Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ARMAZéM LITERáRIO >

Para a compreensão do jogo da imprensa

Por Rodolfo Tiengo em 20/05/2008 na edição 486

A regra do jogo é a compilação das idéias de Cláudio Abramo, um dos maiores jornalistas brasileiros.

‘Para fazer jornal, há apenas algumas regras básicas: é necessário escrever na língua do país, de maneira compreensível, é preciso haver um horário para começar a trabalhar e para fechar a edição; o repórter não pode ser cego, o redator não pode ser paralítico das mãos. Fora isso, todas as tentativas de legislação, de estabelecimento de normas extremamente minuciosas acabam numa mediocridade terrível’ (Abramo, 1989, p.172).

Cláudio Abramo é a representação do jornalista que torna digna a profissão, seja pelas circunstâncias de sua vida e formação, seja pelo modo com que atuou na imprensa brasileira. Vindo de uma família com influências anarquistas e trotsquistas que teve de fugir da repressão do Estado Novo, não freqüentou regularmente uma escola; passou longe dos bancos de um curso superior. Porém, que diferença isso faz quando se pode ser um dos mais destacados especialistas do efêmero do Brasil? Ademais, a base para os que atuam no jornalismo, além do comprometimento com a inteligência, nada mais é que a palavra em estado puro. A leitura é o soluto para o suco da escrita.

A direita é fisiológica

Para Abramo, o aprendizado veio do raro olhar para as coisas presenteado pelo subsídio literário e humanístico de Flaubert, Dostoievski, entre outros escritores clássicos. Tendo passagem pelos principais jornais diários do país, Estado e Folha, onde concedeu contribuição mister nas reformulações gráficas e editoriais, além da revista Senhor e Jornal da República, teve a infausta e perfeita chance de conviver com os anos de chumbo do regime militar, o período mais obscuro de nossa história, do ponto de vista político, e mais feérico, do viés ideológico. Em 1975, o jornalista foi preso pelo DOI-Codi por subversão.

Um homem sem as pretensas expectativas de muitos por premiações; tampouco lembrete nos anais da humanidade. Tratou do cotidiano com a simplicidade e a perspicácia necessárias à função do jornalista. Foi destemido na crítica ao obscurantismo acadêmico da década de 1980. ‘Essa burguesia nacional execrável desenvolveu toda uma cultura ancilar, dependente, conformista e submissa; basta ver o que dizem e escrevem alguns de nossos intelectuais, uns abertamente cooptados por dinheiro (dólares), outros, por desespero existencial’ (ABRAMO, 1989, p.47).

Cláudio Abramo foi repórter, chefe de redação e articulista. Demonstrou que é possível compreender os meandros de uma sociedade pelos detalhes, pela técnica de enxergar o invisível tão evidente, pela coragem de perguntar o que poucos questionam e cortar os falsos rodeios de idéias, os circunlóquios que a nada levam. Tinha opinião formada. ‘Tenho muita dificuldade de trabalhar com gente de direita, porque a direita brasileira, como não é ideológica, é fisiológica, e acho muito difícil conviver com pessoas desonestas. Não tenho muito jogo de cintura para isso’ (p.39).

Miséria em Barcelona

Mino Carta assim o descreve: ‘Jornalistas como Cláudio conhecem de cor e salteado a gravidade da sua tarefa e a cumprem com ceticismo na inteligência e otimismo na ação, reservando-se o direito de manterem aceso o espírito crítico, como uma lâmpada votiva’ (p.12).

Sobressaltando a possibilidade de ser prático demais, Cláudio Abramo transformou seus artigos em verdadeiros mini-estudos de caso, a exemplo da cobertura feita sobre a vida dos pescadores no litoral paulista, no fim da década de 1940. Uma viagem à Espanha, na década de 1950, rendeu várias contribuições do ponto de vista sociológico, quando sabemos que em determinadas regiões daquele país encontramos os mesmos percalços para o desenvolvimento social que aqui detectamos. Descobrimos que tanto lá quanto cá existem, ou existiram, famélicos por comida, por novas oportunidades, por uma saída. Assim, Abramo descreve Barcelona, em janeiro de 1952: ‘Um terço da população de Barcelona vive em cubículos, em tocas, em porões, atrás de tabiques, em quartos imundos que proliferam nestas ruas estreitas e aterradoras. Dois terços da população ganham, com seu trabalho normal, menos do que necessitam, diariamente, para sobreviver’ (p.59).

Exercício diário da inteligência

É através da objetiva imaginária de Abramo que vamos até a Revolução Russa, de 1917, ou deparamos com pensadores que jamais imaginaríamos encontrar. Para os jornalistas, uma lição que formata várias: a experiência, tão somente ela, é hábil para dar o fôlego ao desenvolvimento maduro das idéias, concede o parâmetro que falta a muitos jovens.

Esses conhecimentos talvez não nos chegassem com tanta objetividade e clareza, com tamanha facilidade, não fosse Cláudio Weber Abramo, filho de Abramo, dedicar-se ao arrolamento oportuno dos tratados do pai em A regra do jogo (Companhia das Letras, 1989). A curta antologia é o que poderíamos chamar de estudo básico do comunicador; não ler é sinônimo de prejuízo intelectual.

Não menos importantes que os artigos publicados em mais de três décadas de profissão, estão as curtas porém suscitantes argüições sobre a liberdade de expressão, que para ele é inviável aos repórteres e possível aos donos dos grandes jornais; e sobre a objetividade, que ele encara como um grande mito etc.

Obras como essa são cabíveis em nosso tempo, quando a agenda noticiosa do jornalismo, submetida às regras do empresariado, simplesmente corrompe-se na cobertura descabida e desumana dos fatos, da exploração vazia da desgraça, da privacidade, da besta redução da realidade aos números, estatísticas, suposições e mentiras. Condição tão inglória que, às vezes, é possível esquecer que o jornalismo, como diria o próprio Abramo, é o exercício diário da inteligência; não da mera e cega sistemática.

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Repórter do jornal Comércio da Franca

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