito mais como o tempo do que como as órbitas dos planetas. A grande quantidade de coisas que acontecem a cada momento torna a previsão difícil. O crescimento da sociologia e da ciência social empírica no último século nos mostra que nós podemos fazer algumas previsões a respeito do comportamento humano com base em teorias, particularmente em nível macro, estatístico. Essas previsões tendem a ser generalidades estatísticas descritivas – a temperatura em Cingapura em agosto costuma estar em torno de 31 graus Celsius – e não situações específicas – traga seu guarda-chuva na próxima terça-feira. Em outras palavras, nós podemos dizer algo a respeito do ‘clima’ social, mas menos sobre o ‘tempo’ social.

Compreensão da sociedade

Na maior parte dos casos, entretanto, nós estamos especialmente interessados nessas observações mais práticas e baseadas em regras do que nas leis mais abstratas e teóricas da vida social. Existem várias abordagens para compreender os ambientes sociais baseados em regras, mas elas requerem uma abordagem flexível do empiricismo, e, particularmente, da questão da generalização. Elas demandam que aceitemos que, embora nossos achados não possam ser generalizados através do tempo ou para outros contextos, as perspectivas da investigação empírica – abordagens baseadas em observações rigorosas e transparentes – continuam sendo poderosos aliados do pesquisador que quer dizer mais sobre os sujeitos de sua pesquisa que sobre si mesmo. Esses instrumentos e perspectivas científicas – quando separadas das visões de mundo estritamente hipotético-dedutivas que simplificam demais a experiência social – sempre foram usados nas humanidades. A análise de redes sociais, por exemplo, tem provado ser um instrumento particularmente apto para a compreensão de uma sociedade que se encontra cada vez mais estruturada como uma rede e que utiliza novas ferramentas de rede, e já era utilizada por antropologistas e sociólogos há décadas, sem que isso implicasse a necessidade de reduzir as relações sociais a causalidades simples.

Mesmo nas humanidades, as abordagens computacionais têm aberto caminho e, enquanto as ‘humanidades digitais’ eram um campo relativamente marginal no final do século 20, muitos agora as consideram parte essencial do conhecimento humanístico contemporâneo. A pesquisa social sempre foi difícil, e a possibilidade de ser capaz de observar a sociedade em uma escala ampla sempre pareceu remota. Mas a internet deu aos cientistas sociais um presente. Esse presente, como todos os presentes, veio com uma obrigação. A internet nos permite ver mais interações sociais do que jamais esperávamos, e agora nos deparamos, em muitos casos, com o excesso de uma coisa boa. Que esperança temos de fazer sentido de dados tão complexos? Esta é uma questão que agora atravessa todas as ciências – todos nós compartilhamos o novo mundo dos sistemas complexos. Parte da resposta é que nós precisamos daquilo a que Joël de Rosnay denominou, em 1979, um ‘macroscópio’: um instrumento para compreender a enorme complexidade da vida social online. É claro que nenhuma ferramenta isolada pode prover isso, mas um conjunto de técnicas fornece perspectivas que são úteis. Como sempre, há o perigo potencial de que deixemos que os nossos instrumentos nos usem. Tanto o crítico dos métodos empíricos quanto o pesquisador ingênuo podem assumir que a ferramenta em si mesma produz a pesquisa. Um violino bem afinado pode ser tocado com sentimento, mas, sem treino ou disciplina, mesmo o mais sensível dos músicos está fadado à cacofonia. Do mesmo modo, o cientista social competente não precisa conferir seus interesses, sua convicção política ou seu conhecimento na soleira da porta. O fim para o qual esses instrumentos de pesquisa são utilizados é tão importante quanto a virtuose com que são empregados.

Os melhores cientistas sociais da atualidade estão aprendendo uns com os outros quais métodos empíricos funcionam bem, aplicando-os em novos contextos e compartilhando seu trabalho e forma transparente com a comunidade de pesquisadores. A sociedade em rede nos força a trabalhar de novas maneiras e a estudar a sociedade de modos igualmente novos. Ela nos força a pensar novamente sobre nossos instrumentos e ter certeza que eles são apropriados para as tarefas a que os aplicamos. Ao encarar esse desafio, nós nos preparamos para nosso próprio Renascimento na compreensão da sociedade [Nova York, outubro de 2010].

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Professor associado na Quinnipiac University e vice-presidente da Association of Internet Researchers (AoIR). Obteve seu título de Ph.D. em Comunicação na University of Washington e é Graduado em Ciência Política pela University of California at Irvine

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