Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > O CÓDIGO DA VINCI

Para decodificar a proibição

Por Gabriel Perissé em 29/03/2005 na edição 322

Se o Vaticano ressuscitar o Index librorum prohibitorum, não poderá restringir-se a proibir O Código Da Vinci. Há milhares de obras a serem condenadas. Só no terreno da ficção em português, a Igreja terá de levar à fogueira livros de José Saramago, João Ubaldo Ribeiro e até do católico Paulo Coelho.

‘Não leiam nem comprem O Código Da Vinci‘, recomendou o papabile cardeal Tarcisio Bertone, arcebispo de Gênova, numa declaração que deu a volta ao mundo. Convite ao boicote de um livro em que, por exemplo, afirma-se ter Jesus Cristo se casado com Maria Madalena.

Convite ineficaz. Julgo mais inteligente o esforço do pastor evangélico Erwin Lutzer, que escreveu A fraude do Código Da Vinci, oferecendo uma visão cristã do homem Jesus. O boicote ao best-seller só aumentará as vendas, atraindo mais gente para ver o filme a estrear em 2006. O cardeal nunca ouviu falar que ‘o proibido é mais gostoso’?

Pingo é letra

Mas talvez a declaração de Bertone não tenha uma simples motivação moral-teológica… Sobre este terrível livro, pediu conselho a um dos seus mais próximos colaboradores, monsenhor Francesco Moraglia, que, por acaso, está ligado ao Opus Dei (entidade que aparece no romance de Dan Brown de maneira nada lisonjeira).

Moraglia, celebrante principal de uma das missas em homenagem ao fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá, em 26 de junho de 2004, convidou Carl Olson e Sandra Miesel, que escrevem no site da instituição, para um debate público de cartas marcadas, cujas conclusões levaram o cardeal à decisão de liderar este boicote ao livro mais demoníaco já publicado na face da Terra…

A desconfiança é a seguinte. Esta manobra veio ao encontro dos interesses do Opus Dei, especialista em proibir leituras. Na década de 1960, quando Paulo VI aboliu o Index, Escrivá comunicou a quem quisesse ouvi-lo que ele (e mostrava o dedo indicador) mantinha o seu. E, de fato, pouquíssimos membros do Opus Dei obtêm autorização para ler hereges como Jung, Sartre, Umberto Eco, James Joyce… Até os escritos de Joseph Ratzinger (antes de ser convidado por João Paulo II para trabalhar no Vaticano) eram desaconselhados.

Para bom entendedor, pingo é letra. Esta condenação isolada consiste numa demonstração de força religiosa inspirada pelo Opus Dei, cuja mensagem decodifico e traduzo: ‘Podemos eleger um próximo Papa capaz de excomungar qualquer voz dissonante’.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; (www.perisse.com.br)

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